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Economia

Polícia Federal

Petróleo em queda agrava crise da Petrobrás

Em meio à turbulência desencadeada pela Lava Jato, estatal sente com mais força impacto do petróleo mais barato

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Antonio Pita, Fernanda Nunes e André Magnabosco

14 Fevereiro 2016 | 22h09

Atolada numa dívida de mais de R$ 500 bilhões e alvo de investigação da operação Lava Jato, da Polícia Federal, que apura um esquema de corrupção, a estatal brasileira Petrobrás sente com ainda mais força os impactos da queda do preço do petróleo no mercado internacional – a cotação do barril já recuou mais de 70% nos últimos 18 meses e tem se mantido ao redor dos US$ 30, colocando em dúvida até a viabilidade do pré-sal, apontado pelo governo, quando de sua descoberta, como um “bilhete premiado”.

Com a drástica redução da margem de lucro de seu principal produto, a empresa tenta buscar saídas. Já reduziu investimentos – o plano de aplicar US$ 23 bilhões entre 2015 e 2019 já caiu para US$ 20 bilhões, e deve ter um novo corte – e anunciou que colocará ativos à venda, além de sair de várias áreas, como a de energia, para se dedicar basicamente ao petróleo. Algumas certezas do setor começam a ser questionadas mais fortemente, como a política de conteúdo nacional para a indústria petrolífera, que o governo insiste em não mexer, argumentando que ainda é preciso “proteger” as empresas nacionais.

A crise provocada pela queda livre ocorrida nos preços do petróleo desde outubro de 2014 é mais severa no Brasil do que aquela que força empresas produtoras do mundo todo a se adequarem ao cenário adverso, vendendo ativos e cortando custos. Altamente endividada e com pouco dinheiro para investir, a “nova Petrobrás”, que começou a surgir sob a gestão de Aldemir Bendine, ainda enfrenta o descrédito do mercado financeiro e de parceiros desde que a Operação Lava Jato, da Polícia Federal, revelou a existência de um esquema de corrupção envolvendo a empresa e fornecedores.

Para conseguir retomar o crescimento, a Petrobrás decidiu encolher de tamanho e abandonar várias áreas de negócio. Na semana passada mesmo, a empresa deu os primeiros passos para sua retirada do setor elétrico e colocou à venda 21 usinas térmicas e gasodutos por onde circula o gás que as abastece. O foco, agora, é a produção de petróleo, principalmente nas áreas do pré-sal – embora, ao mesmo tempo, haja uma movimentação do governo no sentido de permitir maior flexibilização na operação dessas áreas.

Sem fôlego para investimentos de porte, a Petrobrás já não quer dominar todo o elo da cadeia e, na medida em que se retira de projetos, demite e provoca falência de fornecedoras, principalmente no setor naval. Para Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), falta estratégia de longo prazo à nova Petrobrás, ao contrário do que ocorre com outras empresas.

“A Shell, por exemplo, já produz mais gás natural do que petróleo, porque é mais barato e menos poluente. Ele será o combustível da transição, mas a Petrobrás está diminuindo a importância da área, vendendo ativos. Está se tornando uma outsider”, pondera o consultor. O diretor da consultoria MaxiQuim, Otávio Carvalho, diz ainda que “as grandes petroleiras globais possuem um braço petroquímico para que, em momentos como o atual, quando margens de exploração e produção são menores, elas se beneficiem nessa outra ponta”.

Flexibilização. Na Petrobrás, depois da substituição de toda a diretoria, em fevereiro de 2015, o caminho foi abrir espaço para que outras petroleiras atuem no Brasil e resgatem a indústria fornecedora, que vem minguando. A presidente Dilma, que por anos se negou a atender aos pedidos das estrangeiras para que mais leilões de concessão de reservatórios fossem feitos e para que a operação no pré-sal fosse flexibilizada, já dá sinais de que está disposta a negociar.

A Lei da Partilha (12.351/2010), que trata do pré-sal, define que a Petrobrás deve liderar todo o investimento na área, com ao menos 30% de participação nos desembolsos. Mas Dilma, diante da falta de capacidade de investimento da companhia, tem se reunido com presidentes de multinacionais e com o ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, para elaborar um pacote de medidas que, na prática, servirá para acabar com o predomínio da Petrobrás no pré-sal e a dependência que os fornecedores têm da estatal.

A flexibilização do setor vai começar pela venda de áreas de pré-sal contínuas a outras, já em fase de exploração e produção. O processo é conhecido tecnicamente como unitização. Porém, há um impasse sobre quem deve operá-las, se o concessionário do bloco original, se a Petrobrás – por ser área de pré-sal – ou uma empresa nova. A dúvida ocorre porque as concessões originais foram feitas antes do marco regulatório do pré-sal, que exige a participação de 30% da Petrobrás.

Como solução, o governo planeja realizar um leilão dos blocos de unitização no pré-sal. As companhias vencedoras terão o direito de negociar diretamente com a operadora dos blocos originais um arranjo societário capaz de solucionar o impasse. Como a Petrobrás é a dona da maior parte dessas áreas, caberá a ela escolher em quais dessas áreas de pré-sal quer continuar e quais quer vender, dentro do seu plano de desinvestimento.

“O pré-sal é um dos grandes diferenciais da Petrobrás, pelo seu custo de produção de US$ 8”, afirmou Bendine, ao anunciar os ajustes no plano de investimentos dos próximos quatro anos, em janeiro.

Tamanho. Ao todo, a Petrobrás abriu três frentes de atuação para reduzir de tamanho. A estatal planeja vender US$ 57 bilhões do seu patrimônio até 2019, investirá menos e ainda cortará custos operacionais. A companhia já anunciou o repasse de 49% da subsidiária de distribuição de gás natural, a Gaspetro, para a japonesa Mitsui. Também elaborou um cardápio de ativos dos quais quer se desfazer, incluindo parte da BR Distribuidora.

Em linha com a proposta de focar o investimento na produção de petróleo, já em 2015 começou a priorizar o gasto com obras, em projetos onde está disposta a crescer, na diretoria de exploração e produção. Dos R$ 51 bilhões despendidos em novas construções, 69% foram para essa diretoria, principalmente para o pré-sal. Segundo análise de Eric Barret, professor do Insper e diretor da consultoria M2M, a área de abastecimento – produção e comercialização de combustíveis –, a segunda a receber mais dinheiro, ficou com apenas 16% do total. A subsidiária de biocombustíveis, a Pbio, responsável pela geração de energia alternativa, ficou sem verba para crescer.

O corte de investimento é bilionário. Até outubro do ano passado, o plano era gastar US$ 23 bilhões de 2015 a 2019. No mês passado, a empresa ajustou o número para US$ 20 bilhões e um valor ainda menor deve ser divulgado até março, já com as projeções para 2020. Os gastos operacionais ainda estão em estudo.

A projeção inicial era de US$ 29 bilhões, mas a Petrobrás colocou o orçamento em revisão, sem indicar a que valor vai chegar. A maior parte da economia virá das demissões e reestruturação interna, que está em processo.

Para Adriano Pires, o comando da estatal “abandonou a obsessão ideológica para adotar uma obsessão financista”, em referência ao foco em disciplina de capital para diminuir o comprometimento do caixa com o pagamento de dívidas. “Isso é necessário, mas só faz sentido se estiver incorporado a uma estratégia de longo prazo, para a empresa voltar a ser relevante daqui a cinco anos", reafirma Pires. “Não adianta capitalizar se não houver definição de futuro. Hoje, os investidores não sabem qual é essa estratégia porque ela não existe”, completa.

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Química 'verde' pode perder força

Com o barril de petróleo cotado a US$ 30 ou abaixo disso, projetos petroquímicos baseados em fontes renováveis devem ser revistos

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ANDRÉ MAGNABOSCO, ANTONIO PITA, ANDRÉ ÍTALO ROCHA e FERNANDA GUIMARÃES

14 Fevereiro 2016 | 22h07

O preço do petróleo em um patamar próximo a US$ 30 por barril – ou abaixo disso – tem influência nos próximos anos não apenas nas estratégias de negócios das petroleiras, mas também em setores intensivos no uso da commodity e seus derivados, bem como em fornecedores da cadeia. O impacto é direto na área de pesquisa e desenvolvimento de energias alternativas, a despeito de o mundo mirar avanços rumo à sustentabilidade propostos na 21.ª Conferência do Clima (COP 21) no ano passado.

Beneficiada pelo petróleo desvalorizado, a indústria petroquímica pode ser obrigada a repensar o avanço em direção à produção a partir de fontes renováveis. “A química verde não compete com o petróleo a US$ 30 o barril”, diz o diretor da consultoria MaxiQuim, Otávio Carvalho. Embora a produção renovável tenha apelo em nichos de mercado, o especialista destaca que, de maneira geral, “ninguém paga uma passagem mais cara porque o combustível da aeronave é verde”.

Por isso, a percepção de Carvalho é de que o fim da era do petróleo só ocorrerá quando a química verde ou outra fonte renovável for mais econômica que o petróleo. Mais do que isso, o especialista avalia que, se for vislumbrado um cenário em que petróleo permaneça baixo por muito tempo, “dentro de dois ou três anos, voltará a haver análises sobre investimentos em nafta, o que não ocorria desde o início dos anos 2000, na Arábia Saudita, quando esse derivado de petróleo era subsidiado”, relembra Carvalho.

Competitividade. Desde então, os principais projetos do mundo foram idealizados a partir da exploração do gás natural.

“Havia uma grande diferença de custo entre quem utilizava o gás natural e quem usava a nafta, e a margem do gás foi muito favorável durante algum tempo. Na medida em que o preço do petróleo cai, a diferença de preço relativo muda e as margens entre nafta e gás hoje são mais próximas”, comenta Carvalho. Como a química nacional tem a nafta como principal insumo, a nova relação de preços entre o petróleo e o gás torna a indústria nacional mais competitiva.

Os balanços da Braskem, única grande petroquímica brasileira, são mostra disso. A receita líquida da companhia entre janeiro e setembro de 2015 cresceu apenas 2%, para R$ 34,9 bilhões, porém o lucro saltou 265% em igual período, para R$ 2,7 bilhões. O número supera o lucro de R$ 2,1 bilhões acumulado pela Petrobrás, uma das controladoras da Braskem, no mesmo período.

Mesmo assim, a Braskem confronta a avaliação de que o desenvolvimento de tecnologia e processos para uma economia sustentável será interrompido. A empresa afirma que a estratégia de apostar na química verde “está mantida”.

O esperado avanço na produção de resinas termoplásticas a partir da cana de açúcar, contudo, pouco se assemelhou ao que se vislumbrava no início desta década, após o início da produção de “polietileno verde”. A expectativa da Braskem de viabilizar novas linhas de produção “verde” não saiu do papel, assim como projetos idealizados pela norte-americana Dow Chemical e pela belga Solvay, todos com base na utilização da cana de açúcar. 

Carros. Na indústria automobilística, a disposição também é de manter os investimentos no desenvolvimento de energias renováveis no mesmo ritmo, segundo o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, Luiz Moan. Há anos o setor empenha esforços para colocar no mercado carros elétricos, que possam competir com os modelos movidos a combustão. Mas o fato é que, hoje, a maioria das empresas não se arrisca mais a fazer previsões de quando esse objetivo será alcançado.

“Havia, entre as montadoras, uma onda de inovação que pode perder força, não só pela queda do preço do petróleo, mas também por causa da demanda por veículos enfraquecida no Brasil”, analisa o economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rafael Cagnin. Ele concorda, no entanto, que o movimento em direção às energias alternativas permanecerá, ainda que em ritmo mais lento

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País aposta em fontes renováveis

Para especialistas, produção de energia eólica, solar e de biomassa deve continuar em alta, mesmo com o preço do petróleo em queda

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Renée Pereira

14 Fevereiro 2016 | 22h05

As chamadas novas fontes renováveis de energia, formadas por usinas eólicas, solares e de biomassa, foram as que mais cresceram nos últimos anos no Brasil. Entre 2005 e 2014, a produção desse tipo de energia aumentou 146%, enquanto as hídricas avançaram 10%; o petróleo, 38%; e o gás natural, 80%, segundo o Balanço Energético Nacional 2015 (BEN).

Embora ainda tenham uma participação pequena na matriz energética, elas vão reforçar as medidas do governo para que o País consiga atingir as metas de redução das emissões de gases do efeito estufa definidas na 21.ª Conferência do Clima (COP 21), ocorrida em dezembro, em Paris. O objetivo do Brasil é reduzir as emissões em 37% até 2025 e em 43% até 2030.

Para isso, o governo pretende elevar a participação das novas fontes renováveis de 9%, em 2014, para 24% da produção de energia elétrica do País até 2030, diz o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim. “Hoje, a média dessas novas energias renováveis na matriz mundial está em torno de 6%. É claro que alguns países têm participação maior, como a Alemanha (13,4%).”

Na opinião de Tolmasquim, o Brasil vai continuar mantendo sua posição de liderança na produção de energia limpa nos próximos anos. E isso deve ocorrer a despeito da queda dos preços do petróleo e mesmo com a perspectiva de que o barril não volte aos patamares de US$ 100.

O País tem uma matriz energética invejável comparada ao resto do mundo. Pelos dados do Balanço Energético Nacional, cerca de 40% da oferta interna de energia vem de fontes renováveis – que incluem a energia hidrelétrica e o etanol – e 60% de combustíveis fósseis. No mundo, a média de uso de energia limpa era de apenas 13,8% em 2013, último dado da Agência Internacional de Energia.

Os números brasileiros já foram melhores. Em 2009, por exemplo, 46,8% da oferta de energia no País era renovável. Tolmasquim explica que a queda é reflexo da crise hídrica que assolou o País nos últimos anos e exigiu a produção de energia elétrica de óleo combustível e diesel. “O Brasil é privilegiado. Tem água em abundância, vento forte e sol o ano todo”, afirma o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires.

Segundo ele, a energia eólica e a solar vão crescer muito nos próximos anos e exigir estudos avançados em novas tecnologias. Como são fontes intermitentes, que estão sujeitas às intempéries da natureza, elas não conseguem garantir um volume de produção o tempo todo. Por isso, o mundo vem apostando em estudos para o desenvolvimento de baterias que consigam armazenar a energia produzida por essas novas fontes renováveis.

“Algumas empresas têm estudos aprofundados. Mas, por enquanto, elas são muito caras”, destaca o presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), José Goldemberg, um dos principais cientistas brasileiros especializados em energia. Ele explica que as baterias são as mesmas que são usadas para os carros elétricos, mas com mais capacidade. “Para se ter uma ideia do custo, as baterias usadas nos carros custam mais de US$ 20 mil, quase metade do valor do carro.”

Na avaliação dele, enquanto essas inovações continuam no papel, o Brasil deveria voltar a investir nas hidrelétricas com reservatórios, que acumulam água e, portanto, armazenam energia. Como os novos potenciais hidrelétricos estão localizados na Amazônia, a pressão ambiental em cima das hidrelétricas tem tornado inviável a construção de usinas com represas. Isso diminuiu a capacidade de armazenamento de água e deixou o País mais vulnerável às condições climáticas.

Na opinião de especialistas, as usinas eólicas devem ser usadas como complemento. No período de seca no Sudeste, as eólicas produzem mais no Nordeste. Mas é preciso ter usinas de reserva para o caso de o vento diminuir e reduzir a geração de energia.

Enquanto persistem as discussões sobre como armazenar a energia, a eólica continua tendo forte expansão e tem recebido vultosos investimentos. Foram R$ 22 bilhões em 2015 e, para este ano, a expectativa é aplicar outros R$ 25 bilhões. Segundo a presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica, Elbia Gannoum, em 2015 o setor cresceu 35% comparado com 2014 e colocou o País na 10.ª posição no ranking dos maiores produtores do mundo.

Solar. A energia solar está num estágio atrás da eólica, mas tem atraído investidores. Com a realização de leilões específicos para a fonte, o Brasil conseguiu dar o pontapé inicial na ampliação da fonte renovável, que ainda é incipiente – em 2014, o País tinha apenas 15 megawatt (MW) de energia solar instalada. Nos leilões, entretanto, foram contratados mais de 2,5 mil MW.

Maurício Tolmasquim diz que o planejamento da matriz energética brasileira inclui ainda a ampliação da produção de etanol. Apesar da crise que abalou o setor e fechou várias usinas, ele diz que a previsão é ampliar a fatia do produto de 38% para 49% entre os combustíveis até 2030.

Além das renováveis, uma fonte fóssil, mas menos poluente que o petróleo, deve ganhar espaço na matriz energética mundial, diz Pires. Para ele, o gás natural será o combustível da transição de uma economia suja para uma mais limpa.

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Conteúdo local será mantido

Apesar da crise generalizada que abala o setor depetróleo, governo não está disposto a mexer na regra de fornecedores nacionais

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André Borges / BRASÍLIA

14 Fevereiro 2016 | 22h04

Um dos pilares da política aplicada pelo governo no setor de petróleo são as regras de conteúdo local. Uma estratégia controversa, na qual o governo não está disposto a mexer. A avaliação da cúpula do setor energético é de que, apesar da crise generalizada que afeta o setor, é preciso seguir com a estratégia de “defender” a indústria nacional, que ainda não teria musculatura suficiente para enfrentar a concorrência internacional.

Nos últimos anos, a orientação tem sido a de ampliar o índice de equipamentos e serviços nacionais que precisam ser contratados pelas petroleiras. Até meados de 2010, esse volume girava em torno de 30%. Hoje, oscila entre 50% e 65%, conforme os critérios aplicados em cada um dos itens que compõem as operações de exploração e produção.

Segundo uma fonte ligada do Ministério de Minas e Energia, a nacionalização atingiu um “patamar adequado” e deverá seguir com este índice nos próximos anos, até que a cadeia de fornecedores locais possa andar com as próprias pernas e passe a atuar, inclusive, na exportação de equipamentos e serviços.

Para as petroleiras, o governo tem alimentado uma reserva de mercado que distorce os preços do setor, já abalado pela crise econômica do País, pelo derretimento do preço do petróleo e pelo atoleiro institucional e financeiro em que se meteu a Petrobrás. Para complicar ainda mais a situação, essa mesma indústria não teria condições de atender aos projetos.

Governo nega. A posição oficial é que cada item que compõe a cesta da indústria nacional é resultado de um consenso criado a partir de dezenas de reuniões técnicas realizadas com fornecedores e compradores, entre 2010 e 2012. Sobre a reserva de mercado, no entanto, o Ministério de Minas e Energia (MME) admite que tem havido abuso de preços praticados por fornecedores brasileiros, que incluem em seus preços valores próximos à multa que as petroleiras têm de pagar, caso descumpram os índice da cota nacional.

Uma medida para tentar coibir a prática abusiva começa a ser implementada. Nos próximos dias, deverá ser publicada pelo MME uma regulamentação para estabelecer os critérios técnicos de aplicação do “waiver”, que dá à petroleira o direito de pedir isenção dos compromissos de conteúdo local de determinado equipamento ou serviço, caso identifique a prática de preços muito acima do mercado. Basicamente, a empresa poderá reduzir o índice de um item e compensá-lo com aumento de nacionalização de outro.

A regulamentação faz parte das iniciativas previstas no Programa de Estímulo à Competitividade da Cadeia Produtiva, ao Desenvolvimento e ao Aprimoramento de Fornecedores do Setor de Petróleo e Gás Natural (Pedefor), criado no mês passado.

O governo também promete dar mais previsibilidade ao setor, com a realização de leilões de áreas de exploração a cada dois anos. O próximo leilão que prevê a oferta das “áreas unitizadas”, aquelas que estão ligadas a campos do pré-sal já licitados, deverá ocorrer no ano que vem.

A defesa do mercado nacional também passa pela atuação da Petrobrás na exploração do pré-sal. Ainda assim, o governo já sinalizou ao Congresso que não fará oposição pública às discussão do projeto que desobriga a estatal de ser a operadora única e ter participação mínima de 30% na exploração de todas as áreas do pré-sal.

Apesar da queda do preço do petróleo, a avaliação do governo é de que a exploração do pré-sal é viável, com o nível atual de US$ 30 o barril, seja pela Petrobrás ou por terceiros. Quando o pré-sal foi anunciado como bilhete premiado, em 2007, o barril frequentava a casa dos US$ 140. Já é praticamente um consenso que o barril nunca mais voltará para a casa dos US$ 100, devendo oscilar entre US$ 50 e US$ 80.

Para o presidente do Centro Brasileiro de Infraestrutura e professor da UFRJ, Adriano Pires, a política do setor é frágil e, muitas vezes, se confunde com a Petrobrás. “Não há uma definição clara do que se quer nesse setor. Lá atrás, quando o óleo estava em US$ 100, a Petrobrás tinha um tratamento ideológico e político. A lei da partilha foi pavimentada sobre uma decisão totalmente ideológica. O resultado é que hoje chegamos à Operação Lava Jato e a uma dívida de mais de R$ 500 bilhões. É a petroleira mais endividada do mundo”, afirma.

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