Quanto mais juros, BC?

Existe o risco de o banco errar a mão e cortar demasiadamente a taxa Selic

Fábio Alves *, O Estado de S.Paulo

11 Outubro 2017 | 05h00

A duas semanas da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), já está em 100% a aposta dos investidores de que o Banco Central vai reduzir o ritmo de corte da taxa Selic para 0,75 ponto porcentual, esquentando o debate sobre o quanto de estímulo adicional ainda é necessário diante do estágio atual de recuperação da economia brasileira.

É crescente a aposta de instituições financeiras e consultorias econômicas de que o BC levará os juros básicos até 6,5% ao fim do atual ciclo de afrouxamento monetário. O banco Itaú foi o mais recente a engrossar essa aposta, revisando na semana passada sua estimativa de taxa terminal da Selic de 7,0% para 6,5%.

Mas a maioria dos analistas, contudo, ainda aposta que o ciclo atual de corte de juros vai acabar em 7,0% e que o BC manterá a Selic nesse patamar até o fim de 2018. Esse é o consenso das estimativas na mais recente pesquisa Focus, do BC.

O corte mais agressivo dos juros básicos neste ano foi influenciado por dois fatores: meses seguidos de inflação abaixo do que os analistas vinham projetando e uma recuperação anêmica da atividade econômica. O consenso das estimativas dos analistas aponta para uma inflação em 2017 abaixo de 3%, que é o piso da meta perseguida pelo BC.

Durante boa parte deste ano, a perda de fôlego dos índices de inflação foi reflexo de uma queda mais forte do que se previa dos preços dos alimentos em meio a uma elevada taxa de desemprego.

Mas ao longo do terceiro trimestre esse quadro foi se revertendo. O IPCA de setembro subiu 0,16%, no teto do intervalo das estimativas dos analistas. Em 12 meses, o índice acumulou alta de 2,54%, em comparação com alta de 2,46% em agosto, na primeira aceleração da taxa anualizada desde agosto de 2016.

O resultado de setembro mostrou que o vale da inflação ficou para trás. A pergunta que ninguém sabe responder é: em que ritmo vai ocorrer a normalização nos preços, em particular os de alimentos? Poderemos ver uma série de surpresas para cima da inflação, como aconteceu com o IPCA de setembro?

Em relação à recuperação econômica, apesar da volatilidade habitual dos indicadores de atividade logo após acabada uma recessão, as surpresas positivas ao longo do terceiro trimestre foram muitas.

Hoje sai o dado de vendas no varejo de agosto e, para o conceito ampliado desse indicador, a maioria dos analistas espera um avanço mensal de 0,80% e uma alta de 8,75% ante igual mês de 2016, conforme a pesquisa Projeção Broadcast. Confirmada essa estimativa, a confiança de que o chamado hiato do produto está se fechando em velocidade mais rápida aumentaria.

“A economia deverá ganhar tração nos próximos meses”, diz o economista sênior do Haitong Banco de Investimento do Brasil, Flávio Serrano. Para ele, um dos destaques dos indicadores de atividade no terceiro trimestre foi a melhora no mercado de trabalho, com o aumento da população ocupada e da renda.

Segundo os últimos dados da pesquisa Pnad Contínua, do IBGE, o total de vagas de trabalho com carteira assinada cresceu 0,5% no trimestre encerrado em agosto, no primeiro avanço significativo desde maio de 2014. A taxa de desemprego caiu de 12,8% no trimestre encerrado em julho para 12,6% em agosto, com 13,1 milhões de desempregados.

Para Serrano, do Haitong, a taxa de juros já está em terreno expansionista, o que deverá garantir aceleração no ritmo de crescimento no futuro próximo. Ele lembra que os juros reais, se consideradas as taxas pré-fixadas de 1 ano subtraídas das expectativas inflacionárias em 12 meses, estão em torno de 3%. Ele prevê uma taxa terminal da Selic em 7,0%.

O debate, portanto, é se, estando a economia em clara recuperação, o BC corre o risco de errar a mão e cortar demasiadamente os juros básicos. O efeito disso poderia ser uma aceleração mais rápida do que se imaginava da inflação, forçando o BC a subir os juros de novo em 2018, ano eleitoral. Por enquanto, a maioria não crê que há esse risco e que o caminho está livre para a redução da Selic.

* COLUNISTA DO BROADCAST

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