Qual será o ritmo?

Há uma ala cautelosa, que não compra uma visão tão dourada da economia em 2018

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2017 | 05h00

Já não há dúvidas de que a economia brasileira está em recuperação. Não deve estar muito longe o momento em que o Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), da FGV, decretará que o fim da recessão, iniciada no segundo trimestre de 2014, já ocorreu. Alguns analistas creem que o Codace pode determinar que uma das piores recessões da história brasileira terminou no primeiro ou no segundo trimestre deste ano.

A discussão agora se transfere para que tipo de retomada é esta. A exuberância da Bolsa indica que há uma forte corrente no mercado apostando numa recuperação relativamente vigorosa. Segundo um gestor de recursos, o comportamento recente do Ibovespa sugere um crescimento do PIB de 3,5%, quiçá 4,0%, em 2018, embora as estimativas dos economistas ainda estejam bem aquém desse intervalo – seria como se os operadores apostassem que as expectativas vão caminhar para lá.

A lógica desse otimismo tem vários componentes. Um deles é o efeito defasado da queda dos juros puxada pelos cortes da Selic, a taxa básica determinada pelo Banco Central. Importantes instituições, como o Banco Itaú, já veem a Selic chegando a 6,5% ao fim do atual ciclo de baixa, e uma queda até pelo menos 7,0% é dada como certa.

É verdade que, se a retomada for tão forte assim, pode ser que o BC seja mais cauteloso nos cortes finais da Selic no atual ciclo, mas isso é uma questão que só surgirá adiante – no momento, o que se vê é o juro, inclusive e principalmente o real (isto é, descontada a inflação), indo para níveis que no passado aqueceram para valer a atividade econômica no Brasil.

E ajuda também o fato de que há grande capacidade ociosa nas fábricas, um enorme exército de desempregados e importações em nível ainda relativamente baixo combinadas com um farto superávit comercial. Todas essas características atuais da economia brasileira indicam que há muito espaço para o aquecimento antes que as típicas restrições, como inflação ou déficits externos, obriguem o BC e o governo a porem os pés no freio.

Finalmente, a corrente mais entusiástica em relação à retomada vem sendo alimentada pelos últimos dados da indústria, do mercado de trabalho e por outros indicadores de atividade, que quase só deram boas notícias nas últimas semanas.

Mas há também uma ala mais cautelosa, que não compra essa visão tão dourada da economia em 2018, e tende para uma expectativa de crescimento no próximo ano em torno do intervalo de 2,0% a 2,5% (a mediana das expectativas de mercado, que inclui todas as correntes, está em 2,38%, mas vem subindo; é normal que esse número tenha uma certa defasagem em relação ao que de fato o mercado está vendo a cada momento, porque as instituições, às vezes, demoram para mudar suas projeções oficiais).

Nessa interpretação mais contida da recuperação, um ponto fundamental é o alto nível de endividamento (ou “alavancagem”) contraído durante os anos de vacas gordas pelas empresas e famílias. O governo também está muito endividado.

A ciência econômica indica que recessões que ocorrem na esteira de bolhas de crédito tendem a ser seguidas por um processo mais lento e sofrido de recuperação. O motivo é que, mesmo que os juros caiam e que isso amplie a oferta de crédito barato para que as empresas invistam e as famílias consumam, tanto umas como outras se mantêm com o pé no freio, porque querem corrigir primeiro o desequilíbrio das suas finanças. Assim, mesmo com oferta abundante de crédito, não há a demanda correspondente. Na verdade, há sinais de que a desalavancagem, especialmente das famílias, está em curso no Brasil, mas esse é um processo gradativo.

Finalmente, existe no horizonte da retomada a grande incógnita eleitoral. Se crescerem muito as chances de vitória em 2018 de um candidato disposto a “dinamitar” o ajuste que está sendo realizado, os cenários podem piorar muito.

*COLUNISTA DO BROADCAST E CONSULTOR DO IBRE/FGV

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