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Processo de eletrificação dos automóveis pode matar empresas, diz presidente da PSA

Presidente mundial do grupo PSA Peugeot Citroën, Carlos Tavares, afirma que urgência em mudar a forma de abastecimento é uma exigência 'política'

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

22 Fevereiro 2018 | 17h59

A eletrificação dos automóveis em andamento em vários países, especialmente os europeus, pode colocar em risco a sobrevivência de diversas montadoras. A preocupação é do presidente mundial do grupo PSA Peugeot Citroën, Carlos Tavares, para quem a urgência em mudar a forma de abastecimento é uma exigência “política”, que vem de governos, e não do setor automobilístico.

“O custo a médio prazo dessa transição é enorme e quem não cumprir receberá multas exorbitantes, o que poderá matar a empresa”, diz o executivo português. Há quatro anos ele assumiu o comando da PSA, empresa que esteve à beira da falência em 2012, voltou a ser lucrativa e comprou, no ano passado, a Opel, marca europeia então pertencente à General Motors.

Tavares deixou o Brasil ontem, após visita de três dias em que esteve na fábrica do grupo em Porto Real (RJ) e na sede administrativa do grupo em São Paulo. Na noite de quarta-feira, falou a um grupo de jornalistas sobre suas preocupações com as mudanças que o setor automobilístico está enfrentando nesse momento, quando montadoras estabelecem prazos para vender apenas modelos elétricos e híbridos, acabando assim como os motores a combustão.

Riscos. Ele reclama que não há debate aberto sobre como será gerada a energia para mover os automóveis – se vier do carvão, por exemplo, o processo vai gerar tanta emissões quanto os veículos atuais, movidos a diesel e a gasolina. “Não se fala sobre as emissões das fábricas de baterias e o processo de reciclagem dessa baterias”, acrescenta o executivo, que também tem dúvidas sobre a capacidade de geração de energia para abastecer toda a nova frota, sobre os custos dessa energia e a infraestrutura para abastecimento.

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A indústria automobilística emprega na Europa 12,6 milhões de trabalhadores, informa Tavares, que também preside a Acea, a associação das montadoras europeias.

“E se o consumidor não aceitar o carro elétrico, por questões de preço, de falta de garantia de abastecimento?”, questiona. Tavares vê o movimento como uma imposição “política” da parte de governos europeus, principalmente após o escândalo do “dieselgate”, quando revelou-se que a Volkswagen, maior fabricante europeia, manipulou testes para encobrir dados de emissões de carros a diesel.

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Lançamento. Apesar das críticas, a PSA, que também é dona da marca de carros premium DS, se prepara para lançar os primeiros modelos 100% elétricos em 2019. “Optamos por desenvolver tecnologia própria, faremos as transmissões e baterias e os motores elétricos; só não faremos a célula da bateria, pois não somos uma empresa química”, afirma o executivo, que não revelou o investimento no processo.

Outra justificativa para a corrida ao carro elétrico, diz o presidente da PSA, é o receio das companhias europeias em perder espaço para a China, que já declarou que pretende liderar o processo global de eletrificação. “Ou nos adaptamos, ou morremos”.

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O Brasil, de certa forma, está um pouco mais distante dessa discussão. “O carro flex é um fator positivo pois já permite avanços”, diz Tavares, se referindo às exigências de redução de CO2 previstas no chamado Acordo de Paris. “Os objetivos impostos na Europa são mais severos que os da COP-21 (a convenção sobre mudanças climáticas)”, ressalta ele.

Mercado. O Brasil é o único país entre os principais mercados da PSA Peugeot Citroën no mundo que ainda não dá lucro. A última vez que a subsidiária teve resultados positivos no País foi em 2011, quando as duas marcas venderam, juntas, quase 176 mil veículos.

No ano passado foram 49 mil, um recuo de mais de 70% ante um mercado total que caiu 36% no período. “É preciso lembrar que em 2012 estávamos à beira da falência e podíamos ter parado naquele período”, afirma o presidente mundial do grupo, Carlos Tavares. Desde então, toda a companhia passou por mudanças e em 2015 as finanças globais passaram a ser positivas, inclusive nos demais países da América do Sul.

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No mundo todo a PSA vendeu no ano passado 3,63 milhões de veículos, 15,4% a mais que em 2016. Foi o quarto ano seguido de alta de vendas. Na Europa, o grupo francês detém 11% de participação no mercado e espera atingir 17% quando concluir a recuperação da Opel, marca europeia adquirida da General Motors no ano passado.

Vulnerabilidade. “A situação do Brasil melhorou, mas ainda não está como deveria; temos de trabalhar mais”, admite o executivo.

Ele diz que, apesar da vulnerabilidade da operação local, a empresa “está aqui para ficar” e manterá o plano de recuperação da marca no País principalmente com lançamento de novos produtos.

Três deles, importados – os utilitários Jumper e Boxer (que já foram produzidos localmente) e o sedã C4 Lounge chegarão em março. Também haverá novidades em carros fabricados em Porto Real (RJ), mas o executivo não quis antecipar detalhes. Atualmente a fábrica produz os modelos Peugeot 208 e 2008 e os Citroën C3 e Aircross.

O complexo industrial tem capacidade para produzir 150 mil veículos ao ano e, em 2017, produziu 96 mil.

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“Já temos um plano de lançamentos assegurados até 2023, mas cada um deles é definido um a um; se avaliarmos que é rentável, faremos”, informa Tavares, para quem hoje interessa mais o resultado financeiro da operação do que fatias do mercado. “Adoro ter participação de mercado, mas isso não paga os funcionários no fim do mês”.

O grupo não descarta importar ou até mesmo produzir localmente modelos da Opel que, por muitos anos, foram a base da produção da GM no Brasil, como o Astra e o Vectra.

A decisão também caberá ao presidente da marca na América Latina, no caso o francês Patrice Lucas, que assumiu o cargo neste mês em substituição ao também português Carlos Gomes, que assumiu os negócios da marca na China. /COLABOROU ANDRÉ ÍTALO ROCHA

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