Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

‘País está numa trajetória insustentável’

Segundo ex-diretor do BC, governo tem sido tímido no processo de retomada do equilíbrio fiscal das contas

Entrevista com

Luiz Fernando Figueiredo

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo)

25 Setembro 2015 | 22h22

O governo precisa se esforçar mais para devolver o equilíbrio fiscal ao Brasil e evitar que o País siga uma trajetória rumo ao precipício. A opinião é do sócio da Mauá Capital, Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor de política monetária do Banco Central, entre 1999 e 2003. “Estamos num grande círculo vicioso. Por isso que se fala que estamos indo em direção ao precipício. Ou temos uma trajetória fiscal mais razoável ou não vamos conseguir sair desse círculo vicioso.” 

Na avaliação de Figueiredo, para gerar confiança - que está em falta no País - é preciso haver perspectiva de equilíbrio. “É como o orçamento em casa. Se estou gastando mais do que recebo, não tem como ficar tranquilo. Uma hora vou estourar o cheque especial e ficar inadimplente.” A seguir, trechos da entrevista concedida na tarde de quinta-feira.

Como o sr. avalia a atual situação do País?

O Brasil está numa trajetória fiscal insustentável e precisa mudar essa trajetória para que a dívida não cresça a ponto de nos tornar inviáveis. Dada a conjuntura e as dificuldades do governo no Congresso, não tem sido possível produzir um resultado fiscal que nos leve ao equilíbrio. O que está ocorrendo hoje tem a ver não só com a situação atual, mas com a perspectiva da política fiscal conseguir produzir uma situação de sustentabilidade da dívida. Hoje, esse é o maior problema, e que gera instabilidade para o País. Outras questões graves já foram ajustadas, como tarifas públicas represadas, inflação e política monetária. Mas a mais séria delas é a questão fiscal, que está pendente. É por isso que os mercados estão reagindo. Foi dado um overshooting (excesso nas cotações) em vários ativos brasileiros. Mas, com essa dinâmica fiscal, isso tudo é prêmio de risco para um ambiente que está em processo de deterioração.

O sr. acredita na capacidade de reação do governo?

Até agora todo o esforço que foi feito não foi suficiente. Hoje estamos numa situação de mais fragilidade e dificuldade do que antes. A economia está pior, a popularidade do governo tem recorde de queda e o arranjo político para conseguir o ajuste não tem dado certo. Por outro lado, como a situação está muito pior, há o contraponto de que ninguém quer ver o País cair no despenhadeiro. Mas a dificuldade é muito grande. O esforço do governo tem de ser absoluto. E, por mais que esteja tentando, ele está sendo tímido nesse processo. Há um discurso conjunto dentro do governo hoje com o mesmo objetivo. Mas, ao longo desse processo, ficou a dúvida dentro do próprio governo de qual o melhor caminho a seguir. Tentaram o orçamento com déficit e depois a tentativa de gerar superávit. Esses sinais são difíceis para o mercado compreender.

Havia uma expectativa de mudança de postura do Congresso depois da perda do grau de investimento. O sr. acha que isso ocorreu?

Houve uma mudança. Por enquanto, a “pauta-bomba” não ocorreu. O governo está se mexendo para desmontar essa agenda com a reforma ministerial. Mas precisamos de uma guinada relevante para que se consiga um mínimo de estabilidade no País.

Esta semana, o dólar chegou a R$ 4,22. Quais os reflexos desse movimento na economia?

Na quinta-feira, houve um esforço coordenado entre Banco Central e Tesouro no sentido de ajudar o mercado a voltar a funcionar de uma maneira mais apropriada. E o esforço deu resultado, teve sucesso. O grau de estresse e a dinâmica estavam muito ruins. O BC e o Tesouro começaram o processo ontem (quarta-feira) e o mercado reagiu muito mal ao movimento. Mas hoje (quinta-feira) o movimento do BC e do Tesouro mudou muito o mercado. Em 30 anos de profissão, nunca vi os mercados chegarem num limite de alta e de baixa num mesmo dia.

O dólar no atual patamar pode pressionar a inflação e os juros?

Estamos num ambiente muito incerto e o diagnóstico é claro. Os mercados vão melhorar na medida em que o governo tenha sucesso em atacar esse diagnóstico. Quanto mais difícil e mais longe de atacar o problema do déficit fiscal, mais teremos mercados com prêmio de risco e volatilidade. O dólar sempre acaba pressionando a inflação, pois é o que chamamos de choque de oferta. Por outro lado, a economia está sofrendo muito (o que pode retardar o repasse). Mas vai depender muito do patamar em que o dólar vai ficar. Se vai ficar nesse preço, se vai continuar subindo, se o real vai apreciar. Enfim, estamos num momento muito volátil, muito incerto. Por isso, é difícil projetar mudanças de preços para os próximos 12 meses. De qualquer forma, há muito tempo não se via um dia tão tranquilo como hoje (quinta-feira), depois de tanta volatilidade.

O Brasil conseguirá manter o grau de investimentos nas demais agências de classificação de risco?

Essa decisão vai depende da parte fiscal. Se o superávit primário ficar próximo do 0,7% e o governo conseguir aprovar as medidas propostas há uma chance de não perder o grau de investimento das demais agências. Se isso não ocorrer, é quase líquido e certo que perderemos.

O pacote de ajuste fiscal apresentado pelo governo resolve o problema no curto prazo. E para frente?

Essas medidas são apenas uma ponte ou uma tentativa de ponte para tentar resolver a questão das despesas, principalmente as obrigatórias, que crescem 0,5% do PIB todos os anos. E isso está atrelado à questão da Previdência Social. Se isso não for atacado, não tem jeito. De 1992 para cá, o Brasil está criando uma ponte atrás da outra antes de realmente mexer no problema e fazer as reformas necessárias. Agora não tem mais jeito. A sociedade rejeita o aumento de tributo, com toda razão. E precisamos atacar esses problemas. Não dá mais. 

O País parou com o pessimismo e a falta de confiança dos investidores. Ele precisa retomar os investimentos, mas falta crédito, falta projeto...

Estamos num processo que é um grande círculo vicioso. Por isso se fala que estamos indo em direção ao precipício. Ou você tem uma trajetória fiscal mais razoável ou você não vai conseguir sair desse círculo vicioso. Você só gera confiança se houver perspectiva de equilíbrio. É como o orçamento em casa. Se estou gastando mais do que recebo, não tem como ficar tranquilo. Uma hora vou estourar o cheque especial e ficar inadimplente.

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