País pode fechar 150 mil restaurantes

Motivo para a decisão, em 84% dos casos, é o prejuízo acumulado diante do aumento de custos e da queda no faturamento

Idiana Tomazelli, O Estado de S. Paulo

09 Maio 2016 | 08h13

RIO - A contenção de gastos dos brasileiros fez encolher o movimento em bares e restaurantes e está levando os donos a considerar a possibilidade de fechar as portas. Um levantamento da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) obtido com exclusividade pelo Estado mostra que um a cada seis empresários avaliam dar fim ao negócio ou repassar o ponto nos próximos meses. São 150 mil estabelecimentos em todo o País que podem não resistir à crise.

O motivo para a decisão, em 84% dos casos, é o prejuízo acumulado pela empresa diante do aumento de custos e da queda no faturamento. "São números assustadores, com reflexos extremamente dramáticos. Isso vai impactar a economia e pode gerar mais demissões", afirma o presidente da Abrasel, Paulo Solmucci Jr. A vontade de empreender em outro ramo ou de arrumar um emprego também são razões citadas.

No ano passado, estabelecimentos de forma geral acabaram sofrendo um baque nas contas. A tarifa de energia elétrica, uma despesa básica, subiu mais de 50%. Taxa de água e esgoto e alimentos também ficaram mais caros. Houve ainda, no início de 2016, reajuste de 11,68% no salário mínimo, remuneração que serve de base para muitos trabalhadores do ramo.

"Conta de energia não fecha loja, mas quando soma tudo e ainda tem perspectiva de retorno pequeno, complica. Boa parte dos empresários não está com fôlego para esperar a crise passar", diz o economista Fabio Bentes, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). 

O setor de alojamento e alimentação (que inclui os bares e restaurantes, mas também hotéis) mergulhou no vermelho já em julho de 2014, segundo dados do IBGE. De lá para cá, a situação só se agravou. O volume de serviços prestados na área encolheu 5,6% em 12 meses até fevereiro deste ano, já descontada a inflação. "A perversidade não é o tamanho do tombo, mas sim a duração da crise", analisa Bentes.

Mesmo diante de demissões e queda na renda dos trabalhadores, que incentivam a contenção de gastos, é provável que alguns empresários não tenham percebido a situação de risco ou não tenham tido capital para investir e reagir, avalia Solmucci Jr. Daí a quantidade enorme de negócios que podem não resistir à crise. Os empregos gerados por cada um desses negócios também estão na corda bamba. Das empresas com prejuízo, 9,89% pretendem demitir neste ano - mais do que a taxa média de 3,13%.

Sobreviventes. Quem se antecipou à maré baixa conseguiu driblar os efeitos negativos. O mesmo estudo mostra que estabelecimentos com tíquete médio abaixo de R$ 15 ou aqueles que elaboraram novos pratos e promoções para adequar o cardápio ao bolso do consumidor se saíram melhor em 2015. Alguns conseguiram até mesmo expandir o faturamento, a taxas que vão de 5% a 15%.

No Rio, a empresária Helena Rodrigues Moura reformulou o cardápio do restaurante Ô Mattos, no centro da cidade, em agosto do ano passado. Incluiu porções menores e mais baratas. Além do prato executivo, oferece a refeição "mini" por R$ 14 e a "brotinho" por R$ 12. "Em vez de aumentar muito o preço, fiz isso", conta. "Mantive o número de clientes. Foi uma boa defesa (contra a crise)", diz ela, que tem como sócia a filha Milena.

A vitória é ainda mais comemorada porque o restaurante de dona Helena fica próximo às obras do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), que, segundo ela, prejudicaram o movimento. "Quando as obras acabarem, acho até que vai melhorar", afirma.

Dono do restaurante Ita, na zona central de São Paulo, Luiz Nunes Pedro também segurou os preços. Por lá, uma refeição pode custar entre R$ 13 e R$ 25. "Se aumenta, os clientes procuram um mais barato", diz. A fila de espera por um lugar no balcão do Ita diminuiu nos últimos tempos, mas a freguesia cativa e o preço baixo em relação à região têm garantido a continuidade do negócio. 

Empresas que enxergaram mais cedo a crise ganharam vantagem, aponta o presidente da Abrasel. Parte delas investiu antes em automação e formação. "Isso permitiu um salto de produtividade na hora certa", afirma. Outra parcela mirou em promoções para atrair a clientela. "Além disso, houve uma migração. O consumidor fez um grande esforço e agora gasta em outra faixa de preço", nota.

Quem mais perdeu nesta disputa foram os restaurantes com tíquete médio entre R$ 25 e R$ 70. Nessa faixa, o recuo foi de até 30% no faturamento no ano passado.

Diante da criatividade de alguns empresários e do ajuste do mercado, Solmucci Jr. afirma que o setor de bares e restaurantes viverá uma estabilidade em 2016. Uma vitória perto do recuo real de 3,5% observado em 2015. "Comemoramos porque parou de piorar, e esse é o primeiro passo para começar a melhorar. Em 2017, já enxergamos crescimento", diz.

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