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Economia

Celso Ming

Os juros ficam onde estão

A decisão do Copom de manter os juros básicos em 14,25% ao ano contraria os sinais anteriores do Banco Central, mas não o comunicado inusitado de terça-feira.

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Celso Ming

20 Janeiro 2016 | 21h13

A divergência manifestada por dois diretores diz muita coisa. Normalmente, quando são discordantes, os votos vencidos se aproximam do voto da maioria. No entanto, desta vez a opção perdedora foi pela alta de meio ponto porcentual, para 14,75% ao ano, o que indica grave divergência interna. 

Até mesmo uma forte redução dos juros básicos (Selic) seria perfeitamente defensável se a ação e a comunicação do Banco Central fossem minimamente coerentes. Até mesmo economistas conservadores vinham sugerindo ou a manutenção dos juros no nível dos 14,25% ao ano ou até mesmo uma queda. 

No entanto, por meio da Ata do Copom, do Relatório de Inflação, da Carta Pública ao ministro da Fazenda endereçada há apenas 12 dias e de inúmeras entrevistas, o presidente Alexandre Tombini preparara o mercado e as expectativas dos marcadores de preços para um novo ciclo de alta dos juros que seria presumivelmente curto. Mas, depois de dizer "sim, senhora" para a presidente Dilma, Tombini deixou a entender, por meio de nota oficial, no mesmo dia em que começou a reunião de dois dias do Copom, que nada do que sustentara antes seria para valer. Alegou que o último relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) trouxera projeções "significativas" a serem levadas em conta na reunião e que, obviamente, poderiam mudar o que havia sido previsto.

Há momentos em que até mesmo as regras estritas do sistema de metas de inflação têm de ser relevadas. Quando estourou a crise de 2008, o então presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), Ben Bernanke, chegou a ultrapassar os limites do seu mandato para despejar moeda no mercado, recomprar títulos então considerados podres, sustentar bancos à beira da quebra e uma superseguradora falida, para reerguer a economia. E conseguiu. Ninguém acusa hoje Bernanke de ter tomado decisões ilegais e irresponsáveis. Ao contrário, ele agiu em consonância com a lei suprema, que é a da salvação do bem comum.

Diante da enorme crise enfrentada pela economia brasileira, o Banco Central também poderia ultrapassar os limites estritos do seu mandato e adotar procedimentos não previstos na lei de metas. Mas isso teria de ser amplamente justificado. As transgressões de Tombini não se limitaram aos desastres de comunicação e à ruptura dos canais de condução das expectativas, por ter anulado tudo o que antes defendeu. Mas por ter transgredido regras que ele sustentara e continua sustentando como absolutas e imexíveis.

A atuação errática do Banco Central coloca em dúvida sua capacidade de conter a inflação, não apenas porque aparentemente obedeceu mais a razões políticas do que a técnicas. E isso pode aumentar a velocidade de reajuste dos preços e aumentar a incerteza em relação à política econômica. 

Desta vez, Tombini não colocou em risco apenas a credibilidade do Banco Central. Colocou em risco o respeito por ele como autoridade pública.

CONFIRA:

Aí está a escadinha dos juros básicos (Selic) após a decisão desta quarta-feira do Copom.

Pioram as expectativas

Despenca o nível de confiança na economia. O dólar atingiu nesta quarta-feira a cotação dos R$ 4,13, mas baixou no fechamento. A alta acumulada em 12 meses fechou o dia em 56,7%.

Novidades no petróleo

O ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, avisou nesta quarta-feira que o governo prepara decisões cujo principal objetivo é reduzir os custos de produção de petróleo e gás. A conferir.

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