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O último capítulo

José Roberto Mendonça de Barros

“Queda livre” foi o título do meu último artigo neste espaço. Queda livre foi o que o IBGE revelou com a publicação dos dados oficiais da evolução da economia no ano passado. O que se vê ali é um desastre de grandes proporções, especialmente porque os números foram piorando ao longo do ano: por exemplo, a queda do PIB no primeiro trimestre de 2015 (em relação ao mesmo do ano anterior) foi de -2%, passando a -3% no segundo trimestre, -4,5% no terceiro e, finalmente, -5,9% na última parte do ano. É impossível ser mais eloquente. O mesmo perfil de piora contínua aparece no consumo das famílias e no investimento. Do lado da oferta, o que mais impressiona é a queda da indústria de transformação (-9,7%), do comércio (-8,9%) e da construção civil (-7,6%).

 

 
 

Como o início do ano também se mostrou negativo em relação ao ano passado e pior do que se projetava, estabeleceu-se entre os agentes econômicos a certeza de que, se nada mudar, teremos outro desastre econômico em 2016. Se isto ocorrer, veremos uma queda no PIB per capita de quase 10% em dois anos, uma vez que só em 2015 o cálculo do IBGE sugere uma redução de 4,6%. Isso será algo nunca antes ocorrido no País e que normalmente só acontece em períodos de guerra ou de grandes catástrofes.

As duas últimas semanas mostraram que o governo Dilma entrou em seu último capítulo. As indicações para isso vêm de todos os lados, além, naturalmente, do desastre produtivo do ano passado.

Em primeiro lugar, a troca do ministro da Justiça ilustra a enorme solidão da presidente que, mais uma vez, teve de ceder às pressões de seu partido. Isso já havia ocorrido no caso do Ministério da Fazenda e da Casa Civil. Para alguém pouco afeita às conversas da política, e vivendo um momento muito difícil, um palácio vazio é mau conselheiro.

Por outro lado, a radicalização do PT e de seu chefe se traduziu, entre outras coisas, na proposta de um dito programa de emergência, totalmente delirante e infactível. A história mostra que comportamentos desse tipo são típicos de final de um período, quando um pretenso heroísmo substitui a realidade e o razoável.

Em terceiro lugar, o programa econômico que o novo ministro da Fazenda elabora sofreu morte súbita e prematura. É absolutamente evidente a essa altura que a chance de aprovação de um novo imposto (CPMF) é rigorosamente zero. Ademais, quando a proposta de reforma da Previdência é comandada por um ministro (Rossetto), radicalmente contra qualquer reforma, fica fácil imaginar o que vai acontecer. Também, é rigorosamente impossível a um governo fraco tentar montar restrições constitucionais à expansão dos gastos públicos, algo politicamente difícil em qualquer circunstância.

Na mesma direção, vai a percepção de que a meta oficial de um superávit primário de 0,5% do PIB é completamente irreal e que a única discussão possível é quanto acima de 1% do mesmo será o déficit do exercício.

Finalmente, nas condições acima descritas, todos os analistas projetam outro tombo do PIB em 2016. Ora, é impensável que essa situação se prolongue por mais três anos, dados os seus custos sociais e econômicos. Creio que todo mundo aceita hoje que nossa presidente se recusa a abandonar suas ideias, que geraram a nova matriz econômica e a dramática situação em que vivemos.

Teria sido possível alterar o rumo das coisas no ano passado quando, em julho/agosto, muitos líderes empresariais, vendo o rumo das coisas, manifestaram suporte ao governo para enfrentar reformas que pudessem dar outro rumo ao País. A chefe do governo preferiu, entretanto, substituir o ministro Levy, sem perceber que, com isso, seu governo afundaria inexoravelmente, como hoje está claro.

A crise econômica uniu a sociedade, como foi revelado pela recente pesquisa da Ipsos, ao mostrar que 92% da população acha que o governo está no rumo errado.

Esse consenso começa a empurrar o sistema político para a mudança. Como já ocorreu no passado, a proximidade do abismo vai gerar uma nova situação. Desde setembro, a MB está convencida de que teremos um novo quadro em 2016, como disse em entrevista a este jornal naquela ocasião.

O roteiro ainda está sendo escrito. Não se sabe ao certo qual será a sua duração e nem o seu final, mas tenho certeza de que o desenlace vai acontecer com certa rapidez, provavelmente ainda em 2016.

ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE

 

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