Assine o Estadão
assine

Economia

Fundação Getúlio Vargas

Quase 100 mil lojas foram fechadas em 2015

Cerca de 245 mil trabalhadores formais do comércio devem ser demitidos neste ano; no ano passado, foram fechadas 185 mil vagas

0

Daniela Amorim e Idiana Tomazelli

28 Fevereiro 2016 | 06h57

O apelo à criatividade, às promoções e ao corte de custos tem sido o mantra dos comerciantes brasileiros neste início de ano, mas nada deve salvar o varejo de uma nova retração nas vendas em 2016. Desemprego crescente, elevado endividamento das famílias e crédito caro persistem e habitam os piores pesadelos dos empresários, que no ano passado já assistiram ao maior tombo nas vendas desde 2001 e fecharam quase 100 mil lojas. O baque foi tão grande que o comércio acabou perdendo espaço para outras atividades na economia.

Como nada mudou na passagem do ano, o encolhimento deve continuar. Neste mês, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostrou que os comerciantes reclamam cada vez mais da demanda insuficiente e dos custos com mão de obra, o que pode incentivar demissões nos próximos meses. O próprio indicador de emprego previsto caiu 3,3 pontos, para o menor nível da série histórica, iniciada em março de 2010. “Isso é um sinal de que o ritmo de redução de pessoal ocupado no setor deve aumentar nos próximos meses”, explica Aloisio Campelo, superintendente adjunto de Ciclos Econômicos da FGV.

A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) espera pela demissão de aproximadamente 245 mil trabalhadores formais neste ano – o comércio já fechou quase 181 mil vagas em 2015. Mas o problema não deve se limitar a demissões. Sem clientela suficiente, quase 100 mil lojas deixaram de existir no ano passado. “A tendência de fechamento deve continuar. O comércio continua com o pé na lama”, afirma o economista da CNC Fabio Bentes.

Sem uma via de escape, o varejo depende do consumo doméstico. Só que os brasileiros seguem pessimistas diante do aumento do desemprego e da queda na renda e, na tentativa de equilibrar o orçamento doméstico, acabam freando os gastos. Muitos inclusive têm recorrido à poupança para conseguir manter as contas em dia. “Há menos pessoas trabalhando e muitas pessoas ganhando menos. Isso impacta”, diz o economista Thiago Biscuola, da RC Consultores.

No ano passado, as vendas no varejo restrito encolheram 4,3%, o pior resultado desde o início da pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2001. No segmento ampliado, que inclui veículos e material de construção, o tombo foi ainda maior, de 8,6%. Como resultado, o Produto Interno Bruto (PIB) do comércio deve ter encolhido 8% no ano passado, o pior resultado desde o início das Contas Nacionais em 1948, estima a CNC.

A forte queda no PIB do comércio em 2015 abortou o processo de crescimento do peso da atividade na economia brasileira, um caminho encarado como natural pelos economistas. No ano passado, 10,5% da renda gerada no País veio do comércio, contra 11,1% em 2014, segundo estimativas do Monitor do PIB, produzido pela FGV.

Perdas. Com a disputa pelo cliente cada vez mais acirrada, os lojistas tentam lançar mão de promoções para atrair os brasileiros. Renegociação de prazos e valores com fornecedores e medidas de redução de custo também estão no ‘script’ das empresas. Mesmo assim, o crédito travado e a inadimplência em crescimento mínguam os planos de grandes varejistas.

O Grupo Pão de Açúcar teve prejuízo de R$ 314 milhões no ano passado. Os investimentos de R$ 2 bilhões feitos em 2015 devem cair a R$ 1,5 bilhão neste ano, segundo a companhia.

A Via Varejo, braço do Grupo Pão de Açúcar que reúne as marcas Casas Bahia e Ponto Frio, também vai intensificar os cortes de investimentos e deve ser mais seletiva no crédito diante do preocupante aumento da inadimplência observado atualmente. A rede fechou 23 lojas e demitiu mais de 11 mil funcionários durante o ano passado. O lucro líquido da empresa encolheu expressivos 99,7% ante o ano anterior, para R$ 3 milhões.

A Magazine Luiza é outra gigante do comércio brasileiro que espera dificuldades em 2016. O presidente da companhia, Frederico Trajano, afirmou em recente entrevista ao Estado que a gestão tem mirado em cortes de custos para enfrentar a crise.

publicidade

Ritmo frenético do ‘passo o ponto’ indica momento ruim

Comerciantes enfrentam problemas por causa da desvalorização de seus negócios e admitem até vendê-los por menos

0

Edison Veiga

28 Fevereiro 2016 | 06h00

As fachadas de estabelecimentos comerciais de São Paulo já têm a crise estampada nos letreiros. É impossível não notar as cada vez mais frequentes faixas de “passo o ponto” – fora a quantidade incomum de imóveis fechados, acumulando poeira entre uma placa de “aluga-se” e outra de “vende-se”. 

Na Pompeia, zona oeste da cidade, a reportagem encontrou três estabelecimentos cujos donos querem passar o ponto em um raio de menos de 100 metros. “Tinha duas unidades do meu bar e restaurante, uma próxima da outra. Neste cenário de crise, é melhor concentrar as operações. Assim, reduzo meus gastos, que aumentaram muito”, afirma o proprietário de um deles, Renato Silvy Andrade. “A clientela está gastando menos.” A crise também tem dificultado o desejo do empresário de se desfazer do negócio. “Eu estava pedindo R$ 100 mil”, comenta. “Mas os poucos interessados que aparecem querem dar R$ 30 mil.” 

Dona de um bar, Miriam Lopes já começou baixando a pedida. “Nosso ponto foi avaliado em R$ 450 mil. Mas sabemos que, nessa crise, ninguém vai pagar isso. Então, por R$ 250 mil, entregamos com tudo o que tem dentro, montadinho”, diz.

Situação semelhante é enfrentada por Gabriel Teixeira Silva, que tem uma lanchonete em Pinheiros, também na zona oeste, e tenta negociar o ponto desde outubro. “Sei que, pela localização, valeria de R$ 200 mil a R$ 300 mil. Mas estou pedindo R$ 100 mil e, se alguém aparecer com R$ 80 mil à vista, entrego”, afirma o empreendedor. 

Dono de dois estacionamentos em Santo Amaro, na zona sul da cidade, Luiz Fernando Magalhães colocou faixas com seu telefone celular na frente de ambos: é outro que passa os pontos. “O movimento diminuiu muito. Não chegou a cair para a metade, mas caiu bem”, conta o empresário. 

Na avaliação do presidente da Associação Comercial de São Paulo, Alencar Burti, “é urgente a necessidade” de uma solução. “Milagre não tem. Mas precisamos nos unir em busca de uma saída, uma alternativa que pelo menos tire o desespero. É um desastre e temos de chamar uma ambulância para o setor”, comenta.

Na Pompeia, é possível encontrar a verdadeira dimensão da crise pela qual passa o País

Altos e baixos. A história de vida do empresário italiano Lorenzo Fasano se mistura com o “boom” da economia brasileira de anos atrás – e a atual derrocada. Animado com as perspectivas econômicas do Brasil, em 2012 ele decidiu trocar Milão por São Paulo. Mudou-se com mulher e três filhos e aqui passou a empreender na zona oeste. Abriu uma sorveteria no Alto de Pinheiros, depois um restaurante na Vila Madalena, por fim outra sorveteria no Shopping Villa-Lobos.

“No total, investi quase R$ 2 milhões”, conta ele. Em abril do ano passado, ele se viu obrigado a fechar a unidade do shopping. “Foi um ano bastante complicado. Mas, até setembro, confesso que ainda tinha esperança, acreditava em uma virada na política econômica e que as coisas poderiam melhorar”, diz. 

Em dezembro, ele encerrou as empresas e voltou para a Itália. “Em meu caso, houve tanto a diminuição da clientela como o encarecimento da matéria-prima”, explica. “A maior parte dos meus ingredientes vinha da Itália. Com o câmbio fortemente desfavorável, a operação se tornou impossível.”

Mais conteúdo sobre:

publicidade

0

Maria Fernanda Rodrigues

28 Fevereiro 2016 | 06h00

A Lapa perdeu ontem, 27, sua última livraria de rua. Afonso Marin, 33 anos e terceira geração à frente do negócio criado por Manoel José Martins Pintor em 1965, seu tio-avô, desistiu de tentar sair do vermelho e fechou as portas da Sampa Books – até a chegada de Afonso à administração, em 2014, ela se chamava Supercap. 

Mas a relação de livreiro com a loja é mais antiga e simbólica. Quando ele nasceu, em 1982, seu pai já estava no comando havia dez anos. Foi ali que ele passou a infância. Foi dali que veio o sustento da família. “Tudo o que nossa família conquistou saiu dessa loja. E aprendemos muito ali dentro”, conta. Na adolescência, ajudava no caixa, no pacote, onde fosse preciso. Quando resolveu comprar a livraria do pai, a ideia era transformar a empresa familiar numa loja atrativa. As filas da época de volta às aulas que dobravam a rua 12 de Outubro tinham ficado no passado.

Presidente da Associação Nacional de Livrarias, Marin diz que o setor está “sem sistema imunológico”. Um dos causadores da crise, ele diz, é o fato de ter de concorrer com seu fornecedor – no caso, editoras que vendem direto ao consumidor. “Ficou insustentável ter uma livraria. O varejo é a ponta da lança e não tem suporte da cadeia para continuar”, diz. A situação foi ficando mais difícil do segundo semestre do ano passado para cá, com a queda expressiva de movimento. “Uma senhora que vinha quando criança e depois passou a trazer os netos chorou quando soube que fecharíamos. É um momento muito frustrante, não sei o que vou fazer depois que encerrar esse ciclo.” 

Marin diz que venda direta afetou o seu negócio

A Sampa Books não foi a única. Em 2015, a Solário (Rio, 22 anos), a Status (Belo Horizonte, 40 anos) e a Valer (Manaus, 25 anos) saíram de cena. Uma crise que não atinge apenas as independentes e diz respeito a diversos fatores – do aumento do aluguel e má administração à falta de leitores. Maior rede de livrarias, a Saraiva fechou duas lojas no Rio de Janeiro. A Cultura, por sua vez, abortou novas aberturas e está revendo contratos. “A crise só acentua um problema pelo qual o varejo passa: o consumidor não precisa de loja. Precisamos pensar no futuro da loja física”, diz Sérgio Herz, presidente da rede. Seu e-commerce já vende mais que qualquer uma das 17 lojas da marca.

Mais conteúdo sobre:

publicidade

Comentários