Pic Basement/ Creative Commons
Pic Basement/ Creative Commons

Para onde vão todos os CEOs que caíram em desgraça?

Mesmo porque, na realidade eles não estão em um oceano cheio de tubarões. A maioria continua vivendo longas e muito bem compensadas vidas

John Schwartzoct, O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2017 | 18h31

Já se tornou um ritual de vida corporativa: o problema chega, e o principal executivo é obrigado a saltar da prancha no mar aberto, como no tempo dos piratas. Hoje em dia, são tantas as empresas envolvidas em escândalos, que seria necessária uma prancha bem maior.

Esses dramas frequentes geralmente me deixam com dúvidas. Afinal, para onde vão essas pessoas depois de deixar a atmosfera rarefeita das maiores e mais reluzentes corporações?

Mesmo porque, na realidade eles não estão em um oceano cheio de tubarões. A maioria continua vivendo longas e muito bem compensadas vidas. O que me faz pensar: será que existe uma maneira de ganhar dinheiro com eles?

A primeira pergunta tem me atormentado ao mesmo tempo em que aumenta a lista de principais executivos que partem. Leve-se em consideração alguns exemplos.

++Presidente da Amazon Studios renuncia após denúncia de assédio sexual

Richard F. Smith deixou a Equifax em setembro, depois que a empresa foi atacada por um invasor digital que comprometeu a informação pessoal de milhões de consumidores.

Mike Cagney saiu da Social Finance, a empresa de empréstimos estudantis da qual foi co-fundador, depois que relatórios com alegações de assédio sexual e a cultura de “fraternidade” da empresa surgiram.

E há o caso do magnata da indústria cinematográfica, Harvey Weinstein, demitido por sua própria empresa, na semana passada, depois que acusações sobre vários anos de assédio sexual e subornos aos acusadores surgiram em uma investigação publicada pelo The New York Times e em seguida num artigo na The New Yorker.

Ele admitiu ter “causado muita dor”, ao mesmo tempo em que desmentia muitas das acusações. Weinstein também disse que crescer nos anos 1960 influenciou seu comportamento, embora ele não seja muito mais velho que eu, e jamais fiz qualquer uma das coisas sobre as quais ele falou. E eu fiz faculdade em Austin!

Disseminado. Os pedidos de demissão de executivos em chefe estão em toda parte: em uma audiência recente, a senadora Elizabeth Warren disse a Timothy J. Sloan, da Wells Fargo: “você deveria ser demitido”, ao falar sobre o escândalo das contas falsas da empresa e muito mais. Que grosseria!

Ele mal ficou um ano no emprego. Seu antecessor, John G. Stumpf, renunciou apenas no ano passado. Esse trabalho está começando a parecer tão malfadado quanto o papel do baterista no grupo de rock de ficção Spinal Tap.

Os capitães da indústria, no entanto, não entram em combustão espontânea. Na verdade, eles tendem a levar longas vidas, especialmente porque têm dinheiro suficiente para atendimentos médicos verdadeiramente fabulosos.

Então, para onde é que eles vão? E o que fazem? Nenhuma das pessoas que mencionei se dispôs a fazer declarações para este artigo, embora uma porta-voz de Weinstein tenha dito ao repórter do Times que "ele está aproveitando o tempo para se concentrar em sua família, obter aconselhamento e reconstruir sua vida”. Respostas anódinas como esta não satisfazem minha curiosidade. Afinal, quanto tempo eles podem realmente passar com as famílias?

Será que eles têm um clube, tipo de versão ex-milionários do Bada Bing (um fictício strip club da série Os Sopranos), onde podem relaxar completamente ao sair e ficar com os amigos? Isso provavelmente é muito pouco para as pessoas com o dinheiro para mansões suficientemente grandes para ter seus próprios códigos postais.

Dinheiro. Essas pessoas podem ir a qualquer parte, seus bolsos recheados por indenizações, ações e quaisquer outras remunerações que os altos executivos recebem, ocupando o cargo ou não.

Precisam ter suas próprias ilhas, onde podem tomar seus drinques de alta qualidade com enfeites de guarda-chuvas sem precisar se preocupar com a ralé perguntando: “você não era...?" Pode ser que seja difícil ir até uma ilha, mas esses executivos podem contar com seus paraquedas dourados (os benefícios que eles recebem na demissão são chamados de ‘golden parachutes’).

Em busca de conselhos, liguei para Eric Dezenhall, um consultor de gerenciamento de crises que testemunhou muitas execuções corporativas. 

 “Demitir o CEO atualmente é o primeiro item no repertório de truques de gerenciamento de crises”, disse ele. “Trata-se do teatro do sacrifício humano agora”.

Seu trabalho o levou a aconselhar alguns dos caídos, alguns dos quais buscam freneticamente meios de voltar ao jogo e salvar suas reputações, mesmo que tais reputações passaram do ponto de serem reparadas. Você deve sentir algo por essas pessoas, que não possuem nada além de seus milhões para consolá-los.

No entanto, Dezenhall disse desconhecer a existência de qualquer ilha secreta onde os ex-altos executivos passavam seus dias seus dias enquanto estavam fora do trabalho. E não só porque seria secreta, oh não. É que simplesmente parece não existir uma.

Isso, meus amigos, é onde eu lucraria com essa fartura de ex-executivos.

Então, aqui está a minha ideia brilhante: vamos construir um resort em uma ilha muito exclusiva, sem poupar nenhuma despesa, pelo menos para nossos clientes. Haverá uma praia gloriosa, boa comida e vinhos em um cenário permitindo que os chefes cuja reputação foi maculada circulem entre os seus pares e não esbarrem um no outro. Seria muito familiar!

Eu contrataria atores profissionais como funcionários, pessoas com treinamento de estágio tão rigoroso que eles jamais ririam de alguma pessoa. Não enquanto estivessem trabalhando.

Vamos, lá, acelere comigo! Nós nos tornaremos tão ricos quanto nossos clientes de reputação maculada.

Com a promessa de grossos bifes marmorizados, porto vintage e abundantes charutos de Havana - e, claro, golfe, tênis e carros rápidos - eles viriam em bandos para a nossa ilha de fantasia.

Vamos dar a ela um nome realmente excelente, como Last Resort (Último Recurso). Ela será longe, muito longe. E então vamos deixá-los lá. //TRADUÇÃO CLAUDIA BOZZO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.