Bobby Yip/Reuters
Bobby Yip/Reuters

Problemas emergentes

Países como China, Índia e Brasil, que proporcionaram lucro e crescimento aos bancos, agora passam por situação delicada

The Economist

09 Setembro 2015 | 02h05

Em tese, o HSBC e o Standard Chartered, dois bancos britânicos com grandes operações na Ásia, ainda avaliam transferir suas sedes para algum lugar a leste do canal de Suez. Mas, tendo em vista o temporal que se abateu nas últimas semanas sobre os mercados emergentes - e uma isenção de impostos concedida em boa hora pelo governo da Grã-Bretanha - poucos acreditam que a dupla realmente pretenda mudar de ares. Os mesmos tentáculos globais que enchiam os olhos dos investidores, por se estenderem por países como China, Índia e Brasil, agora são motivo de desgosto.

Parte da bonança econômica dos mercados emergentes foi financiada com o dinheiro barato que Citigroup, HSBC, StanChart e outras instituições ajudaram a canalizar em sua direção - fluxo esse que agora opera em sentido inverso. Os banqueiros suaram a camisa para emprestar recursos a empresas que queriam explorar minas, erguer arranha-céus e construir fábricas com base na suposição de que o crescimento econômico chinês nunca mais perderia velocidade.

Esses empréstimos já não parecem ser tão bom negócio, agora que a desaceleração da China e a queda acentuada nos preços das commodities tiraram o brilho das moedas e das perspectivas de muitos mercados emergentes. Que alguns clientes não conseguirão honrar seus compromissos - a começar pelas empresas que contraíram dívidas em dólar, mas dependem de receitas em ringgit, rand ou rúpia para amortizá-las -, isso é líquido e certo.

A bem da verdade, as perdas com empréstimos já começam a se avolumar. O StanChart, cuja principal linha de crédito corporativo está voltada para o setor de energia, aponta em seu último balanço trimestral que os prejuízos com créditos ruins quase dobraram. Bill Winters, executivo que, em junho, em meio a suspeitas de malversação de fundos, o banco trouxe de fora para ser seu novo CEO, diz que a má fase na área de crédito está longe do fim. E o pior é que o banco não tem atuação expressiva em países ricos para amortecer o baque com os mercados emergentes.

Assim como o StanChart, o HSBC obtém cerca de 75% de seus lucros na Ásia. Acredita-se que a instituição tenha sido mais disciplinada na concessão de empréstimos. Mas as operações de financiamento a importações e exportações, que são um confiável motor de crescimento, parecem estar patinando. No primeiro semestre de 2015, o comércio mundial sofreu sua maior queda em seis anos. E essa área de atuação dos bancos é fortemente atrelada ao comportamento das commodities: com os preços em queda, ainda que uma instituição continuasse financiando o mesmo volume de transações em metais ou carne suína de antes, o valor dos empréstimos passaria a ser menor.

Acompanhando o desempenho de seus pares, o montante de empréstimos que o HSBC concedeu na Ásia cresceu 15% ao ano entre 2010 e 2014. Manter esse ritmo de expansão é impensável, porque é preciso haver alguma correspondência entre os níveis de crédito e as garantias disponíveis - cujo valor está encolhendo. E os bancos precisam apertar o passo para pelo menos continuar no lugar: mesmo uma carteira de empréstimos estável significará lucros menores no momento em que os ganhos, auferidos nas combalidas moedas locais, forem convertidos para dólares, que é a unidade de contabilização utilizada pela maioria dos grandes bancos. Segundo analistas do Citigroup, StanChart e HSBC obtêm 20% e 25% de seus lucros, respectivamente, em moedas "potencialmente frágeis".

As ações dessas instituições despencaram. Pela primeira vez em anos, o HSBC está sendo negociado abaixo do valor de seus ativos líquidos tangíveis, coisa que o banco conseguiu evitar ao longo de toda a crise financeira. Já o StanChart, que depois da crise os investidores avaliavam em 300% de seus ativos líquidos tangíveis, agora caiu para 64%. E a derrocada dos mercados emergentes também interrompeu a firme recuperação por que vinham passando ações do Citigroup.

É uma situação desagradável, mas em nada parecida com o caos que se viu em 1997 ou em 2008. Acontece que, se os bancos locais começarem a pedir água, isso pode mudar: o StanChart, por exemplo, tem US$ 87,5 bilhões em empréstimos e adiantamentos comprometidos com instituições bancárias, um terço disso na China. Uma eventual deterioração do mercado imobiliário chinês faria com que os bancos saíssem cortando linhas de crédito ou executando ativos de qualidade duvidosa.

É evidente que os bancos não são o único segmento que estão repensando seu posicionamento. Mas os mercados emergentes proporcionaram dois recursos escassos a um setor que vinha mal das pernas: crescimento e lucros. A unidade do HSBC em Hong Kong gerou retornos sobre o patrimônio de 35% no ano passado, em comparação com 8% fora da Ásia. Esse tipo de alegria não se encontra em qualquer lugar.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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