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O Estado de S.Paulo

17 Janeiro 2016 | 02h02

CALDAS

Foram muitas as desastradas interferências do governo na economia no primeiro mandato de Dilma Rousseff. Deu tudo errado e hoje o desemprego e a inflação aceleram, a recessão assombra e a população vive assustada com o futuro. Mas, de todas as incompetentes ingerências de dona Dilma, duas foram as piores pelo poder de espalhar estragos por toda a economia: no Banco Central (BC) e na Petrobrás. Resultado: a inflação disparou e fechou 2015 em 10,67% e a Petrobrás não para de encolher, tenta vender ativos para sobreviver, corta investimentos, virou antro de corrupção e meio poderoso e corriqueiro para financiar políticos desonestos.

"O cinismo venceu a esperança e, agora, o escárnio venceu o cinismo", afirmou a ministra Cármen Lucia, do Supremo Tribunal Federal (STF), ao lembrar o slogan "a esperança venceu o medo", usado pelo PT na campanha eleitoral de Lula em 2002. No caso da Petrobrás, a humilhação venceu a pujança na maior empresa do País, a desbravadora na exploração de óleo em águas profundas, a irradiadora de riqueza e empregos País afora, a que já foi orgulho dos brasileiros e hoje é humilhada com tanta roubalheira, empobrecimento, desinvestimentos e fomentadora de desemprego.

Na carta pública em que explica por que a inflação quase triplicou a meta de 4,5% em 2015, o Banco Central dividiu o fracasso com o governo: o desequilíbrio fiscal, a alta do câmbio disseminada na economia e o realinhamento das tarifas públicas - para o BC, os maiores responsáveis pela disparada da inflação - são efeitos da má gestão de Dilma e de suas desastradas interferências onde o governo deveria manter longa distância. Por exemplo, ela manteve represadas as tarifas de combustível e de energia elétrica na marra e por muito tempo, e, quando a realidade a obrigou a corrigir o erro, o estrago estava feito e o reajuste espalhou inflação por toda a economia. As isenções de impostos às indústrias automotiva e eletroeletrônica pouco dinamizaram o consumo, derrubaram a receita tributária e, quando retiradas, provocaram enorme desemprego nesses setores.

Por temer abrir mão de poder, os governos têm se negado a formalizar em lei a autonomia do Banco Central, argumentando que ela já existe na prática. Lula pouco interferiu no BC e Henrique Meirelles fez o que precisava ser feito. Mas com Dilma foi diferente. Sua vocação para centralizar comando e fabricar decisões erradas se refletiu no BC, ao arrancar-lhe a liberdade para definir a taxa de juros, principal arma da direção do banco para controlar a inflação. Além, é claro, de Dilma dar munição para especuladores agirem no mercado usando as incertezas com a taxa Selic e subtraindo valor de análises sérias, baseadas em critérios técnicos, não políticos nem voluntaristas da presidente.

Na terça-feira o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne para definir a Selic. A maioria dos analistas aposta em aumento de 0,5%, o que elevaria a taxa para 14,75%. E por que subir a Selic com o País vivendo recessão tão violenta de quase 4%? Na lógica da ciência econômica, em momentos de queda acentuada do PIB e desemprego em alta, BCs do mundo inteiro reduzem, e não aumentam, juros, pois a prioridade é reaquecer a economia. Por que aqui a lógica não se aplica? É certo que a inflação beirando 11% impede uma queda da taxa abaixo disso, mas no nosso caso e neste momento o BC entende que a interrupção da alta na taxa pode agravar o descrédito quanto à sua autonomia, que cresceu com as interferências de Dilma nos últimos anos. E agora é preciso aplicar uma superdose para recuperar a confiança. Mas será que recuperar a credibilidade no BC exige custo tão alto para os brasileiros?

Se a própria direção do BC reconhece que o aumento de 0,5% na Selic vai dificultar o superávit primário de 0,5% do PIB projetado para 2016 e elevar a dívida pública a um nível arriscado, que ameace fechar o crédito externo para o Brasil, por que aumentar a Selic neste momento? Com a autonomia assegurada em lei, a credibilidade do BC é preservada e as interferências de Dilma, contidas.

JORNALISTA E PROFESSORA DA PUC-RIO E-MAIL: SUCALDAS@TERRA.COM.BR

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