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Kai Pfaffenbach|Reuters

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Grécia

Os abalos do setor bancário

Quer dizer que vamos recomeçar? Achávamos que a crise já não passava de uma lembrança ruim, e que o mundo não voltaria a percorrer o calvário de 2008, com a falência do banco americano Lehman Brothers, em setembro daquele ano.

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Gilles Lapouge

13 Fevereiro 2016 | 05h00

É claro que, cinco anos mais tarde, em 2011, houve uma recaída, quando se desencadeou a crise da dívida soberana da zona do euro, com o drama (ou a tragédia) da Grécia. Mas depois começou a convalescença e nossos amáveis banqueiros, os homens de preto que pilotam o universo, nos tranquilizaram. Afinal, as duas crises tiveram aspectos positivos. Elas nos purificaram. Tudo foi consertado. Os circuitos financeiros foram regulados, os bancos consolidados. Fomos salvos!

Entretanto, há alguns dias, os problemas voltaram a nos incomodar. O índice japonês Nikkei chegou a perder 11% em algumas sessões. As bolsas de todo o mundo, principalmente as europeias, caíram. E os bancos foram jogados no olho do ciclone.

O valor de mercado dos bancos europeus caiu mais de 25% desde 1.º de janeiro. Algo incompreensível, segundo os financistas e, contudo, reforçamos o capital dos bancos, impusemos limites às especulações, transferimos a supervisão das instituições ao Banco Central Europeu (BCE).

Então os analistas se apressaram a pontificar. Eles nos explicaram que tudo isso era fatal e previsível (Por que os analistas preveem sempre o que já aconteceu e não o que vai acontecer?). Então, houve a desaceleração da China. Ocorre que os bancos europeus estão presentes em peso na China.

O petróleo, que, segundo o que todos os especialistas advertem há 50 anos, acabará, e cujas cotações não param de afundar, despenca, porque estávamos completamente enganados: há petróleo demais. É verdade que os Estados Unidos tiveram a ideia de explorar o gás e o óleo de xisto, mesmo devastando sua geografia. Entretanto, os produtores de petróleo ficaram incomodados com esse afluxo de petróleo e de gás nos mercados. Os exploradores de xisto ficaram igualmente em pânico porque, com a queda dos preços, suas instalações não são mais rentáveis. Cinquenta empresas petrolíferas americanas faliram.

Na Europa, a questão é outra. A produção agrícola e industrial estagnam. Os empreendimentos sofrem. Com isso, os bancos colecionam empréstimos duvidosos. Um país está sendo afetado particularmente, a Itália, cujos bancos já contabilizam mais de ¤ 200 bilhões em empréstimos duvidosos.

Os bancos centrais tentaram reanimar a economia letárgica. Adotaram uma política de juros zero e, em certos casos, de juros negativos, o que é uma aberração. Os juros de longo prazo também declinam, embora os bancos emprestem dinheiro praticamente de graça e suas margens desapareçam.

O efeito perverso dessas desordens são os prognósticos dos especialistas. Eles espalham boatos pessimistas que, dada a credulidade dos clientes, se tornam verdades. Nos últimos dias, vimos, por exemplo, que o Deutsche Bank (instituição poderosa) foi obrigado a desmentir que esteja falindo.

Considerando essas informações, os analistas, os homens políticos, os banqueiros divulgam suas previsões. O que concluir delas? Podemos distinguir duas escolas, a pessimista e a otimista.

A pessimista afirma que esta crise na realidade é grave, profunda, e que devemos esperar um retorno dos incêndios de 2008 e de 2011. Por outro lado, a otimista acha que tudo não passa de exagero, e que deste “novo grande medo” só restarão alguns salpicos, algumas rugas sobre a superfície das águas.

Eu me perguntei se pretendia ficar do lado dos pessimistas ou dos otimistas. Infelizmente, não consegui escolher.

Na Idade Média, na França, havia uma história (O asno de Buridan) que falava de um asno ao qual ofereciam, de um lado, um saco de cevada, e, do outro, uma bacia de água. Infelizmente, como o asno tinha, ao mesmo tempo, fome e sede, nunca conseguia escolher entre a água e a cevada, e acabou morrendo de fome e de sede.

Acho que tenho alguns pontos em comum com esse asno, porque não consigo escolher entre o campo dos pessimistas e o dos otimistas. Reconheço que sou um asno. Mas, resumindo, quando contemplo os prognósticos dos especialistas, dos políticos e dos analistas, afirmo a mim mesmo que a posição do asno é mais séria do que a dos especialistas. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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