Duran Machfee/Futura Press
Duran Machfee/Futura Press

Popularidade obtida graças ao Sistema S é questionada

Uso de recursos do sistema sindical para promoção política pessoal não é permitido pela legislação

Cristiane Barbieri, O Estado de S. Paulo

13 Agosto 2017 | 05h00

O uso da máquina do Sistema S para a promoção de Paulo Skaf é um dos principais questionamentos feitos por especialistas, em relação à sua permanência por um longo período na presidência da Fiesp. Pelo menos, enquanto o empresário tiver pretensões políticas.

Criado na década de 40 para qualificar mão de obra para as empresas, o Sistema S é mantido pelas contribuições obrigatórias pagas pelas companhias, que variam de 0,5% a 2,5% da folha de pagamento. No ano passado, o orçamento da organização foi de R$ 26 bilhões, sendo R$ 16 bilhões oriundos de recursos públicos, segundo relatório do Tribunal de Contas da União (TCU).

Antes de lançar sua candidatura ao governo do Estado, nas eleições de 2014, Skaf apareceu exaustivamente em propagandas, mostrando as escolas do Sesi e do Senai, que são ligadas à indústria. “O Senai é uma instituição espetacular e fizemos campanha publicitária porque a população achava que pertencia ao governo”, diz José Ricardo Roriz, vice-presidente da Fiesp. “Foi bom ele ter aparecido porque precisamos de um líder com penetração na sociedade.”

A Fiesp informou, por e-mail, que “as campanhas do Sesi-SP e do Senai-SP, sempre aprovadas por seus conselhos e realizadas dentro das normas dos órgãos de fiscalização, divulgam institucionalmente as marcas e seus produtos”.

Há quem discorde. “Ele claramente usou o Sesi para se projetar e tem tido na Fiesp a catapulta de várias candidaturas e de sua carreira política”, diz Claudio Couto, professor de Ciência Política da FGV. “O problema é que o uso de recursos do sistema sindical, seja de empregados ou patronal, para promoção política pessoal não é permitido por lei.”

Há muitos anos, a falta de transparência no Sistema S é questionada. Segundo relatório do TCU, Sesi e Senai não têm sistema de fiscalização, nem comitê de auditoria. Parte dos recursos do Sistema S sustenta a Fiesp, cujo orçamento, no ano passado, foi de R$ 164 milhões.

Cargos. A disponibilidade dos recursos públicos é um dos motivos pelos quais os associados da Fiesp não se importariam com o uso político da entidade que, eventualmente, acaba beneficiando-os.

Haveria ainda um jogo de ganha-ganha com a participação política de Skaf. Bastante próximo ao presidente Michel Temer, que também é do PMDB e com quem costuma fumar charutos, Skaf conseguiria pontos no xadrez da política ao aparar as arestas do governo com a indústria. Temer, por sua vez, teria um intermediário de confiança na categoria. Já os empresários conseguiriam atenção para suas reivindicações que, às vezes, são atendidas.

Um empresário, que não quis se identificar, disse não ter conseguido resolver seu problema, quando precisou falar com um interlocutor do setor público numa reunião intermediada por Skaf. O servidor, porém, passou a tratá-lo com mais deferência nos encontros seguintes.

Roriz afirma que a proximidade entre Temer e Skaf não favorece necessariamente a indústria. “É bom que exista um canal direto entre o Paulo e o Michel, mas não existe alinhamento imediato entre o governo e o setor”, diz. “É só olhar nossas demandas pela queda dos juros, contra a mudança da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) e o aumento dos impostos (que não têm sido atendidas).”

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