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Em meio à Zelotes, Gerdau anuncia saída da família da direção do grupo

Na presidência desde 2006, quando recebeu o cargo do pai, Jorge Gerdau, André Johannpeter deixará o posto no fim do ano para compor conselho da companhia; no mesmo dia, MPF denunciou executivos ligados ao grupo por corrupção no Carf

O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2017 | 17h10

BRASÍLIA e SÃO PAULO - Alvo da Operação Zelotes – que investiga um dos maiores esquemas de sonegação fiscal do País –, a siderúrgica Gerdau anunciou nesta quinta-feira, 24, o afastamento da família do dia a dia da empresa, após cinco gerações no comando executivo do negócio. O anúncio foi feito no mesmo dia em que o Ministério Público Federal denunciou executivos e consultores da companhia por suspeita de fraude fiscal.

O atual presidente do grupo, André Gerdau Johannpeter, e os vice-presidentes executivos Claudio Johannpeter e Guilherme Gerdau Johannpeter deixarão seus cargos e passarão a atuar apenas no conselho administrativo a partir de janeiro. Para o lugar de André, foi escalado o atual diretor executivo da operação Brasil, Gustavo Werneck.

Em teleconferência com investidores, André negou que as alterações tenham relação com a Zelotes e disse que o movimento faz parte de um processo iniciado há um ano.

O empresário afirmou ainda que os membros da família focarão na parte estratégica e nos planos de longo prazo. “A mudança será muito boa para a empresa. Os atuais integrantes da família passam a se dedicar ao Conselho da Gerdau e da Metalúrgica Gerdau. Essa é a quinta geração da família na administração executiva e foi cumprido um importante papel nesse ciclo”, afirmou.

Para Herbert Steinberg, fundador da consultoria Mesa Corporate, especializada em sucessão familiar e governança corporativa, as denúncias contra a empresa podem ter pressionado uma mudança na direção executiva. “Vejo nesse anúncio um processo de transferência para o conselho de administração de uma geração ainda nova da família Gerdau. E o André não irá presidir o colegiado. O envolvimento do grupo na Operação Zelotes pode ter apressado essa transição”, afirmou.

Para analistas do Itaú BBA, o afastamento da família é um passo na direção da profissionalização e não deve acarretar mudanças significativas na estratégia da empresa.

Werneck, o executivo que assumirá a siderúrgica, está há 13 anos na companhia e afirmou ontem que o foco será seguir com as transformações que já vêm sendo encabeçadas pelas empresas, com foco em aumentar o valor a acionistas.

Um dos maiores conglomerados brasileiros, a Gerdau fechou 2016 com faturamento de R$ 37,6 bilhões, dos quais mais da metade vem de operações internacionais. Ontem, as ações da siderúrgica e sua holding fecharam em queda, na contramão dos papéis de outras empresas do setor. As ações preferenciais da Metalúrgica Gerdau caíram 2,42%, enquanto Gerdau PN recuou 0,69%.

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Zelotes. Cerca de sete horas após o anúncio da mudança na direção da companhia, o Ministério Público Federal (MPF) denunciou executivos e consultores do Grupo Gerdau por corrupção no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), espécie de “tribunal” que avalia débitos de contribuintes com a Receita Federal. Conforme peça enviada à 10.ª Vara da Justiça Federal em Brasília, representantes da siderúrgica teriam negociado o pagamento de R$ 40 milhões em troca de vantagens em processos que tramitaram no órgão público. O esquema teria funcionado entre 2011 e 2014, período em que o grupo teve cinco casos analisados no Carf. Em valores atualizados, discutia-se a anulação de cobranças de R$ 4 bilhões.

A Procuradoria da República no Distrito Federal, responsável pela acusação, sustenta que, com aval do ex-diretor Jurídico da Gerdau Expedito Luz, o ex-consultor jurídico Marco Antônio Biondo e o ainda consultor de contabilidade do grupo Fernando Schneider negociaram o pagamento de propinas ao então conselheiro do Carf José Ricardo da Silva. O objetivo, segundo a denúncia, era a manipulação dos processos, por meio de pedidos de vista e outros procedimentos, com o objetivo de anular os débitos.

Denúncia. Ao todo, 14 pessoas foram denunciadas, incluindo advogados e outros ex-integrantes do Carf. Elas vão responder por corrupção e lavagem de dinheiro, se a denúncia for aceita pela 10.ª Vara e, com isso, aberta uma ação penal. Embora André Gerdau tenha sido indiciado pela Polícia Federal no inquérito sobre a investigação, os procuradores não consideraram as provas apresentadas contra ele suficientes para incluí-lo na denúncia.

A denúncia inclui informações fornecidas pelo ex-conselheiro Paulo Roberto Cortêz, que firmou o primeiro acordo de delação da Zelotes e confirmou irregularidades em depoimentos. Conforme a peça de acusação, um dos objetivos da Gerdau era direcionar processos de seu interesse para a 1ª turma da Câmara Superior do Carf. Assim, poderiam ser “sorteados” a José Ricardo ou a algum outro envolvido no suposto esquema.

“O mais importante era assegurar que os processos fossem distribuídos a um integrante da organização criminosa, que fosse de confiança do grupo e que pudesse controlar a tramitação e o momento certo para levar os processos a julgamento”, diz um dos trechos da denúncia.

A apreciação pelo colegiado, no entanto, não chegou a ocorrer porque, segundo os procuradores, a Zelotes foi deflagrada antes disso, em março de 2015, e todos os envolvidos, afastados.

Outro lado. Em nota, a Gerdau informou que “atesta a seriedade e a lisura dos executivos e ex-executivos mencionados” e que “está, como sempre esteve, à disposição das autoridades competentes para prestar os esclarecimentos que vierem a ser solicitados”.

O grupo explicou que, tão logo foi notificado das investigações, “prontamente esclareceu que não se tratava de sonegação”, pois “buscava, tão somente, o exercício legítimo de direito respaldado nas leis e na jurisprudência”. Para isso, afirmou, fechou contratos com escritórios externos para assessorá-lo nos processos do Carf, com a inclusão de “cláusulas que determinam absoluto respeito à legalidade e cujo descumprimento acarreta a imediata rescisão”.

“Nenhuma importância foi paga ou repassada aos respectivos escritórios externos e os contratos foram rescindidos quando os nomes dos prestadores de serviço investigados foram veiculados na imprensa por suspeitas de ações ilícitas”, alegou a siderúrgica.

A Gerdau sustenta que jamais concedeu qualquer autorização para que seu nome fosse “utilizado em pretensas negociações ilegais, repelindo veementemente qualquer atitude que tenha ocorrido com esse fim”. Ainda segundo o grupo, a empresa “possui rigorosos padrões éticos na condução de seus pleitos junto aos órgãos públicos”, irá defender, “em todas as instâncias processuais, a legitimidade e lisura de seus atos”.

O advogado de José Ricardo da Silva, Marlus Arns, disse, por meio de sua assessoria, que só vai se pronunciar depois de notificado da denúncia. O Estado não localizou as defesas de Expedito Luz e Marco Antônio Biondo, que já deixaram a Gerdau. /FÁBIO FABRINI E FABIO SERAPIÃO, DE BRASÍLIA; FERNANDA GUIMARÃES, LUCIANA DYNIEWICZ, FAUSTO MACEDO, MÔNICA SCARAMUZZO, DE SÃO PAULO

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