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Economia

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Otimizando a paquera

Para descobrir o verdadeiro amor é importante entender os princípios econômicos que regem sua busca

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The Economist

16 Fevereiro 2016 | 05h00

Encontrar um amor para chamar de seu é tarefa traiçoeira. O mar pode até estar cheio de peixes, mas são muitos os que deixam a desejar no quesito higiene, outros tantos têm verdadeira obsessão pelo próprio umbigo e há os que não conseguem se libertar dos ex-peixes ou, de forma ainda mais desconcertante, se dizem admiradores de Donald Trump. Os sites de relacionamentos, incluindo um número crescente de aplicativos de paquera, vieram para ajudar. Seu funcionamento deve mais ao pragmatismo da lógica econômica do que aos mistérios do coração.

Em certa medida, a busca por um parceiro não difere muito da procura por um emprego. As vagas de emprego, assim como os candidatos a parceiro, têm seus pontos fortes e fracos. Acertar na escolha envolve o difícil exercício de pesar prós e contras. A diferença em relação a outros tipos de intercâmbio é que um “pareamento” (matching) como esse só acontece se ambas as partes acharem que a coisa “dá liga”.

Alvin Roth, que em 2012 ganhou o Nobel de Economia por seus trabalhos sobre a modelagem de mercados (market design), fez carreira estudando esses “mercados de emparelhamento” (matching markets), onde a oferta e a procura são equilibradas não pelo preço, mas pelas informações de que os indivíduos dispõem uns sobre os outros. Um vendedor de maçãs pode ir baixando o preço até vender todas frutas que tem em sua banca. Se quiser contratar dois funcionários, porém, a Apple não oferecerá o salário mais baixo possível para que só duas pessoas se interessem pelas vagas. A competência dos novos contratados é, com frequência, no mínimo tão importante quanto o valor dos salários com que eles serão remunerados.

Roth, cujo Nobel foi dividido com Lloyd Shapley, um dos papas da teoria dos jogos, descobriu que a estrutura dos mercados de emparelhamento tem impacto significativo na definição de quem fica com quem.

Bons emparelhamentos dependem de boas informações. Mesmo sem ajuda da tecnologia, as pessoas geralmente são capazes de intuir o que têm em comum umas com as outras. Os cosmopolitas mais ambiciosos preferem se mudar para Nova York, por exemplo, em vez de ficar vivendo em cidadezinhas modorrentas, pois lá são maiores suas chances de conhecer indivíduos igualmente arrojados, com interesses parecidos com os seus. Uma vez em Nova York, os lugares que o sujeito frequenta determinam o tipo de gente com que ele entra em contato. Como o custo de vida na cidade é alto, quem tem o bolso suficientemente fornido para se dar ao luxo de ficar gritando palavrões no estádio dos Yankees, ou de passar uma hora suando numa academia de ioga, sabe que é grande a probabilidade de que as pessoas a seu redor possuam opiniões e gostos parecidos com os seus.

Falta, porém, uma informação crítica: saber se há, ou não, interesse mútuo. Convidar alguém para sair exige um pouco de coragem. No mundo não digital, abordar um parceiro em potencial pode resultar em situações constrangedoras ou humilhantes. A paquera digital reduz tremendamente esse custo. Aplicativos como Tinder e Happn, por exemplo, só revelam que um usuário acha o outro simpático quando o sentimento é recíproco.

Os melhores mercados de emparelhamento são os que apresentam “densidade”, com grande número de participantes. Quanto mais pessoas recorrem à paquera digital, maior sua chance de encontrar um bom par: aumenta a possibilidade de que, no meio da multidão, exista mais alguém que goste de ouvir Wagner, ir a restaurantes tailandeses ou falar sobre a lógica econômica dos mercados de emparelhamento.

Muitos sites de relacionamentos, com o intuito de apurar sua calibragem e produzir pareamentos perfeitos, solicitam aos usuários um sem-fim de informações. Acontece que, se a tarefa for demasiadamente trabalhosa e fizer com que parceiros em potencial desistam de se cadastrar no site, os efeitos serão mais prejudiciais que benéficos. Quando foi lançado, o Tinder tinha por objetivo facilitar o sexo sem compromisso. Na avaliação que os usuários faziam uns dos outros, os critérios se resumiam a aparência, idade e gênero. Simplicidade é a alma do negócio: hoje o aplicativo gera, diariamente, 26 milhões de pareamentos entre seus usuários.

As vantagens de um mercado “denso” se esvaem, porém, quando eles se tornam excessivamente “congestionados”. Com o aumento desmesurado no número de participantes, fica mais difícil identificar um bom emparelhamento. Um jeito de lidar com isso é partir para a especialização. O JSwipe, por exemplo, é destinado a judeus solteiros. Já o Bumble, um aplicativo em que a iniciativa da paquera tem de partir da mulher, quer atrair feministas.

Os aplicativos mais populares ajudam os usuários, recorrendo a artifícios tecnológicos para filtrar parceiros em potencial. O Tinder, por exemplo, só exibe perfis de participantes que estejam em locais próximos, para facilitar eventuais encontros. O aplicativo também criou o botão “super gostar”, que só pode ser utilizado uma vez por dia, quando a pessoa quer sinalizar que ficou particularmente interessada por alguém. Além disso, desde o ano passado, os usuários têm a possibilidade de informar seu emprego e grau de escolaridade, o que garante maior seletividade na hora de fazer uma escolha. Assim, somam-se as vantagens de um grande reservatório de parceiros em potencial com várias ferramentas para fazê-los passar pela peneira.

Efeitos colaterais. O surgimento de aplicativos de pareamento para quem está à procura de um amor, de ingressos para uma peça de teatro ou de uma carona sem dúvida aumentou o grau de conveniência de tarefas que antes pareciam custosas. Mas essas ferramentas também podem contribuir com mudanças econômicas mais profundas. É possível que os aplicativos de paquera fortaleçam a tendência ao “acasalamento dirigido”, em que as pessoas optam por ter relacionamentos amorosos com indivíduos de renda e qualificação similares às suas. Estima-se que a tendência seja responsável por cerca de 18% do aumento na desigualdade de renda observado nos EUA entre 1960 e 2005. Estudo recente realizado na Coreia do Sul mostra que a paquera algorítmica estimula a formação de casais com mesmo nível de escolaridade.

Os aplicativos de paquera ainda não têm como tornar as separações menos dolorosas. E o amor continua sendo misterioso demais para que mesmo os algoritmos mais sofisticados sejam capazes de prever com confiança quando a atração é mútua ou não. Mas, a se julgar pelas legiões de usuários que esses aplicativos atraem, é evidente que eles dão uma mãozinha. Afinal de contas, é melhor “super gostar” de alguém e correr o risco de a coisa não dar certo do que nunca ter “super gostado” de ninguém.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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