Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Para Gustavo Loyola, Brasil está recebendo um 'reconhecimento' por seus erros

Na avaliação do ex-presidente do Banco Central, reforma da Previdência se torna pauta urgente para 2019

Luiz Guilherme Gerbelli, especial para o Estado

23 Fevereiro 2018 | 15h43

O ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola avalia que a decisão da agência de risco Fitch de rebaixar a nota de crédito do País para BB- é um 'reconhecimento' ao Brasil pela falta de iniciativa de atacar os problemas fiscais. Na avaliação dele, a reforma da Previdência, citada pela Fitch como um dos motivos para a redução da nota brasileira, se torna uma pauta urgente para o País em 2019.

Como o sr. avalia o rebaixamento do Brasil pela Fitch?

A decisão não surpreendeu. Como o governo abriu mão da Previdência e o Congresso não deu apoio, é isso aí: o Brasil se tornou um país mais arriscado e isso está refletido nos ratings das agências.  

Como fica o caminho de volta para que o Brasil recupere o grau de investimento?

O caminho fica mais difícil. A cada ano que você adia reforma previdenciária, mais difícil se torna (a conquista do grau de investimento). O governo não tem espaço para aumentar imposto, então como é que você equilibra sem uma reforma? Não tem como. E essa crise fiscal não está focada no governo federal – ela é generalizada. É só ver o que está acontecendo nos Estados. O Brasil está recebendo um 'reconhecimento' pelos seus erros, pela sua falta de iniciativa de atacar os problemas fiscais.

E como fica o teto de gastos sem a reforma da Previdência?

Sem uma reforma previdenciária, é muito difícil de sustentar o teto gastos. Você não vai conseguir respeitar esse teto a partir de 2019 se não tiver uma reforma. Eu acho que a situação do País ficou mais complicada. Porém, não é desesperadora – tem tempo para corrigir.

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Como esse quadro de piora de rating, como fica a pauta da Previdência para 2019?

Fica urgente. Agora, será que a cabeça dos deputados e senadores vai mudar até lá ou eles vão continuar sendo influenciados pelos interesses corporativos e outros interesses que são contrários? O País todo vai pagando por isso.

Qual a avaliação para o quadro eleitoral para a condução futura da política fiscal?

Esse é o problema. Além de a situação fiscal não ser confortável, existem as incertezas eleitorais. Essa eleição é a mais incerta, talvez, desde 1989. Então, pode dar qualquer coisa.   Podemos ter desde um Lula 2, embora ele possa não ser candidato, até Jair Bolsonaro, que não traz nenhuma garantia – ao contrário, traz muita preocupação. Há muita incerteza num contexto de fragilidade fiscal.  Se a situação fiscal fosse mais consolidada, pesaria menos essa incerteza eleitoral.

Há toda essa incerteza sobre o País a partir de 2019 e novos rebaixamentos do rating do Brasil. O que explica essa calmaria no mercado?

É o vento externo, tem muita liquidez. E o Brasil, apesar da dificuldade fiscal, não é um país que tem um risco imediato. Tem uma situação de reservas internacionais bastante tranquila, déficit em conta corrente muito baixo, um sistema financeiro bastante sólido, inflação controlada e juro baixo. Não é um país que ofereça um risco de curto prazo, mas a questão fiscal pesa com um problema que pode a qualquer momento emergir e aí sim causar um problema maior.

O sr. vê as agências fazendo mais algum movimento neste ano?

O mais provável é que não haja nenhum movimento adicional, mas não descarto essa possibilidade porque depende de como vai andar o processo eleitoral. Tudo isso pode gerar uma tensão adicional. Eu acho que as agências vão esperar para ver o que nova gestão vai fazer na condução da política econômica e, em particular, na gestão fiscal.

 

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