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Quando a China tropeça

Novas cifras reforçaram os temores de uma brusca freada, que poderá levar a uma derrocada das ações chinesas e do mundo todo

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Paul Krugman

08 Janeiro 2016 | 21h27

Os problemas da China provocarão então uma crise global? A boa notícia é que as cifras que tive oportunidade de ver, não parecem suficientemente significativas. A má notícia é que eu poderia estar errado, porque o contágio global muitas vezes acaba sendo maior do que as cifras fazem prever. E a notícia pior é que, se a China produzir de fato um choque ruim no resto do mundo, não estaremos suficientemente preparados para enfrentar as consequências.

Explicando: é óbvio, já há algum tempo, que a economia da China tem graves problemas. Quão graves, é difícil dizer, porque ninguém acredita nas estatísticas oficiais chinesas.

A questão fundamental é que o modelo econômico da China, que envolve um volume de poupança muito elevada e um consumo muito baixo, só foi sustentável enquanto o país pôde crescer a uma taxa extremamente elevada, justificando grandes investimentos. Isso por sua vez foi possível quando a China tinha imensas reservas de mão de obra rural subempregada. Mas já não ocorre, e a China agora enfrenta a complexa tarefa de fazer a transição para um crescimento muito inferior sem tropeçar na recessão.

Uma estratégia razoável teria sido ganhar tempo com a expansão do crédito e com gastos na infraestrutura, enquanto o país procedia à reforma da economia pondo maior poder de compra nas mãos das famílias. Infelizmente, a China só empreendeu a primeira metade dessa estratégia, ganhando tempo e depois desperdiçando-o. O resultado foi o rápido endividamento, em grande parte por causa dos “bancos fantasmas” não muito bem regulamentados, e de uma ameaça de derretimento financeiro.

Por isso, a situação chinesa parece bastante sombria – novas cifras reforçaram os temores de uma brusca freada, que poderá levar não apenas a uma derrocada das ações chinesas, mas também a um acentuado declínio do preço das ações no mundo todo.

Uma péssima situação. Alguns especialistas acreditam que as implicações globais serão realmente apavorantes. George Soros as compara às de 2008. Entretanto, como sugeri acima, tive dificuldade para avaliar as verdadeiras dimensões dessa catástrofe.

De fato, a China é uma grande economia, ela representa cerca de 25% da indústria mundial, de modo que o que acontece lá tem implicações para todos nós. Além disso, a China compra anualmente bens e serviços por um valor superior a US$ 2 trilhões do resto do mundo. Mas o mundo é grande, com um Produto Interno Bruto (PIB) total, excluindo a China, superior a US$ 60 trilhões. Até mesmo uma drástica queda das importações chinesas representaria apenas um golpe modesto para os gastos mundiais.

E os vínculos financeiros? Um dos motivos pelos quais a crise do subprime dos Estados Unidos se tornou global, em 2008, foi o fato de que os estrangeiros em geral, e ficou claro que os bancos europeus em particular, estavam desmedidamente expostos aos prejuízos dos papéis americanos. Mas a China exerce o controle dos capitais – ou seja, não está muito aberta a investidores estrangeiros –, portanto, as ações em queda ou mesmo o não pagamento das dívidas internas produziriam um efeito induzido direto muito limitado.

Tudo isso implica que, embora a China enfrente graves problemas, as consequências para o resto do mundo deverão ser administráveis. Entretanto, preciso admitir que não estou muito calmo a esse respeito como a análise acima diz que eu deveria estar. Se preferirem, não tenho a coragem da confirmar a minha tranquilidade. Por quê?

Em parte porque, em todas as nações, os ciclos econômicos frequentemente parecem mais sincronizados do que deveriam ser. Por exemplo, a Europa e os Estados Unidos exportam entre si apenas uma pequena fração do que produzem, entretanto, frequentemente, apresentam recessões e recuperações ao mesmo tempo. Os vínculos financeiros podem fazer parte da história, mas também suspeitamos que exista um contágio psicológico: boas ou más notícias numa importante economia afetam os espíritos animais em outras.

Por isso, temo que a China possa exportar seus problemas de uma maneira que os cálculos aproximados não captam, que os problemas do “Reino do Meio”, de uma maneira ou de outra, possam deprimir os gastos em investimentos nos Estados Unidos e na Europa, e em outros mercados emergentes. Se os meus temores se concretizarem, lamentavelmente não estaremos preparados para fazer frente ao choque.

Afinal, quem poderia responder a um choque da China, e de que maneira? A política monetária provavelmente seria de pouca ajuda. Com os juros ainda perto do zero e a inflação ainda abaixo da meta, o Federal Reserve (Fed, banco central americano), em todo caso, teria escassa capacidade de combater graves turbulências econômicas e, provavelmente, reduziu sua eficácia assinalando sua disposição a elevar os juros na primeira desculpa. Ao mesmo tempo, o Banco Central Europeu (BCE) já está forçando os limites do seu mandato político em seu esforço, até agora malsucedido, de elevar a inflação.

E embora a política fiscal – que consiste essencialmente em gastar mais para contrabalançar os efeitos da redução dos dispêndios da China – seguramente deva funcionar, quantos acreditam que os republicanos seriam receptivos a um novo programa de estímulo do presidente Barack Obama, ou que os políticos alemães olhariam carinhosamente uma proposta de aumento dos déficits na Europa?

Agora, meu palpite é que as coisas ainda não se agravarão a tal ponto – ruins na China, mas pouca turbulência em outros países. Realmente espero que esse palpite esteja certo, porque de fato não dispomos de nenhum “plano B”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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