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PIB do Brasil deve crescer em 2017 com impulso de exportações e plano de concessão

Economia pode mostrar reação depois de dois anos de recessão; analistas avaliam, contudo, que riscos políticos e de implementação de medidas podem dificultar retomada

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Maria Regina Silva e Denise Abarca,
O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2016 | 16h15

Após dois anos de recessão, a economia brasileira deve voltar a registrar crescimento em 2017, graças à ajuda do setor externo e, caso seja bem sucedido, ao plano de concessões em infraestrutura do governo. Esta é a avaliação de boa parte dos profissionais do mercado financeiro que acredita em um Produto Interno Bruto (PIB) positivo, ou pelo menos, não negativo, no próximo ano. Por outro lado, há riscos para a concretização deste cenário, como os de ordem política e também a implementação de medidas econômicas que já deram errado no passado recente.

Conforme analistas afirmaram ao Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, a base de comparação fraca com o PIB de 2016, que segundo o mais recente Boletim Focus deve cair 3%, pode favorecer a expectativa de recuperação em 2017. Além disso, já existem evidências de que a queda da atividade chegou ao fundo do poço, como a estagnação da piora da confiança dos empresários e da alta nos níveis dos estoques da indústria. A recuperação, contudo, deverá ser lenta uma vez que a indústria, bastante debilitada, ainda tem de se reestruturar, retomando investimentos, para reconquistar mercados no exterior.

"Nos próximos anos o que vai puxar o crescimento é a demanda externa. Alguns indicadores antecedentes já mostram alguma estabilidade do pessimismo, entre eles os de demanda por exportação", diz o presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e Globalização Econômica (Sobeet), Luis Afonso Lima, cuja previsão para o PIB de 2017 é de alta de 1,5%. "Alguns empresários já estão conseguindo fazer a transição para mercado externo, diante do consumo interno baixo. O câmbio desvalorizado também ajuda", completou.

Num primeiro momento, diz o economista, a retomada das exportações deve vir pelos produtos básicos, commodities agrícolas e metálicas, em que o País já tem tradição, uma vez que itens de maior valor agregado exigem investimentos que levam tempo para maturar.

Lima também vê o plano de concessões em infraestrutura como uma boa janela de oportunidade para o crescimento, que deve estimular o investimento estrangeiro. "No mundo todo, as empresas estão buscando oportunidades de expansão. Em 2015, o volume de IDP (Investimento Direto no País) foi elevado e houve melhora qualitativa, passando de serviços para indústria e agropecuária. O plano de concessões em 2016 abre as portas para estes investimentos ", disse.

Para o economista-chefe da Kinea Investimentos, Luis Fernando Horta, "sem sombra de dúvida", o setor externo deve evitar uma deterioração adicional do PIB à frente. "A alta do dólar ajuda um pouco, já que aumenta a competitividade das empresas brasileiras, mesmo diante de problemas com custo Brasil, que se mantém elevado", avaliou.

A partir do segundo trimestre deste ano, Horta estima que a economia brasileira começará a dar algum sinal de melhora, com o PIB se estabilizando até o quarto trimestre. "A confiança da indústria e do consumidor parou de piorar. Parece que há um início de melhora nas variáveis de confiança", justificou. Apesar de reconhecer que o nível dos estoques ainda está elevado, o economista da Kinea ressalta que o setor industrial sinaliza estar fazendo alguma correção, na tentativa de retomar a produção.

Para a Kinea, o PIB deve fechar este ano com queda de 3,00% e pode voltar a crescer em 2017, com taxa positiva estimada entre 0,80% e 1,00%. No entanto, pondera que há risco de a estimativa ser revisada para baixo. Horta afirma que se algumas medidas implementadas pelo governo no passado, que "não deram certo", como as de estímulo ao crédito e as demais medidas "não convencionais" de estímulo à economia forem retomadas, pode prevalecer o chamado 'voo de galinha'.

Simão Silber, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), acredita que a economia irá atingir o fundo do poço em algum momento do terceiro trimestre deste ano para, depois, dar início a um processo de melhora paulatina. "As empresas estão começando a se organizar para aumentar as exportações, por causa do câmbio e devido ao enfraquecimento da demanda interna", disse. Em sua visão, o País também conta com alguns estímulos em andamento, por meio de concessão de aeroportos, rodovias e ferrovias, além de gastos do governo que podem injetar recursos no longo prazo.

Trava política. Mas Silber, por enquanto, não enxerga possibilidade de grande virada de 2016 para 2017, dada a condição econômica e política frágeis. "Do ponto de vista político, o País tem uma estratégia estritamente de sobrevivência. Nessas condições, o setor privado se retrai", sugeriu.

E, na contramão do mercado, o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, não vê retomada em 2017 "em um cenário que a presidente não saia". "Temos queda de pelo menos 1% no ano que vem e isso continuará sendo dado pelas dificuldades políticas que estarão ainda mais escancaradas caso a presidente Dilma Rousseff passe este ano", disse. "São tantos riscos em conjunto que será muito difícil reconquistar a confiança e, por isso, a razão de acreditar que a recessão se mantém ano que vem", afirmou. Entre os riscos, Vale cita as dificuldades na área fiscal - "ela não conseguirá aprovar absolutamente nada no Congresso".

Em seu cenário, caso haja mudança de presidente, "tudo muda". "Em 1992, quando o Collor saiu houve uma expectativa tão positiva que a indústria disparou no ano seguinte. Por isso, uma saída da presidente poderia melhorar um pouco a economia, nada demais, mas poderia ser um modesto crescimento de 0,5%", comentou.

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