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Joedson Alves/Reuters

Para analistas, Tombini se fortalece no cargo

Avaliação é que imagem do BC saiu arranhada com decisão do Copom, mas que presidente do banco ganhou politicamente

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O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2016 | 19h32

O ruído gerado pela guinada na comunicação do Banco Central horas antes da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que decidiu pela manutenção da taxa de juros arranhou a credibilidade da instituição, mas não deve se traduzir em enfraquecimento do presidente Alexandre Tombini no cargo, nem levar a divisões irreparáveis na diretoria do BC, segundo analistas consultados pelo Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado.

A comunicação pouco usual de Tombini - na terça-feira pela manhã, ele soltou uma carta dizendo que a forte deterioração das previsões do FMI em relação à economia brasileira seria levada em conta pelo Copom - foi mal recebida e encarada como resultado de interferência externa na instituição. Até aquele momento, a aposta do mercado era de que o BC subiria os juros em 0,5 ponto porcentual.

Em relatório enviado a clientes, a MCM Consultores avalia que “o cavalo de pau na comunicação foi tão abrupto que não há como descartar conjecturas pouco abonadoras, como, por exemplo, uma intervenção de última hora da comandante-em-chefe (economista-chefe?)” - uma referência explícita à presidente Dilma Rousseff. A consultoria destaca que não havia informação nova que levasse o Copom, na véspera da decisão, a abandonar o discurso que apontava para uma alta na Selic para optar pela estabilidade dos juros.

Para o professor de finanças da ESPM e sócio da Méthode Consultoria, Adriano Gomes, deve crescer no mercado a antipatia em relação a Tombini. “Há o risco de todas as declarações da autoridade monetária caírem em descrédito”, avalia.

Enfraquecimento. Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, considera que o comentário de Tombini na terça-feira, horas antes de a reunião do Copom começar, foi “a cereja de um bolo que vinha sendo montado”. Ele destaca que, quando Joaquim Levy estava à frente do Ministério da Fazenda, o Banco Central foi capaz de imprimir uma dinâmica independente na política monetária. “Sem o Levy, o Tombini não é um presidente do BC muito forte”, comentou.

A deterioração da imagem do banqueiro central no mercado não deve ser interpretada, porém, como fragilidade dele no cargo, alertam os especialistas. O economista-chefe da Garde Asset Investimentos, Daniel Weeks, considera que o episódio abala a imagem do Banco Central, mas não de seu presidente. “Politicamente, o Tombini está forte, já que ele fez o que a base de sustentação do governo queria”, disse.

No mesmo sentido, Bruno Lavieri, economista da 4E Consultoria, pondera que a perspectiva é que Tombini siga no cargo. “Se ele sair, não será por vontade do governo”, disse.

Thais Zara, economista-chefe da Rosenberg Associados, também descarta a possibilidade de troca de comando na autoridade monetária. “Ele acabou de ser nomeado presidente do Comitê Permanente de Orçamento e Recursos do FSB (Financial Stability Board). Isso é um indicativo sério de que, perante o governo, ele não está enfraquecido”, destacou. O mandado do presidente do BC brasileiro no comitê do FSB vai de 1.º de fevereiro até 30 de abril de 2018.

O Broadcast apurou também que, internamente, apesar de a decisão do Copom não ter sido unânime, o clima na diretoria do BC é de coesão. Quando um ou outro integrante é levado a falar sobre divergências entre os diretores, a resposta comum é que as diferenças ficam restritas ao campo das ideias. Diferentemente do que já ocorreu no passado, na atual diretoria ainda não há um fator que leve algum membro do colegiado a se sentir descontente ou pressionado a ponto de ameaçar deixar a instituição. / MÁRIO BRAGA, ANDRÉ ÍTALO ROCHA, CÉLIA FROUFE E MATEUS FAGUNDES

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