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Fábio Motta/Estadão

Petrobrás quer reduzir para seis o número de sondas da Sete Brasil

Empresa criada para administrar as sondas de exploração do pré-sal foi paralisada depois de ser envolvida no escândalo da Lava Jato e tenta evitar a quebra com a manutenção de pelo menos 15 encomendas pela Petrobrás

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Fernanda Nunes,Vinicius Neder,
O Estado de S.Paulo

06 Janeiro 2016 | 05h00

RIO - A Sete Brasil, empresa de capital nacional criada para construir e afretar sondas e plataformas para exploração de petróleo em alto-mar, inicia o ano com o desafio de convencer a diretoria da Petrobrás da sua capacidade financeira e técnica para fechar os contratos de 15 sondas destinadas ao pré-sal. O problema é que, segundo uma fonte da estatal envolvida nas negociações, a Sete Brasil tem hoje a garantia de contratação de apenas seis embarcações.

A empresa nasceu com a missão de construir 28 embarcações para a Petrobrás, sua única cliente e sócia minoritária, mas foi atingida tanto pela crise da estatal quanto por denúncias de corrupção, após ter o nome envolvido nas investigações da Operação Lava Jato.

Além de frustrar o plano do governo de usar a empresa como âncora da indústria naval brasileira, o que levou à quebradeira de estaleiros e demissões, a derrocada da Sete Brasil poderá provocar ainda um rombo nas contas de seus sócios – bancos e fundos de pensão de estatais, uma mistura de dinheiro público e privado. Juntos, eles já aplicaram R$ 8,3 bilhões no projeto. E a empresa ainda deve US$ 3,6 bilhões ao Banco do Brasil, Caixa, Bradesco, Itaú, Santander. Desses, apenas o Itaú e o BB não são sócios.

Orçamento. Com limitações de caixa, a Petrobrás cortou de 28 para 15 o número de sondas que vai afretar. Dessas, garante a contratação só das unidades que estão em construção. Nove plataformas, que ainda estão em fase de projeto, poderão ser adquiridas no mercado internacional, mesmo que, com isso, a Petrobrás transgrida a regra de conteúdo local, que obriga a aquisição de um porcentual mínimo de bens e serviços no Brasil.

Por causa da Lava Jato, a Sete Brasil enfrenta uma crise de credibilidade. Alguns dos estaleiros com os quais se associou são controlados por empreiteiras também investigadas pela Polícia Federal.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), cuja promessa de financiar a construção das sondas era um dos pilares do projeto, já não cogita liberar o dinheiro para os projetos. E as taxas de aluguel cobradas pela Sete Brasil ainda são superiores às do mercado internacional.

A diferença, para mais, entre os preços externos e internos sempre existiu. Esse não chegava a ser um impeditivo à contratação da fornecedora. Com a crise na indústria petroleira mundial, porém, a diferença entre as taxas de afretamento se ampliou. E, do lado da Petrobrás, já não há a mesma disponibilidade em atuar como âncora da indústria nacional, até por causa do caixa apertado e das dívidas.

A Petrobrás avalia que é possível economizar recorrendo ao mercado externo. “É uma conta a se fazer”, disse um executivo da estatal ao Broadcast, serviço de informação em tempo real da Agência Estado.

A prisão do banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, em novembro, dificultou ainda mais as negociações, afirmou o executivo. O BTG é o principal sócio privado da Sete Brasil – em junho de 2014, o banqueiro reconheceu que o investimento foi um “fiasco”. Além disso, “a Petrobrás não tem pressa” em fechar os contratos de afretamento das sondas com a Sete Brasil.

Condições. Após longo período de conversas, em novembro, a estatal resolveu condicionar a continuidade das negociações à apresentação de um plano de reestruturação pela Sete Brasil. Os valores dos contratos também voltaram a ser discutidos.

Entre os executivos da Sete Brasil, a percepção é que o acordo não vai sair. Fonte da empresa fornecedora afirma que “a cada avanço apresentado pela Sete Brasil, a estatal responde com duas novas exigências”.

Segundo a fonte, um grupo de executivos da Petrobrás resistente à Sete Brasil acredita que a fornecedora foi criada para o desvio de dinheiro público.

Oficialmente, nenhuma das empresas se posiciona. A Sete Brasil disse que “desconhece” informação sobre o plano de reestruturação ou que a estatal exija, por exemplo, a redução de tarifa. A Petrobrás não respondeu aos questionamentos.

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