REUTERS/Aly Song/File Photo
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Os Brics estão de volta, ou é a China?

Brasil, Rússia, Índia e China cresceram mais do que os analistas previam, graças ao desempenho chinês

The Economist

17 Junho 2017 | 05h00

Os mercados emergentes passaram por maus bocados nos últimos quatro anos. A fuga dos investidores estrangeiros em 2013 (provocada pelo anúncio de que o Federal Reserve, banco central dos EUA, começaria a apertar sua política monetária); a queda nos preços do petróleo em 2014; a mal executada desvalorização da moeda chinesa em 2015; e a igualmente atrapalhada “desmonetização” promovida pela Índia no fim de 2016 (com a retirada de circulação das cédulas de valor elevado). Mas 2017 começou melhor: pela primeira vez nos últimos dois anos e meio, as quatro maiores economias emergentes (Brasil, Rússia, Índia e China, cujas iniciais formam a sigla Brics), estão todas crescendo ao mesmo tempo.

O PIB da Rússia parou de encolher no fim de 2015 (de acordo com cálculos que desprezam fatores sazonais), após o mais longo período recessivo desde a década de 1990. Agora a economia russa acumula três trimestres consecutivos de expansão. O fato de os preços do petróleo terem subido um pouco ajudou, muito embora seu impacto seja limitado, uma vez que o país não pode ampliar suas vendas da commodity sem violar os limites de produção que viabilizaram a recuperação.

Quando o rublo entrou em colapso, entre o fim de 2014 e o início de 2015, foi fácil esquecer alguns dos pontos fortes da economia russa, como os superávits comerciais consistentes e as substanciais reservas em moeda estrangeira (que em momento algum ficaram abaixo de US$ 300 bilhões). Com a retomada do crescimento, o rublo se fortaleceu e foi uma das moedas que mais se valorizaram nos últimos doze meses, ganhando 15% ante o dólar.

No caso do Brasil, a tormenta se prolongou por mais tempo. Com os preços das commodities despencando, uma presidente sendo destituída e um enorme escândalo de corrupção pondo a legitimidade da classe política em questão, a economia do país passou oito trimestres consecutivos em marcha a ré. Embora os escândalos políticos ainda estejam longe de serem solucionados, o clima melhorou: as abundantes chuvas de verão ajudaram os agricultores brasileiros a colher excelentes safras de milho e soja nos primeiros meses do ano. Isso ajudou a fazer com que o PIB crescesse 1% no primeiro trimestre (a taxa anualizada ficou acima de 4%). Como o fenômeno não tem como se repetir a cada três meses, alguns economistas temem que a economia brasileira volte a encolher no segundo trimestre, mas muitos acreditam que o país encerrará 2017 no azul.

Estabilidade. A retomada do crescimento não colocou em risco a estabilidade dos preços. Pelo contrário, no Brasil, assim como na Rússia e na Índia, a inflação caiu. No entanto, para que o Banco Central (BC) brasileiro possa continuar a promover cortes significativos nas taxas de juros, não é suficiente que a inflação permaneça em queda: a política monetária também será impactada pelos desdobramentos do mais recente escândalo político, desta vez envolvendo o próprio o presidente Michel Temer.

Se nos últimos anos a inflação brasileira se manteve excessivamente elevada, na China os preços estavam subindo muito pouco. Em 2016, em virtude das pressões deflacionárias e da desvalorização do yuan, o PIB chinês encolheu pela primeira vez em 22 anos, quando calculado em dólar. Este ano, porém, a ameaça de deflação foi afastada e a fuga de capitais arrefeceu, permitindo que o yuan se valorizasse em relação ao dólar. Com efeito, é possível que as reservas internacionais do país, que entre 2014 e 2016 ficaram cerca de US$ 1 trilhão menores, mas em maio receberam reforço de US$ 24 bilhões, tenham voltado a crescer.

A retomada do crescimento no Brasil e na Rússia (e o retorno da “expansão em dólar” da China) fará renascer o interesse pelos Brics? A sigla foi cunhada em 2001 por Jim O’Neill, na época economista-chefe do Goldman Sachs, e acabou ganhando vida própria. Os líderes dos quatro países passaram a realizar uma reunião de cúpula anual e em 2013 abriram as portas do clube para a África do Sul. Também criaram um banco de desenvolvimento, com sede em Xangai, que atualmente opera nos cinco países e em abril aprovou seu primeiro empréstimo ao Brasil.

Em 2003, num relatório intitulado “Sonhando com os Brics”, o Goldman Sachs traçou as perspectivas de cada um dos quatro Brics originais para as cinco décadas seguintes. Em 2011, em razão do excelente desempenho que o grupo havia tido nos dez anos anteriores, o banco de investimentos atualizou suas projeções. Foi um passo em falso. O otimismo dessa segunda rodada de estimativas só se materializou no caso do PIB em dólar da China. Juntas, as economias dos outros três países ficaram US$ 1 trilhão aquém das expectativas.

Nas bolsas de valores, os investidores levaram igual banho de água fria. O índice Bric, compilado pelo MSCI, perdeu 40% de seu valor em relação ao recorde de alta registrado em 2007. Em outubro de 2015, o Goldman Sachs fundiu um de seus fundos de ações Bric, destinado a investidores americanos, com um produto focado nos mercados emergentes em geral.

No entanto, ainda que não tenham justificado a euforia de 2011, os BRICs realizaram com folga o “sonho” de 2001 de O’Neill, tal como quantificado dois anos mais tarde por sua equipe. Mesmo depois das dificuldades por que passaram nos últimos anos, os Brics têm hoje, somados, um PIB (US$ 16,6 trilhões) bem maior do que previam em 2003 os economistas do Goldman Sachs (R$ 11,6 trilhões). Só a Rússia frustrou as expectativas originais do banco de investimentos. A China as superou em muito. No Brasil, o crescimento foi menor que o projetado, mas, como o real se valorizou mais do que o previsto, o PIB em dólar do país terminou 2016 modestamente acima da previsão de 2003.

Moda. Além disso, em algum momento após 2015, os Brics saíram suficientemente de moda para voltar a figurar entre os bons investimentos. Desde que o Goldman Sachs encerrou seu fundo, o índice de ações Bric teve valorização de quase 20%.

Por outro lado, se há algo que põe em questão a validade do conceito “Bric” é sua última consoante. Responsável por cerca de metade do PIB do clube em 2001, a China hoje representa dois terços da soma das quatro economias. Também é a potência asiática que concentra a maioria das grandes empresas desses países. Oito das dez maiores ações incluídas no índice Bric são de empresas chinesas, como Alibaba, Baidu e Tencent. 

À medida que seus mercados se expandirem e o país se abrir para os influxos de capital, tudo indica que a China constituirá uma classe de ativos à parte, grande demais para ser incluída em fundos que atuam em apenas quatro países, e até mesmo nos mercados emergentes “em geral”. A maior ameaça aos BRICs não são as dificuldades econômicas do quarteto, mas o sucesso singular de sua sócia mais potente.

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR A+LEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM. 

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