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Produtoras brasileiras miram exportação

Com custos em real e de olho na recuperação dos EUA, empresas conseguem ser competitivas no mercado americano

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Marina Gazzoni,
O Estado de S. Paulo

28 Fevereiro 2016 | 21h27

Com um mercado cada vez mais difícil dentro de casa, as produtoras brasileiras estão atrás de novos ares no exterior. A Vector Zero/Lobo é um dos exemplos mais recentes disso. A empresa reabriu, no ano passado, seu escritório em Nova York, de olho na recuperação da economia americana, ao mesmo tempo em que tenta fugir da crise no Brasil. 

Essa não é a primeira experiência da Lobo lá fora. Por três anos, entre 2006 e 2009, ela teve uma filial nos Estados Unidos, mas desistiu de mantê-la depois da crise do subprime.

De volta, a Lobo fez oito projetos para o mercado americano só no ano passado. Em 2016, já foram quatro. “Nossa estratégia é faturar em dólar e gastar em real”, resume o sócio e diretor de criação da Vector Zero/Lobo, Mateus de Paula Santos. Hoje, entre 20% e 30% da receita da produtora vem das vendas externas. “O mercado publicitário dos EUA é o maior do mundo. Queremos atuar nele.”

A Vector Zero/Lobo não é a única a vislumbrar oportunidades no exterior. Uma comitiva de oito produtoras brasileiras vai apresentar, na semana que vem, seus diretores a agências de publicidade americanas em uma rodada de encontros em Los Angeles organizada pela Associação Brasileira da Produção de Obras Audiovisuais (Apro) e pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex). 

Desde 2003, a Apro desenvolve o projeto FilmBrazil, que tem o objetivo de estimular a atuação das produtoras brasileiras no mercado externo. “Neste ano, temos um trunfo. Com o dólar a R$ 4, o Brasil está mais competitivo. É um mercado internacionalizado. As agências têm um orçamento e elas querem contratar o melhor diretor possível para executar aquele filme em qualquer lugar do mundo”, explica Marianna Souza, gerente do projeto FilmBrazil.

No ano passado, a Apex e a Apro já fizeram uma rodada de apresentações em Nova York e Chicago. A iniciativa rendeu frutos. A produtora brasileira Barry Company, por exemplo, conheceu na ocasião a produtora americana Cortez Brothers e, na sequência, fechou uma parceria com ela. Há seis meses, a Cortez representa os diretores da Barry no exterior. Por meio dessa parceria, a diretora da Barry, Mariana Youseff, foi escolhida para assinar uma das campanhas da National Football League (NFL) para a final do Super Bowl, o campeonato de futebol americano e maior audiência da TV dos EUA. “Facilita ter alguém lá vendendo a gente”, disse o produtor executivo da Barry Company, Rafael Motta, responsável pelo desenvolvimento da área internacional da companhia.

No caso da produtora americana Hungry Man, todos os escritórios da companhia “vendem” diretores que atuam em todos os países. De acordo com o presidente da Hungry Man no Brasil, Alex Mehedff, a demanda por diretores brasileiros é crescente. Um exemplo disso é a próxima campanha global da marca de antisséptico bucal Listerine, criada pela agência JWT de Nova York e produzida pelo escritório de São Paulo da Hungry Man.

Em 2014, cerca de 10% do faturamento da produtora vinha de clientes estrangeiros, número que subiu para 28% em 2015 e deve chegar em 35% este ano. “São dois movimentos. De um lado, há uma demanda mais forte de exportação. De outro, há, sem dúvida, uma retração no mercado publicitário brasileiro”, disse. 

Com o real desvalorizado, o custo de filmar no Brasil é convidativo para os estrangeiros. Segundo Mehedff, nove diárias de filmagem no Brasil equivalem a quatro nos Estados Unidos. “Mas eles não viriam se não reconhecessem o DNA criativo dos diretores brasileiros”, ressalta. 

Ele lembra que, há dez anos, a demanda dos clientes estrangeiros no Brasil era filmar no cenário brasileiro ou contratar diretores estrangeiros para gravar no País, a custos mais baixos. “Não tinha demanda por talentos nacionais. Agora, vemos uma oportunidade de desenvolver isso.”

Atraso A gerente do projeto FilmBrazil, <IP10,0,0>Marianna Souza</IP>, reconhece que as produtoras nacionais entraram atrasadas na disputa pelo mercado externo. “Elas se voltaram muito para o mercado brasileiro nos últimos anos. É um mercado enorme, com 44 mil títulos por ano. A Argentina tem 800”, disse. Segundo ela, a crise econômica deve intensificar a briga pelo mercado externo.

O gerente de Exportação da Apex-Brasil, Christiano Braga, afirma que há uma corrida generalizada de empresas brasileiras para tentar negócios no exterior, do ramo audiovisual à indústria de bens de capital. <CW0>Ele ressalta, no entanto, que o mercado externo não é para aventureiros ou para quem busca oportunidades pontuais. “As empresas têm de pensar no médio e longo prazo. Elas precisam de uma presença constante no exterior para conseguir negócios”, afirmou.

Christiano Braga costuma dizer que a que a exportação de serviços audiovisuais é uma relação de confiança. “É diferente de bens de consumo. Eles não têm um sapato de mostruário para mandar. Os negócios dependem da reputação da empresa”, compara.

Um dos grandes trunfos que as produtoras usam para vender seu peixe lá fora é o resultado do Brasil – e de cada uma delas individualmente – nos festivais internacionais de publicidade, especialmente o Cannes Lions. Em 2015, o Brasil ganhou 108 leões no festival.

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