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Os problemas do programa Minha Casa Melhor

O Estado de S.Paulo

11 Julho 2014 | 02h 04

Empurrada à força pelo governo para a Caixa Econômica Federal (CEF), a linha de crédito subsidiado Minha Casa Melhor, para financiar a compra de móveis, aparelhos eletrodomésticos e eletroeletrônicos pelos mutuários do programa habitacional, não passou de um voo de galinha. Um ano após o lançamento, só R$ 2,75 bilhões foram contratados, dos quais R$ 1,9 bilhão gasto de fato. Da verba total de R$ 18,7 bilhões, 14,7% foram contratados até agora, revelando-se um tosco erro de cálculo.

O governo não contava com a realidade do mercado ao fazer a "bondade": crédito de até R$ 5 mil por pessoa, com prazo de 48 meses e juros de 5% ao ano, para comprar bens duráveis de consumo. Só 1/3 de 1,7 milhão de famílias que receberam as chaves da nova moradia, exigência para ter direito ao crédito, tomou providências para contratá-lo, segundo a CEF.

Com o desaquecimento da economia, o desinteresse cresceu. Em cinco meses de 2013, foram contratadas 383,4 mil operações do tipo, número que caiu para 168,5 mil em seis meses de 2014. As famílias contempladas pelo programa de habitação atestam que a prestação da casa própria já lhes leva parte considerável da renda. Após comprar alimentos, sobra pouco para outros gastos.

Inúmeras famílias já possuíam eletrodomésticos e móveis, comprados a prestação nas lojas, com prestações baixas, com prazo a perder de vista, antes de se mudarem para a nova residência. Muitas vezes, os eletrodomésticos não são os mais avançados nem os móveis são novos, mas as famílias preferem aguardar tempos melhores, inclusive em relação às condições de emprego.

Houve uma queda da confiança do consumidor em geral, observa a economista Mariana Oliveira, da Tendências Consultoria. "O crédito é um investimento", disse ela. "E a decisão de tomá-lo acaba sendo impactada, ainda que seja um crédito facilitado." Pesquisa da FGV confirma que a classe de renda até R$ 2,2 mil mensais tem o segundo menor nível de confiança entre quatro grupos pesquisados.

O risco de inadimplência é o mais recente. Bancos agem com mais cautela e a CEF não foge à regra: as prestações da casa própria têm de estar em dia para assegurar o acesso ao Minha Casa Melhor. Tampouco a CEF mostra apetite pelo Minha Casa Melhor. A área técnica da Caixa, como foi noticiado, alertou o governo para os riscos do programa, que poderia provocar novos rombos no Tesouro, que arca com o subsídio.

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