Gilmar Gomes|Ibravin
Gilmar Gomes|Ibravin

Produção industrial cai 1,8% em março ante fevereiro, mas sobe 1,1% em um ano

Nos primeiros três meses do ano, porém, avanço de 0,6% em relação ao mesmo período de 2016 interrompe sequência de 11 trimestres de queda

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

03 Maio 2017 | 09h12

RIO - Apesar das expectativas de recuperação, a indústria brasileira voltou a amargar perdas em março. A produção encolheu 1,8% em relação a fevereiro, segundo a Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física, divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os números do primeiro trimestre, entretanto, reforçaram a expectativa de que o Produto Interno Bruto (PIB) enfim saia do negativo, embora ainda mostrem que o setor está mais para uma situação de acomodação do que em franca retomada, avaliam economistas.

O mau desempenho de março não impediu que a produção avançasse 0,7% no primeiro trimestre em relação aos últimos três meses do ano passado. Na comparação com o mesmo trimestre de 2016, a alta foi de 0,6%. “A melhora do ambiente macroeconômico, com a redução da taxa básica de juros, melhora na percepção de riscos e retomada da confiança, tende a induzir uma recuperação dos setores industriais mais sensíveis à retomada do ciclo econômico”, avaliou Thiago Xavier, analista da Tendências Consultoria Integrada, que prevê crescimento de 2,4% na produção industrial este ano.

O crescimento de 0,6% no primeiro trimestre interrompeu a sequência de 11 trimestres consecutivos de quedas. Mas o movimento não altera o comportamento negativo da indústria neste início de 2017, afirmou André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE. “O primeiro trimestre de 2017 tem dois dias úteis a mais do que o primeiro trimestre de 2016. E tem a base de comparação depreciada”, disse.

O pesquisador lembrou que a indústria tinha recuado 11,5% no primeiro trimestre de 2016 ante o mesmo período de 2015. O crescimento de 1,1% em março ante o mesmo mês do ano anterior também foi impulsionado por um dia útil a mais e uma base de comparação fraca. Em março de 2016, a produção caiu 11,4% ante março de 2015. Eliminando o efeito sazonal e o impacto de um dia útil a mais em março deste ano, a produção teria recuado 1,2% em vez de avançar 1,1%, calculou Macedo.

Como consequência, a indústria brasileira está operando 20,8% abaixo do pico registrado em junho de 2013. A produção retornou ao patamar de dezembro de 2008, época da crise financeira internacional. A retração na passagem de fevereiro para março atingiu todas as categorias de uso. O recuo nos bens de consumo duráveis chegou a 8,5%, puxado pela redução na fabricação de automóveis e de eletrodomésticos.

O declínio corrige um pouco o excesso de otimismo em relação à atividade, opinou o economista-chefe da corretora Nova Futura, Pedro Paulo Silveira. “Não há nada que mostre que a economia está em processo firme de retomada. Apenas a produção de alguns setores parou de cair e se estabilizou.”

Na avaliação do economista-chefe da Gradual Investimentos, Andre Perfeito, o resultado indica a persistência do processo de desaceleração econômica. “Vemos que a desaceleração é persistente não apenas na produção industrial, mas também na arrecadação e no próprio desempenho econômico”, disse. “A variação negativa se soma a outras evidências, como desemprego e até inflação.”

Os fatores conjunturais que explicavam um menor dinamismo da indústria e da economia não se dissiparam, acrescentou André Macedo – a deterioração do mercado de trabalho e o endividamento ainda elevado das famílias atrapalham a retomada da produção, diz.

ANÁLISE

Estancamento da crise industrial

Rafael Cagnin, economista do IEDI

Neste começo de ano, a indústria voltou ao terreno positivo depois de onze trimestres sucessivos de queda. A alta no acumulado de janeiro-março de 2017, de apenas 0,6%, não foi muito expressiva, mas já é capaz de distanciar o quadro atual daquele do ano passado. Em todo caso, pelas razões apontadas a seguir, é oportuno um pouco de cautela antes de se comemorar uma recuperação da indústria. A etapa ainda é de estancamento da crise.

O aspecto mais preocupante tem sido a trajetória na série com ajuste sazonal. Frente ao mês imediatamente anterior, a produção industrial ainda não viu um mês sequer de resultado positivo em 2017, gerando um declínio de 0,7% no primeiro trimestre do ano. Pior, nenhum dos grandes setores da indústria fugiu à regra.

Diante desses, é difícil perder de vista que as comparações com 2016 contam com bases muito baixas, ajudando na obtenção de resultados positivos. Dentre os macrossetores, bens de capital e bens de consumo duráveis parecem trilhar um início de recuperação, mesmo que seu desempenho com ajuste sazonal também não seja dos mais promissores. No primeiro caso, a expansão do agronegócio, tem ajudado a impulsionar a produção de bens de capital de uso agrícola

Já no caso da produção de bens de consumo duráveis, entre os fatores positivos encontram-se a desaceleração da inflação, restabelecimento das concessões de credito às famílias – muito embora os juros teimam em não cair acompanhando a Selic – bem como a liberação das contas inativas do FGTS. Além das exportações das montadoras, o que tem ajudado a recuperar parte do terreno perdido nos últimos anos.

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