O tamanho da fatura em 2019

Inflação deve forçar quedar na taxa Selic até fevereiro de 2018, mas os juros básicos terão que subir novamente ainda no ano que vem

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

15 Novembro 2017 | 05h48

O mercado financeiro aposta que o Banco Central vai reduzir a taxa Selic para o nível mais baixo da sua história até fevereiro de 2018, num esforço de injetar estímulo adicional à tímida recuperação da economia, mas que os juros básicos terão de voltar a subir ainda no ano que vem.

A fatura, na forma de alta de juros, só chegará de forma integral em 2019 e a pergunta que muitos analistas começam a fazer é: quão amargo será um novo ciclo de aperto monetário?

O IPCA deve encerrar em 3,09% neste ano e em 4,04% em 2018, conforme as projeções de analistas na pesquisa Focus, do Banco Central. Ou seja, abaixo da meta de inflação de 4,50% para este ano e o próximo. Em 2019, a meta cairá para 4,25% e em 2020, para 4,0%.

Com o alívio na inflação, os analistas consultados na pesquisa Focus apostam que a Selic cairá para 7,0% na reunião do Copom em dezembro e depois para 6,75% em fevereiro de 2018. Na estimativa desses analistas, o BC iniciará um ciclo de aperto monetário ainda em 2018, elevando os juros em 0,25 ponto porcentual em novembro do ano que vem para 7,0%. Até abril de 2018, o BC subirá a Selic para 8,0%, segundo essas apostas.

No seu patamar mínimo histórico, até fevereiro do ano que vem, a política monetária estará claramente no campo estimulativo, ou seja, abaixo do que os analistas considerariam como a taxa neutra de equilíbrio.

Quando a economia voltar a crescer com mais força, se a Selic estiver ainda abaixo dessa taxa neutra de equilíbrio, a inflação poderá acelerar para níveis indesejados. Os analistas projetam um crescimento de 0,73% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano e de 2,50% em 2018.

O BC não fala o que considera como taxa de juros real neutra. E cada analista no mercado financeiro tem a própria estimativa sobre qual seria esse nível. No entanto, muitos dizem que os juros reais neutros teriam caído para entre 4,0% e 4,5%.

É por isso que a projeção da Selic em abril de 2019 está em 8,0%, refletindo, portanto, um cálculo simplista de juros reais de 4,0% mais a meta de inflação a ser perseguida pelo BC em 2019, de 4,25%. Mesmo com Selic a 8,0%, a política monetária estaria apenas no campo neutro.

Estaria o mercado financeiro demasiadamente otimista ao estimar que o juro real neutro permanecerá ao redor de 4,0% em 2019? E que uma política monetária neutra será suficiente para manter a inflação sob controle?

Caso contrário, o aperto monetário estimado atualmente na pesquisa Focus de 1,25 ponto porcentual (de uma Selic de 6,75% para 8,0%) seria insuficiente para impedir um repique inflacionário.

A aposta atual do mercado, de uma Selic a 8,0% em abril de 2019, embute uma visão otimista em relação a dois grandes pontos de interrogação.

Primeiro, que a reforma da Previdência, mesmo numa versão desidratada, será aprovada neste ano pela Câmara dos Deputados, e depois ratificada pelo Senado. Segundo, que o próximo presidente, vencedor nas eleições de 2018, dará continuidade a agenda de reformas econômicas tocadas por Michel Temer e seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles.

Esse cenário permitiria compensar qualquer estresse nos mercados globais caso o Federal Reserve (Fed., o banco central americano) cumpra a sua promessa de elevar os juros americanos três vezes em 2018.

Os investidores, por enquanto, apostam numa única alta de juros nos Estados Unidos no ano que vem. Se os investidores passarem a acreditar na promessa do Fed, reprecificando suas apostas sobre os juros americanos, o dólar vai se valorizar frente outras moedas, incluindo o real.

Um dólar mais forte poderá ter impacto sobre a inflação no Brasil e, por tabela, o quanto o BC poderá ter de voltar a subir a Selic. Com o cenário mais otimista (aprovação da reforma da Previdência e eleição de um presidente que dê continuidade à atual política econômica), o ganho do dólar frente ao real seria mais limitado e a fatura em 2019 de um novo ciclo de alta da Selic não seria tão amarga. Caso contrário, o risco é de uma paulada nos juros com o novo governo. 

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