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O yuan e o mercado

Pressões sobre o câmbio chinês indicam que há algo profundamente errado com a política do país asiático

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THE ECONOMIST

17 Janeiro 2016 | 05h00

“E se, por um dia, fôssemos a China?”, fantasiou o colunista americano Thomas Friedman durante o programa de TV Meet the Press, em maio de 2010. “Aí conseguiríamos aprovar as soluções de que os Estados Unidos precisam, não é mesmo?” Cinco anos mais tarde, poucas pessoas se mostrariam tão inclinadas a entoar loas aos tecnocratas chineses. Entre 1.º e 14 de janeiro, os mercados financeiros globais acumulavam queda de 7,1%, neste que é o pior começo de ano desde, pelo menos, 1970. Grande parte do problema tem a ver com a maneira como a China administra sua economia.

Por bem mais de dez anos, a China foi o motor do crescimento econômico mundial. No entanto, sua expansão já não tem o ritmo impressionante de antes. As bolsas de valores de Xangai e Shenzhen são, novamente, alvo de fortes turbulências. Ainda que na potência asiática os preços das ações tenham pouca relação com a economia real, a volatilidade alimenta entre os investidores o receio de que o Partido Comunista não disponha da competência necessária para conduzir a transição de Mao para o mercado. O resto do mundo olha para o endividamento chinês e para a insatisfação crescente de seus trabalhadores (o número de greves dobrou em 2015), e não gosta do que vê. Em nenhum ponto as dificuldades são mais evidentes – ou têm consequências mais drásticas – do que na administração da moeda do país, o yuan.

Câmbio defeituoso. A economia chinesa não está à beira de um colapso. Nesta semana, Pequim divulgará a taxa de crescimento de 2015. Deve ficar perto de 7%. Talvez até seja um número superestimado, mas não completamente divorciado da realidade. Apesar disso, a demanda vem se expandindo a um ritmo cada vez mais lento, a inflação é desconfortavelmente baixa e o endividamento está aumentando. Para ser otimista em relação à China, a pessoa precisa acreditar que o governo do país é capaz de combater a desaceleração com medidas de estímulo ao consumo e aos investimentos, isto é, afrouxando a política monetária – como fariam as autoridades em qualquer economia normal.

A questão é que a China não é normal. O país se encontra numa perigosa terra de ninguém, entre o mercado e o controle estatal. E o yuan é o melhor exemplo dos riscos inerentes a esse lugar. Depois de uma série de passos liliputianos em direção à liberalização, a China atualmente opera com um câmbio semifixo e controles de capital parcialmente contornáveis. Como, em função do fortalecimento do dólar, o yuan vinha sendo puxado para cima, de agosto em diante o banco central chinês tentou desatrelá-lo das flutuações da moeda americana. Mas não para adotar um câmbio totalmente livre: o yuan continua a acompanhar uma cesta de moedas. O relaxamento gradual dos controles de capital significa que agora os poupadores chineses dispõem de vários caminhos para mandar dinheiro para fora do país. Uma economia em desaceleração, uma taxa de câmbio parcialmente fixa e controles de capital não muito rígidos são uma combinação volátil. O afrouxamento da política monetária impulsionaria a demanda. Mas também provocaria a desvalorização da moeda; e essa perspectiva já leva alguns chineses a mandar recursos para o exterior.

Nos últimos seis meses de 2015, a China registrou saídas de capital que somaram, em termos anualizados, US$ 1 trilhão. O descompasso persistente entre o câmbio oficial e a cotação do yuan nos mercados offshore indica que os investidores operam com a expectativa de que o governo chinês aceite uma desvalorização ainda maior no futuro. E, apesar de a balança comercial ter fechado 2015 com um superávit recorde de US$ 595 bilhões, há boas razões para que o yuan perca ainda mais valor, pelo menos frente ao dólar, que continua a se fortalecer com o aperto da política monetária nos Estados Unidos.

O problema é que a expectativa de desvalorização pode descambar em projeções autorrealizáveis de perda de confiança. Mesmo para um país com reservas internacionais de mais de US$ 3 trilhões, o risco existe. Uma queda mais pronunciada do yuan também deixaria em situação delicada as empresas chinesas, que nos últimos oito anos, contraíram US$ 10 trilhões em dívidas – sendo aproximadamente 10% disso denominado em dólares. Ou essas empresas quebram, ou os bancos estatais chineses garantem a elas uma sobrevivência claudicante. Nenhuma das duas alternativas é boa para o crescimento.

O governo reagiu tentando oferecer sustentação ao mercado. O banco central atuou com mão pesada no nascente mercado offshore de câmbio de Hong Kong, comprando yuans com tamanha avidez que na terça-feira que os juros do overnight tiveram alta de 67%. Da mesma forma, nas bolsas de valores, o “escrete nacional” de fundos estatais recebeu ordens de aderir à política de compras e manutenção de ações em carteira.

Um passo para trás, dois para frente. Acontece que essas medidas nada podem fazer em relação a uma tensão fundamental: por um lado, as autoridades chinesas compreendem que a falta de opções financeiras para os poupadores chineses é impopular e perniciosa à economia. Por outro, o Estado chinês é ameaçado pelos solavancos que a liberalização provoca. É um dilema que volta e meia se põe no caminho de Xi Jinping. Em seu quarto ano no comando do país, o presidente precisa do apoio da classe média, mas sente-se ameaçado pela capacidade que ela tem de causar confusão. Xi pressiona as empresas estatais para que sejam mais eficientes, mas também quer que elas ofereçam empregos para os soldados que serão dispensados pelo Exército de Libertação Popular (que passa por uma reestruturação de grandes proporções). O presidente quer “restringir o poder”, fortalecendo o Estado de Direito e invocando a Constituição, ao mesmo tempo que comanda violenta repressão aos dissidentes e ataca a liberdade de expressão.

É fácil falar agora, mas o fato é que a China devia ter arrumado seu sistema financeiro e liberalizado o câmbio quando os recursos afluíam ao país. Agora que a economia está desacelerando, o endividamento cresceu e o dólar se fortaleceu, não há solução indolor.

Promover uma desvalorização mais acentuada pegaria os especuladores no contrapé. Mas também deixaria a economia chinesa de pernas para o ar e exportaria suas pressões deflacionárias. Os maus ventos se espalhariam pela Ásia e chegariam aos países desenvolvidos. E, como os juros estão baixos e muitos governos se encontram endividados, faltariam instrumentos para lidar com o problema.

Melhor seria se a China reforçasse temporariamente os controles de capital e, ao mesmo tempo, parasse de manipular a cotação do yuan. Isso representaria uma humilhação para as autoridades chinesas, já que o Fundo Monetário Internacional (FMI) recentemente decidiu incluir o yuan na cesta de moedas que compõem seus Direitos Especiais de Saque (reservas utilizadas na concessão de empréstimos emergenciais), assinalando o progresso da divisa chinesa rumo à conversibilidade. Mas o recuo permitiria que o país preparasse suas instituições financeiras – principalmente submetendo seus balanços patrimoniais a uma bela faxina – antes de escancarar as portas para os fluxos desestabilizadores e a consequente volatilidade cambial. Mais tarde, quando o sistema financeiro estivesse menos vulnerável, Xi poderia promover uma conversibilidade mais completa.

Um dos motivos que explicam o afã com que o banco central chinês busca a conversibilidade, apesar dos riscos, é que a autoridade monetária sente que precisa aproveitar a oportunidade enquanto tem as bênçãos de Xi. Todavia, seria mais prudente promover um recuo temporário do que provocar uma onda de pânico global. Isso também ajudaria a deixar mais claro para os líderes chineses o dilema que eles têm pela frente. Há uma contradição entre liberalizar a economia e manter o país sob o controle do Partido, entre dar voz ao mercado e silenciá-lo quando a mensagem não agrada. Quando for a hora, as autoridades chinesas fariam melhor optando pelo mercado.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM 

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