Plantando dificuldades

Discurso no Congresso é que o ‘pacote de maldades’ já pode esperar

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2017 | 07h48

Depois do day after da votação da denúncia contra o presidente Michel Temer, o que mais se ouve em Brasília é que a recuperação econômica vai trazer alívio, aumentar a arrecadação e permitir que se chegue a 2019 sem a necessidade da adoção das medidas

impopulares já anunciadas no início de agosto, mas ainda não enviadas ao Congresso pelo governo.

A reforma da Previdência se transformou assim numa miragem, e as medidas de aperto nos salários dos servidores, uma possibilidade mais distante devido à forte pressão das categorias do funcionalismo público, que não querem saber de ficar sem o reajuste salarial acertado para o ano que vem.

O discurso no Congresso é que o “pacote de maldade” pode esperar, na certeza de que o Orçamento de 2018 será beneficiado novamente por receitas gordas com as privatizações e o leilão do excedente da cessão onerosa de exploração do présal. Parlamentares plantam dificuldades agora para renovarem suas barganhas até o final do ano. Já esperam mais acenos do Palácio do Planalto e um novo desbloqueio de despesas do Orçamento que abre espaço para gastos, emendas...

Com dinheiro e cargos, é muito provável  que as resistências comecem a diminuir e o presidente Michel Temer consiga tocar uma agenda econômica, mesmo que desidratada. Ainda assim será muito relevante, sobretudo com uma reforma mínima e enxuta da Previdência.

Tudo isso já está nos cálculos políticos do Palácio do Planalto. Não é por menos que o senador Romero Jucá, um dos parlamentares mais próximos a Temer, avisou horas depois de a denúncia ter sido barrada que uma nova liberação do Orçamento vai melhorar a “atuação do governo” e dar um novo horizonte nessa nova fase, depois da vitória do presidente Temer no plenário da Câmara. Recado dado.

Sem a ajuda do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, vai ficar mais difícil avançar na votação das propostas econômicas. Maia não chega a ser para Temer o que o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha foi para o governo Dilma Rousseff, mas está dando trabalho.

Era de se esperar que, depois da denúncia, a pauta de votação fosse acelerada imediatamente, já que a agenda econômica ficou paralisada no aguardo do resultado final. A urgência é grande por conta do Orçamento de 2018, que vai ser difícil de ser administrado com o teto de gastos bem mais restritivo.

Em vez disso, Maia resolveu passar dez dias fora do País em viagem oficial ao Oriente Médio e à Europa, com uma comitiva de nove deputados da base aliada e até da oposição. Resultado da viagem: pauta fraca do plenário e com certeza mais atrasos nas negociações.

Em busca de protagonismo, o presidente da Câmara também vem plantando dificuldades para aumentar seu cacife. Ele rejeita o envio das medidas de ajuste por meio de Medidas Provisórias (MPs) e diz que Temer está fragilizado, sem força para as votações futuras.

Se a reforma da Previdência avançar, sai como o “sr. reforma”. Se a proposta falhar, a culpa será de Temer, da sua equipe econômica e dos ministros políticos. O governo queria de todo jeito que Maia se comprometesse logo com um calendário e data de votação do texto da proposta de reforma no plenário. Não deu certo.

Seria uma forma de dividir com Maia também uma parte da responsabilidade de reunir as forças políticas, empresariais, acadêmicas e sociais em torno da proposta. Uma vez que ele mesmo se vende como reformista e apoiador de primeira hora da reforma da Previdência.

O presidente da Câmara deixou claro, no entanto, que não quer arcar sozinho com esse desgaste e tratou de fugir do compromisso em reunião com o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, na manhã seguinte à votação. Enquanto Maia estiver fora, o governo vai se mobilizar em torno da sua agenda econômica. Não dá para esquecer que a caneta do presidente ainda tem força.

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