Produção de embalagens cai 0,73% no 1º semestre e mostra piora dos indicadores antecedentes

Um dia após a presidente Dilma Rousseff afirmar em entrevista que os dados antecedentes 'indicam uma recuperação no segundo semestre', setor de embalagens diminui projeção para o ano

Yolanda Fordelone, O Estado de S. Paulo

19 Agosto 2014 | 11h55

SÃO PAULO - Apenas um dia após a presidente Dilma Rousseff afirmar em entrevista que os indicadores antecedentes apontam para um cenário melhor no segundo semestre, o mercado já começa a mostrar que nem tudo são flores. A produção de embalagens da indústria brasileira recuou 0,73% no primeiro semestre de 2014 em relação ao mesmo período do ano anterior, de acordo com pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) encomendada pela Associação Brasileira de Embalagem (Abre). 

No segundo trimestre, houve queda em dois dos três meses da apuração, o que reforçou a tendência de desaceleração do setor no ano. A perspectiva para a produção de embalagens em 2014 agora varia entre estabilidade e queda de 0,7%. A previsão no início deste ano era de crescimento de 1,5%.

Nesta segunda-feira, 19, Dilma afirmou em entrevista ao Jornal Nacional, da Rede Globo, que os indicadores antecedentes "indicam uma recuperação no segundo semestre, vis a vis, o primeiro". Indicadores antecedentes nada mais são do que uma nome técnico utilizado para dados de tendência, aqueles que dão perspectivas para a economia nos próximos meses.

Indicadores antecedentes. A produção de embalagens, divulgada hoje, é um dos milhares de indicadores que entram nesta análise de indicadores antecedentes. Tudo depende do modelo econométrico utilizado. No Relatório de Inflação do Banco Central, por exemplo, são analisadas 49 variáveis. Para medir a tendência para o nível da atividade, são 11: Índice de Carga Própria de Energia Elétrica de São Paulo (Eletrobrás), Capacidade Utilizada na Indústria em São Paulo e nacionalmente (Fiesp e CNI), Índice de Demanda (Banco Central), Índice de Quantidade de Cimento Despachada pela Indústria (FGV), produção industrial no Brasil e no setor de mineração (IBGE), produção de insumos da construção civil (IBGE), vendas de eletrodomésticos (Eletros), vendas industriais reais (Fiesp) e vendas de automóveis (Fenabrave).

Algumas destas pesquisas, como as vendas de eletrodomésticos, não são divulgadas ao público, mas as que são abertas apontam, pelo contrário, para um cenário de atividade ainda fraca no segundo semestre.

A começar pela quantidade de papelão vendida, um dos indicadores que Dilma citou ontem na entrevista, houve alta de 2,99% do indicador em julho, segundo dados preliminares da Associação Brasileira do Papelão Ondulado (ABPO). O aumento das vendas em julho, porém, é considerado pontual, não indicando tendência firme, pois ocorre após três meses de queda. Para 2014, a associação prevê crescimento de no máximo 2%, projeção abaixo do que as expectativas iniciais, de alta de 3,5% a 4%.

As vendas de veículos, outro indicador citado na entrevista, vão mal no ano, a ponto de a indústria já começar a demitir, dar férias coletivas e acumular estoques de automóveis nos pátios das montadoras. Segundo a Fenabrave, os emplacamentos caíram 13,88% em julho em relação ao mesmo mês do ano passado. No acumulado do ano, quando foram emplacadas 1.957.659 unidades, há queda de 8,57% em comparação ao mesmo período de 2013.

O nível de utilização da capacidade instalada (Nuci), divulgada pela CNI, também anda em queda. Em junho, o índice passou para 80,1%, de 80,6% em maio, o nível mais baixo desde abril de 2009. Em São Paulo, a capacidade utilizada ficou em 79,1% em junho, segundo a Fiesp. Todas as indústrias possuem um limite de produção, a chamada capacidade instalada. O Nuci aponta qual o porcentual de todo esse parque industrial e capacidade está sendo utilizado. Outro indicador importante sobre tendência para o setor, a produção industrial calculada pelo IBGE indica baixa de 2,6% na atividade no ano, até junho.

O consumo de energia, o terceiro dado citado na entrevista de Dilma, realmente está em alta. Em julho, mês impactado pelas televisões ligadas na Copa do Mundo, houve alta de 8,5%.

O que diz o mercado. Segundo o economista-chefe da Gradual, André Perfeito, a fala de Dilma foi como candidata. "Ao citar a inflação, a presidente comentou sobre a alta de 0,01% em julho. Na margem, a inflação está caindo, mas é inegável que em 12 meses o indicador ainda é alto", diz.

Sobre os indicadores de atividade econômica, Perfeito se diz um pouco mais otimista do que o mercado. "Acredito que haverá uma melhora, principalmente porque o setor externo, algo que não podemos ignorar, começou a ajudar a balança comercial", afirma. "Além disso, as bases de comparação do primeiro e segundo trimestres são fracas, o que deve provocar uma melhora."

O economista-chefe da corretora TOV, Pedro Paulo Silveira, lembra que os dados devem apresentar leve melhora nos próximos meses, mas levando-se em consideração a sazonalidade do período. "Em agosto, setembro e outubro, a indústria já começa a se preparar para o fim do ano. Haverá uma leve sensação de melhora, mas dessazonalizados os dados ainda terão a mesma tendência que a economia tem tido desde o primeiro trimestre, de queda", afirma. Em relação à balança comercial, apesar da melhora na margem, nos dados semanais, Silveira comenta que EUA e Europa têm exercido forte impacto negativo. "Soa como mentira porque estamos em época de campanha, mas o setor externo tem grande peso no desempenho da economia. Deve ter impacto de 1,5 ponto no PIB deste ano", calcula.

Outro fator que poucos estão levando em consideração, mas que tem relevância, segundo Silveira, é a seca que atingiu a produção de insumos no País e elevou o custo da indústria. "Ainda não está quantificada, mas a seca deve roubar facilmente um ponto do PIB", calcula o economista da TOV. Os investimentos, outro componente do PIB, ainda são pressionados pelo ciclo de alta do juro não só no Brasil, como no mundo, desde março do ano passado. Silveira acredita a economia deve registrar um PIB de 0% a -0,5% em 2014. 

Para Perfeito, o cenário da economia é de desaceleração, mas não de catástrofe como tem sido apontado por algumas casas. "De fato, passamos a crise sem demitir. O mercado ainda está contratando, menos, mas ainda há vagas", afirma. Perfeito lembra, contudo, que há setores que enfrentam maiores dificuldades, como o de automóveis, com grande estoque acumulado.

(Texto atualizado às 13h50)

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