Ou vai ou racha

A corrida pelas eleições presidenciais de 2018 esquentou de vez e, por enquanto, as projeções de analistas e as apostas de investidores para os preços dos ativos financeiros contemplam apenas a vitória de um candidato que represente a continuidade da política econômica de Henrique Meirelles

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

09 Agosto 2017 | 05h00

A corrida pelas eleições presidenciais de 2018 esquentou de vez nas últimas semanas e, por enquanto, as projeções macroeconômicas de analistas e as apostas de investidores para os preços dos ativos financeiros contemplam apenas a vitória de um candidato que represente a continuidade da política econômica tocada pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles.

Todavia, há um risco crescente de que 2018 seja uma quase repetição do que foi 2014, quando o mercado via um cenário binário naquele ano: uma vitória da petista Dilma Rousseff seria negativa para os preços dos ativos e para a economia brasileira, enquanto uma vitória do tucano Aécio Neves levaria a uma recuperação forte da confiança dos agentes econômicos e, por tabela, do investimento e consumo. Não à toa toda vez que Dilma subia nas pesquisas de intenção de voto em 2014, a Bolsa caía e o dólar disparava.

Na mais recente pesquisa Focus, do Banco Central, a mediana das estimativas do Produto Interno Bruto (PIB) para 2018 é de um crescimento de 2%.

Quem está mais otimista com o consenso das estimativas projeta um PIB mais forte em 2018, embutindo uma retomada forte do investimento diante da expectativa de que um candidato da atual base governista – especialmente se do PSDB, DEM ou PMDB – vencerá as eleições presidenciais do ano que vem.

Mesmo quem está mais pessimista do que a mediana das projeções não trabalha com um cenário em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou um candidato com discurso de esquerda percebido como mais radical, como Ciro Gomes (PDT), seja eleito.

Ou seja, uma eventual vitória – ou mesmo a crescente aposta ao longo da corrida eleitoral – de um candidato de algum partido da atual oposição ao governo Michel Temer poderá levar a uma forte revisão de projeções pelo mercado financeiro, em particular a do PIB, com erosão da perspectiva de algum crescimento em 2018. Mas esse risco não está embutido hoje nas estimativas do mercado.

“Nosso cenário base é de que não haverá ruptura na condução da política macroeconômica”, diz Ronaldo Patah, estrategista de investimentos do UBS Wealth Management. “Nesse cenário, a Bolsa pode terminar 2018 entre 75.000 e 80.000 pontos, as taxas de juros de 5 a 10 anos entre 8,5% e 9,5%, o dólar em torno de R$ 3,00, as NTN-Bs longas a IPCA mais 4,5%.”

O economista-chefe do UBS para o Brasil, Tony Volpon, estima um crescimento do PIB de 3,1% em 2018. Segundo ele, o crescimento da economia será determinado pela percepção do mercado de como as eleições do ano que vem vão afetar os esforços de reformas em curso.

Para Volpon, um desfecho das eleições visto como positivo pelo mercado poderá levar a ganhos adicionais de confiança e de melhora das condições financeiras, além de uma percepção de que taxas de juros reais mais baixas poderiam ter um caráter mais permanente. Por outro lado, um cenário político que reverta os ganhos desses gatilhos de crescimento poderia ter o potencial de levar a economia de volta à recessão em 2018.

“As eleições do ano que vem trazem muita incerteza e por conta disso o investimento não se recupera”, diz Juan Jensen, sócio da 4E Consultoria. Mesmo nesse cenário de incerteza, o qual ainda não leva em conta a eleição de um candidato de oposição, ele projeta um crescimento de 1,2% do PIB em 2018. “Se Lula ou Ciro ganhar as eleições, certamente teremos um quadro de deterioração econômica maior do que o nosso cenário base hoje.”

Uma pesquisa divulgada na semana passada pela XP Investimentos, com 168 investidores institucionais, mostrou que o mercado acredita numa vitória de um candidato do PSDB em 2018 – o prefeito João Doria (42%) ou o governador Geraldo Alckmin (38%). Lula vem num distante terceiro lugar (6% das respostas).

Num cenário de vitória de Doria, o mercado vê a Bolsa acima de 80 mil pontos e dólar abaixo de R$ 3,00. A vitória de Lula levaria a Bolsa abaixo de 55 mil pontos na opinião de mais de 80% dos entrevistados e dólar acima de R$ 4,10 para 31% dos pesquisados. Ou seja, 2018 será um “ou vai ou racha”.

*COLUNISTA DO BROADCAST

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