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(Poder pessoal)²

Os EUA e o Brasil passam, neste momento, por uma tempestade política. Donald Trump, gigante do setor imobiliário no exterior, sem qualquer experiência política anterior, hoje lidera firmemente a corrida para a indicação presidencial do Partido Republicano, depois das primárias da semana passada. Sua ascensão, alimentada pela reiteração de temas populistas e nacionalistas, ameaça os recentes e importantes avanços dos EUA, tanto interna quanto externamente. Isso inclui acabar com o Medicare e com o recente acordo com o Irã para impedir que atinja a condição de potência nuclear. Ele vai além, repudiando a eficácia da globalização e de sua evolução. Segundo ele, a solução óbvia está na proteção da indústria americana.

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Albert Fishlow

20 Março 2016 | 09h11

Não há apenas um traço de absolutismo em seu contínuo denegrir os concorrentes, tanto os atuais quanto os potenciais. Trump agora ameaça com tumultos, se a liderança que ele projetou no número de delegados não lhe permitir a indicação. Agora que sua ascensão é iminente, os líderes republicanos buscam alguma maneira de impedir esse resultado.

No Brasil, o ex-presidente Lula tenta voltar ao governo para chefiar a Casa Civil e liderar os esforços de Dilma, visando evitar o impeachment pretendido pelo Congresso, elaborar novas medidas econômicas, e, não por acaso, escapar da possível prisão. A revelação de conversas telefônicas gravadas fornece claras provas desta possibilidade.

Além de Dilma, o que está em jogo é a própria existência do PT, e Lula, muito menos popular depois da operação Lava Jato, resolveu voltar a concorrer à presidência em 2018 para salvar o que ele criou. A multidão recorde que foi às ruas no domingo provavelmente pesou na sua decisão de aceitar o cargo; era essa certamente a intenção de Dilma. A opinião popular, divulgada na internet, embora às vezes de maneira imperfeita, é um dos fatores que pesaram.

Aqui e no exterior, Lula e Trump mostram pouca preocupação com o que acontecerá a prazo mais longo ou mesmo a médio prazo. O que predomina é o imediato. É preciso fazer tudo o que for necessário para ir em frente. Apelar para aqueles cujo destino recente tem sido adverso; enfatizar as glórias passadas; esquecer do futuro; preocupar-se só com o presente.

Infelizmente, a liderança positiva ao redor do mundo tornou-se mais escassa. A democracia nem sempre garante a utopia desejada. Na Alemanha, Angela Merkel sofreu perdas nas urnas em consequência de sua resposta positiva às pressões da imigração de refugiados sírios e afegãos. Outros países do Oriente Médio não são tão pacíficos. Aumentam as pressões sobre o compromisso da UE com a livre movimentação de bens, capital e pessoas através das fronteiras nacionais. Shinzu Abe, que tenta expandir a importância internacional do Japão, enfrenta internamente o declínio de sua popularidade.

Crescimento. Mas o desempenho econômico também conta. Existe uma grande diferença entre os EUA e o Brasil. Os EUA avançam lenta, porém persistentemente desde a Grande Recessão. O Produto Interno Bruto do Brasil deve declinar novamente este ano, somando-se à crise que o País vem registrando há dois anos, pior que todas as outras.

A economia americana está em fase de expansão desde que o presidente Obama assumiu o cargo. Alguns economistas teriam preferido um aumento dos gastos do governo, mas o Congresso não estava inclinado a concordar. Em vez disso, a política monetária continuou facilitando o acesso ao dinheiro. Agora, depois que, em dezembro, o Federal Reserve elevou os juros para meros US$ 0,25-0,50%, a última reunião indicou que, em 2016, só haverá mais dois aumentos. O desemprego caiu abaixo de 5%, em relação aos valores iniciais que chegavam a mais do dobro, em 2009. A expansão do PIB no período 2011-2016 é de 2,3% ao ano, à frente da UE e do Japão.

Os países do Brics apresentam um declínio em comparação ao elevado crescimento agregado em razão da crescente contração apresentada por Brasil, Rússia e África do Sul. Os EUA, como a tartaruga da lenda da Eneida, continuaram com ritmo positivo.

Os desafios persistirão além das eleições de 2016 e da ameaça de uma possível presidência de Trump. O aumento da expectativa de vida da população seguirá pressionando os gastos do Medicare e da Seguridade Social. A necessidade de garantir uma melhoria da educação em todos os níveis terá custos. A ratificação de tratados para garantir a expansão do comércio internacional e da globalização permanece na agenda. Os juros da dívida pública deverão aumentar. O aumento dos gastos do governo no plano federal são inevitáveis.

No Brasil, o PIB se aproximou do zero no governo Dilma. O crescimento inicial foi efêmero, dependendo de um ciclo de preços muito elevados das commodities, com uma resposta limitada. As projeções de crescimento futuro foram colocadas em níveis impossíveis de alcançar. A Petrobrás não conhecia limites de lucro, aumentando as perspectivas de expansão futura. O coeficiente de investimentos em relação à produção total baixou a patamares nunca vistos desde os anos 50. A inflação continua acima da meta do Banco Central, como vem acontecendo há cinco anos.

Ao mesmo tempo, o déficit governamental atinge níveis consideráveis, até certo ponto em razão dos altos juros, e muito mais por causa dos efeitos das pedaladas das quais o público não tinha conhecimento até 2014, e finalmente foram admitidas nas contas do ano passado.

A dívida pública, que já é de dimensões preocupantes, aumentará nos próximos anos; por sua vez, o desemprego continua crescendo, com taxas que não eram vistas há mais de dez anos. Somente o superávit comercial voltou recentemente a níveis positivos – não pelo crescimento das exportações, mas pelo declínio das importações.

No total, a semelhança entre os dois países é quando muito parcial. A atuação do Ministério Público brasileiro, a Polícia Federal e o Judiciário tem sido excelente, com uma reduzida contribuição do Executivo e do Congresso. É ali que a mudança terá de ocorrer, se o Brasil quiser sair de mais uma década perdida. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Os EUA e o Brasil passam, neste momento, por uma tempestade política. Donald Trump, gigante do setor imobiliário no exterior, sem qualquer experiência política anterior, hoje lidera firmemente a corrida para a indicação presidencial do Partido Republicano, depois das primárias da semana passada. Sua ascensão, alimentada pela reiteração de temas populistas e nacionalistas, ameaça os recentes e importantes avanços dos EUA, tanto interna quanto externamente. Isso inclui acabar com o Medicare e com o recente acordo com o Irã para impedir que atinja a condição de potência nuclear. Ele vai além, repudiando a eficácia da globalização e de sua evolução. Segundo ele, a solução óbvia está na proteção da indústria americana.

Não há apenas um traço de absolutismo em seu contínuo denegrir os concorrentes, tanto os atuais quanto os potenciais. Trump agora ameaça com tumultos, se a liderança que ele projetou no número de delegados não lhe permitir a indicação. Agora que sua ascensão é iminente, os líderes republicanos buscam alguma maneira de impedir esse resultado.

No Brasil, o ex-presidente Lula tenta voltar ao governo para chefiar a Casa Civil e liderar os esforços de Dilma, visando evitar o impeachment pretendido pelo Congresso, elaborar novas medidas econômicas, e, não por acaso, escapar da possível prisão. A revelação de conversas telefônicas gravadas fornece claras provas desta possibilidade.

Além de Dilma, o que está em jogo é a própria existência do PT, e Lula, muito menos popular depois da operação Lava Jato, resolveu voltar a concorrer à presidência em 2018 para salvar o que ele criou. A multidão recorde que foi às ruas no domingo provavelmente pesou na sua decisão de aceitar o cargo; era essa certamente a intenção de Dilma. A opinião popular, divulgada na internet, embora às vezes de maneira imperfeita, é um dos fatores que pesaram.

Aqui e no exterior, Lula e Trump mostram pouca preocupação com o que acontecerá a prazo mais longo ou mesmo a médio prazo. O que predomina é o imediato. É preciso fazer tudo o que for necessário para ir em frente. Apelar para aqueles cujo destino recente tem sido adverso; enfatizar as glórias passadas; esquecer do futuro; preocupar-se só com o presente.

Infelizmente, a liderança positiva ao redor do mundo tornou-se mais escassa. A democracia nem sempre garante a utopia desejada. Na Alemanha, Angela Merkel sofreu perdas nas urnas em consequência de sua resposta positiva às pressões da imigração de refugiados sírios e afegãos. Outros países do Oriente Médio não são tão pacíficos. Aumentam as pressões sobre o compromisso da UE com a livre movimentação de bens, capital e pessoas através das fronteiras nacionais. Shinzu Abe, que tenta expandir a importância internacional do Japão, enfrenta internamente o declínio de sua popularidade.

Crescimento. Mas o desempenho econômico também conta. Existe uma grande diferença entre os EUA e o Brasil. Os EUA avançam lenta, porém persistentemente desde a Grande Recessão. O Produto Interno Bruto do Brasil deve declinar novamente este ano, somando-se à crise que o País vem registrando há dois anos, pior que todas as outras.

A economia americana está em fase de expansão desde que o presidente Obama assumiu o cargo. Alguns economistas teriam preferido um aumento dos gastos do governo, mas o Congresso não estava inclinado a concordar. Em vez disso, a política monetária continuou facilitando o acesso ao dinheiro. Agora, depois que, em dezembro, o Federal Reserve elevou os juros para meros US$ 0,25-0,50%, a última reunião indicou que, em 2016, só haverá mais dois aumentos. O desemprego caiu abaixo de 5%, em relação aos valores iniciais que chegavam a mais do dobro, em 2009. A expansão do PIB no período 2011-2016 é de 2,3% ao ano, à frente da UE e do Japão.

Os países do Brics apresentam um declínio em comparação ao elevado crescimento agregado em razão da crescente contração apresentada por Brasil, Rússia e África do Sul. Os EUA, como a tartaruga da lenda da Eneida, continuaram com ritmo positivo.

Os desafios persistirão além das eleições de 2016 e da ameaça de uma possível presidência de Trump. O aumento da expectativa de vida da população seguirá pressionando os gastos do Medicare e da Seguridade Social. A necessidade de garantir uma melhoria da educação em todos os níveis terá custos. A ratificação de tratados para garantir a expansão do comércio internacional e da globalização permanece na agenda. Os juros da dívida pública deverão aumentar. O aumento dos gastos do governo no plano federal são inevitáveis.

No Brasil, o PIB se aproximou do zero no governo Dilma. O crescimento inicial foi efêmero, dependendo de um ciclo de preços muito elevados das commodities, com uma resposta limitada. As projeções de crescimento futuro foram colocadas em níveis impossíveis de alcançar. A Petrobrás não conhecia limites de lucro, aumentando as perspectivas de expansão futura. O coeficiente de investimentos em relação à produção total baixou a patamares nunca vistos desde os anos 50. A inflação continua acima da meta do Banco Central, como vem acontecendo há cinco anos.

Ao mesmo tempo, o déficit governamental atinge níveis consideráveis, até certo ponto em razão dos altos juros, e muito mais por causa dos efeitos das pedaladas das quais o público não tinha conhecimento até 2014, e finalmente foram admitidas nas contas do ano passado.

A dívida pública, que já é de dimensões preocupantes, aumentará nos próximos anos; por sua vez, o desemprego continua crescendo, com taxas que não eram vistas há mais de dez anos. Somente o superávit comercial voltou recentemente a níveis positivos – não pelo crescimento das exportações, mas pelo declínio das importações.

No total, a semelhança entre os dois países é quando muito parcial. A atuação do Ministério Público brasileiro, a Polícia Federal e o Judiciário tem sido excelente, com uma reduzida contribuição do Executivo e do Congresso. É ali que a mudança terá de ocorrer, se o Brasil quiser sair de mais uma década perdida. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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