Para especialista, Brasil corre risco de recessão em 2014

Avaliação é de que o País está num momento econômico ruim para suportar o impacto das açõs do Fed

O Estado de S.Paulo

23 Junho 2013 | 02h14

O impacto sobre o câmbio e os juros de um choque causado pela redução dos estímulos monetários pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) poderá empurrar a economia brasileira para a recessão em 2014, ou pelo menos dois trimestres seguidos de contração do Produto Interno Bruto.

"Há fortes chances de, dada a direção dos mercados, haver uma recessão no Brasil em 2014", afirma Tony Volpon, diretor de pesquisa para mercados emergentes da Nomura Securities. "O mercado está colocando bolsa, câmbio e juros num patamar que vai fazer o crescimento da economia cair mais."

Para Volpon, sem a crise provocada pela normalização das condições monetárias nos EUA, o Brasil já caminhava para mais um ano de PIB fraco, ao redor de 2% em 2013. Com a subida dos juros de mercado, provocando um aperto das posições financeiras, ocorrerá um ajuste recessivo. "Podemos estar caminhando para um juros de 3% ou 3,5% nos títulos de 10 anos do Tesouro americano, o que levaria os juros mais longos no Brasil, como um contrato DI de 2017, para até 12%."

No limite. Segundo ele, o Brasil está entrando na crise atual numa posição enfraquecida, sem espaço na política econômica, como em 2008, para lidar com a parada súbita do fluxo de capital. "Em 2008, tínhamos superávit primário acima de 3,5%, por exemplo. Além disso, a China em 2009 salvou o mundo, o que não acontecerá agora."

Na opinião do economista-chefe para América Latina do banco Goldman Sachs, Alberto Ramos, o Brasil vai lidar com o choque externo provocado pelas ações do Fed numa posição de vulnerabilidade. "O déficit em conta corrente aumentou, o crescimento econômico está baixo e a inflação está muito alta", diz Ramos. "Porém um câmbio mais depreciado agora vai interferir nesse processo, então talvez teria de vir um arrocho de juros para rebalancear a economia."

Por outro lado, promover um choque nos juros básicos neste momento é inviável politicamente, observa Ramos. "Infelizmente, o ciclo eleitoral vai interferir no que seria a melhor postura em termos de ajuste de política econômica para lidar com a crise", afirma. Ramos acredita que o Banco Central deveria subir a taxa Selic para 10% ou 11% no curto prazo para lidar com o câmbio mais desvalorizado. De toda a forma, o risco de que o ciclo de aperto monetário seja ampliado para além de 9,25% é grande, acrescenta.

"O problema é que o Brasil entrou no pior momento de mudança no cenário mundial com fundamentos fiscais deteriorados e com baixa credibilidade da política econômica", afirma. "E como estamos com inflação alta, o governo poderá ter de validar uma contração do PIB por algum período para que a economia se reajuste e possa enfrentar esse novo cenário, mas é nenhum o apetite político para provocar uma contração no mercado de trabalho, diante dos protestos que estamos vendo nas ruas do País." / F.A.

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