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Pra cá de Marrakesh

Em 1º de janeiro de 1983, a Arpanet passava a usar apenas o TCP/IP, novo conjunto de protocolos e o “I” do IP, Internet Protocol, passava a se confundir com o nome da própria rede. RFC (Request for Comments), protocolos da internet e seus parâmetros técnicos continuariam documentados pelo time de Jonathan (Jon) Postel, do Instituto de Ciências da Informação (ISI, na sigla em inglês), da Universidade do Sul da Califórnia. Nas mãos de Postel foi também entregue a função de distribuir blocos de números IP e delegar nomes de domínios numa hierarquia de nomes mnemônicos dos equipamentos que participavam de rede. O nível mais alto da hierarquia de nomes do DNS (Domain Name System), está reunida no que se chamou “raiz de nomes” da rede, onde “moram” os “sobrenomes”, como .com, .net, .ar, .br, .info e outros. O pequeno time de Postel, de dois ou três pesquisadores, ficou conhecido como IANA (Internet Assigned Numbers Authority). De 1983 para 1998 muita coisa mudou.

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Demi Getschko

21 Março 2016 | 12h21

A internet extravasou da comunidade acadêmica e sua importância comercial tornou-se óbvia. Antes gratuitos, nomes de domínio passaram a ser cobrados em 1995. Em 1996, o TCP/IP foi adotado como o protocolo oficial de redes como a NSFNet. A estrutura que garantia a perenização dos serviços de nomes na rede (DNS) pareceu algo pequena e acadêmica: em 1998, os EUA – que vinham financiando a Arpanet via departamento da defesa – descreveu como poderia ser a transição da gestão de nomes e números para a nova realidade e colocou no jogo o departamento de comércio. Buscava-se “privatizar” a IANA.

O herdeiro da IANA seria quem fizesse a melhor proposta e mostrasse que teria a participação dos diversos segmentos da sociedade. A escolha foi a ICANN, uma ONG criada em 1998 em Los Angeles e sediada no mesmo prédio da IANA. Tudo indicava uma transição suave e sem riscos, mas Postel faleceu após complicações de uma cirurgia cardíaca. Com a ICANN recém-criada e, sem Postel, o departamento de comércio queria garantir que nada de anormal ocorresse na gestão da raiz: em janeiro de 2001, um ano após a ativação da ICANN, a NTIA assinou com ICANN um contrato – que acabou sendo renovado a cada três anos – para supervisionar a IANA. A NTIA validaria as alterações na raiz de nomes.

O poder de um país supervisionar alterações feitas na raiz de nomes gerou desconforto. Em março de 2014, em pleno “caso Snowden”, a NTIA anunciou que, se houvesse uma proposta adequada, ela cederia esse poder e não renovaria o contrato. Nada é tão simples: se as comunidades de nomes, números e protocolos concordassem, ICANN poderia ser a única responsável final pela IANA, sem a NTIA. Eventualmente, um novo “mecanismo” poderia dar poder às comunidades no papel de supervisão da NTIA.

Na 55ª reunião da ICANN de Marrakesh, no Marrocos, comemorou-se o fim do processo, sendo enviada uma proposta à ICANN e, depois, à NTIA e ao Congresso dos EUA. Se tudo der certo, num novo cenário não haverá mais “um” governo em posição diferenciada. A gestão da internet será multissetorial. A internet quer seguir e ir “pra lá de Marrakesh”, mas há as eleições norte-americanas a considerar. Conseguirá?

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