País ainda não colhe os bônus do ajuste fiscal, diz BofA

Para executivos do Bank of America Merrill Lynch, 'lógica' indica o início do resgate da confiança no próximo ano

Mariana Durão e Mônica Ciarelli, O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2015 | 02h02

RIO - O Brasil vive o pior momento na economia, porque já sofre com os ônus do ajuste fiscal sem colher seus bônus. Apesar do cenário nebuloso no curto prazo, a equipe do Bank of America Merrill Lynch aposta no País como um celeiro de oportunidades, em parte geradas justamente pela crise. Em entrevista ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, o presidente da instituição no Brasil, Rodrigo Xavier, admite que a turbulência política está no radar dos estrangeiros, mas não chega a afastar os investidores com estratégia de longo prazo.

"No momento, o País está fazendo seu dever de casa. Ainda não estamos vendo os benefícios desse ajuste, por isso o mau humor", diz Xavier. "Por enquanto, só estamos tomando o remédio amargo para lá na frente melhorar."

Para o executivo, é "inequívoco" que o governo entendeu a necessidade de uma "mudança de rota significativa" ao recrutar Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda. O mesmo vale para a política monetária conduzida por Alexandre Tombini, que elevou a taxa básica de juros ao maior patamar desde 2009 (14,25% ao ano). A questão, observa, é que a velocidade de execução do ajuste esbarra na contaminação pela turbulência política - um dos principais questionamentos dos investidores estrangeiros - e na Operação Lava Jato.

"Apesar do curto prazo estar um pouco nebuloso, não estamos trabalhando com um cenário de ruptura. Não achamos que o Brasil é uma Venezuela. Tem sinais positivos no que está acontecendo. O que me chama mais atenção é a força das instituições", afirma.

PIB. O Bank of America trabalha com uma perspectiva de queda de 2,3% do PIB brasileiro neste ano e com uma inflação de 9,2%. O presidente do BofA Merrill Lynch para a América Latina, Alexandre Bettamio, diz que o País já vive o pior momento e que a lógica indica o início do resgate da confiança em 2016. A instituição projeta que o País conseguirá levar a inflação para 5,2% no ano que vem. O crescimento permanecerá negativo, em 0,4%.

Na visão dos executivos do banco, a eventual perda do grau de investimento atribuído ao Brasil pelas agências de classificação de risco pode gerar estresse no curto prazo, mas já foi de certa forma precificada. Apesar da recente deterioração da economia, Bettamio chama a atenção para o crescimento do País desde que se tornou grau de investimento, em 2008. "As reservas eram de US$ 50 bilhões, hoje são de US$ 370 bilhões. O investimento estrangeiro direto saiu de US$ 15 bilhões na média de 2004 a 2007, para US$ 65 bilhões por ano", diz.

De acordo com Bettamio o BofA não mexeu na estratégia traçada para o Brasil cinco anos atrás. O País responde por 50% da operação na América Latina, que engloba México, Peru, Chile, Colômbia e Argentina. A exposição ao Brasil já soma R$ 70 bilhões e, em termos de geração de receita, o País só perde para Inglaterra e Hong Kong, além dos Estados Unidos. No primeiro semestre, a receita da filial brasileira cresceu 15% em dólares.

Xavier diz que o investidor estrangeiro estratégico de longo prazo tem olhado para o Brasil com muito interesse por uma combinação de fatores. Além da desvalorização do real tornar os ativos brasileiros baratos em dólar, governo e empresas passam por uma fase de ajuste compulsório. Isso significa diminuir de tamanho vendendo participações acionárias e colocar no mercado a preços convidativos negócios que em outras circunstâncias nem estariam à venda.

Segundo Xavier, há muito tempo o BofA Merrill Lynch não tinha uma carteira de potenciais fusões e aquisições tão robusta. O banco já assessorou este ano a compra da Renova pela Sun Edison, a venda da Bematech para a Totvs e a entrada do Carlyle na Rede D'Or. A expectativa é que, após prospecções no primeiro semestre, mais operações se concretizem agora.

"O Brasil vai precisar de financiamento externo e de alguém para lembrar para o investidor estrangeiro que o copo parece estar muito vazio, mas na verdade tem muita água ainda. E água boa", diz.

Mais conteúdo sobre:
Ajuste fiscal

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.