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Por que o Brasil patina?

Alexa Salomão - O Estado de S. Paulo

30 Agosto 2014 | 18h 54

Cinco economistas tentam explicar os motivos pelos quais a economia brasileira não consegue mais crescer

Bernard Appy, diretor da LCA Consultores. “Historicamente, o Brasil vem tendo um crescimento aquém do esperado por causa de três fatores: baixa taxa de investimento, porque o País poupa pouco, queda na produtividade e, mais recentemente, aumento da desconfiança entre os empresários, o que também contribui para prejudicar as decisões de investimento. Essa desconfiança foi provocada pela deterioração e pela falta de transparência nas contas públicas e por uma inflação renitente, mesmo com o represamento das tarifas públicas, o que alimenta a expectativa de que haverá inflação no futuro. A esses problemas, boa parte deles estruturais, somou-se outro fator. Houve o esgotamento de um ciclo que ocorreu nos últimos anos puxados pelo crescimento da economia mundial, até a crise, e pela expansão forte do crédito no Brasil, especialmente para pessoas físicas. À medida que o endividamento das famílias aumentou, perdeu-se espaço para que essa expansão fosse mantida nos moldes em que vinha ocorrendo.”

Fernando Nogueira da Costa, professor da Unicamp. “O PIB trimestral que estamos vendo é um problema que acontece uma vez e não se repete. A Copa praticamente paralisou a produção no País. As empresas praticamente pararam. Todo mundo aproveitou, descansou. Agora, não dá para reclamar. Também precisamos considerar que um dos grandes fatores do dinamismo da economia do Brasil é o fato de o País ser um dos maiores produtores e exportadores de alimentos e de matérias-primas do mundo. Teve ganhos com a alta dos preços internacionais até 2008, quando veio a pior crise desde 1929. A bolha explodiu e as exportações perderam dinamismo. O País também foi afetado pela produção de petróleo. Houve uma queda e foi preciso importar mais. Quando tiramos as importações de petróleo, na média, o Brasil tem superávit comercial de US$ 25 bilhões. Ainda cresce mais que os países de economia avançada. Olhando no longo prazo, desde 2003, na média, o crescimento do Brasil acompanha o da economia mundial. Também devemos considerar que a taxa de desemprego permanece baixa.” 

Marcos Lisboa, vice-presidente do Insper. “Uma agenda de intervenções jogou a produtividade para baixo. Primeiro, ela comprometeu a indústria. Agora chegou ao setor de serviços, que estava bem e sustentava um paradoxo: o País ter taxas de desemprego baixas apesar de a economia não ir bem. A perspectiva do emprego para os próximos 12 meses não é positiva. O que estamos vendo não é um simples ajuste. A perda de produtividade é estrutural e reduziu o crescimento potencial. Enfim, a capacidade de produzir bens e serviços ficou menor. O governo atribui o problema à retração internacional, mas o argumento não se comprova quando se compara o Brasil com outros países. A economia mundial cresceu quase 4% ao ano entre 2002 e 2010, ante 3,3% nesta década, comportamento semelhante ao da América Latina. O Brasil, porém, foi de 4% para 2% no período, devendo crescer menos de 1% em 2014. As taxas de crescimento latino-americanas, por sua vez, são maiores do que as apresentadas em anos anteriores à crise.”

Monica De Bolle, sócia diretora da Galanto. “Caímos nessa armadilha de baixo crescimento por erros na política econômica. Um exemplo: levaram o Banco Central para um caminho muito ruim, de experimentalismos. Ele adotou as tais políticas macroprudenciais, que nunca souberam explicar o que era. Primeiro, foi frear a valorização do câmbio. Um belo dia, virou outra coisa. O Banco Central deveria cuidar do regime de metas de inflação e já não há nem clareza sobre qual é a meta. Oficialmente é o centro da meta, de 4,5%. Mas todo mundo sabe que a meta é ficar abaixo do teto, de 6,5%. Outro exemplo de erro foi o das desonerações. A ideia de reduzir carga tributária no momento de baixo crescimento não é ruim. Mas pareceu que nem o governo acreditou no resultado, porque em vez de oferecer para todo mundo, foi implantando devagar, setor por setor. Com isso, criou incertezas. Os setores beneficiados ficaram na dúvida se era ou não para sempre e não cumpriu o plano de investimento. Quem não recebeu, não fez nada esperando a benesse. A forma com foi feita desincentivou os investimentos.”

Vinicius Carrasco, professor na PUC-Rio. “É impensável que um País como o Brasil não possa crescer. Assim, acredito que uma combinação de políticas ruins e incerteza debilitou a economia. O crescimento de longo prazo está ligado à capacidade de se produzir mais e melhor - ou seja, está do lado do que chamamos de oferta. Mas as políticas focaram no consumo até a exaustão, deixando de lado melhorias na oferta dos produtos. O gargalo de infraestrutura evidencia isso. As estradas, os portos, as ferrovias são piores do que deveriam ser. Todos sabiam que era preciso investir em infraestrutura, mas o governo demorou. Criar um cenário futuro também importa. Empresários olham para a frente quando vão investir; empreendedores, quando buscam espaço para inovar. Quanto maior a incerteza em relação às regras, menor é a disposição para investir. Outra coisa preocupante neste momento é que entramos em recessão técnica com uma inflação no teto da meta - quando recessão costuma a ser acompanhada de queda de inflação. Essa peculiaridades nos coloca dentro de um cenário de estagflação.”

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