Queda dos juros deve impulsionar mercado de renda variável

Queda dos juros deve impulsionar mercado de renda variável

Com a rentabilidade da renda fixa caindo em função da redução da Selic, papéis ganham espaço para os interessados em aumentar ganhos

Raquel Brandão, O Estado de S.Paulo

25 Outubro 2017 | 20h54

Com alta de 27,30% do Ibovespa no ano, a queda no mercado de juros deve impulsionar os investimentos em renda variável nos próximos meses. Na prática, isso já se verifica com o aumento do fundo multimercado e os investimentos indexados em papéis negociados na Bolsa de Valores acumulam alta de 27,41%.

Para analistas consultados pela reportagem, os investidores brasileiros estão mais propensos ao risco, uma vez que o ambiente político e econômico está mais estável e a atividade no mercado local começa a dar sinais de retomada sustentável.

“Para quem quer aplicar no mercado de ações, pode ser bacana olhar alguns setores de acordo com o prazo e o objetivo (com o investimento)”, afirma o analista da Guide Investimento, Ignácio Crespo.

Ele avalia que no curto prazo o setor de consumo deve apresentar maior retorno, refletindo a redução do endividamento das famílias e a retomada gradual das compras.

++Com queda da Selic, é hora de repensar e até evitar alguns investimentos

Já no médio prazo, Crespo aposta em segmento da indústria, já que a atividade produtiva do setor tende a ser retomada com mais força. “Também vale olhar para as estatais que têm melhorado a governança corporativa, o que as torna mais transparentes e, por consequência, mais produtivas”, acrescenta ele.

A renda variável também é indicada como uma opção para quem busca maior rentabilidade até 2019 pela superintendente de Educação e Informações Técnicas da Anbima, Ana Leoni. A entidade representa o mercado financeiro e de capitais no Brasil.

“O investidor tem que saber que esse cenário só é favorável para alguns objetivos e, então, buscar conhecer bem os instrumentos como ações, fundos multimercados, entre outros”, conta ela.

Evolução. Ana reconhece que ainda vai demorar para que os brasileiros mudem de perfil como investidores e passem a aportar mais recursos em produtos de maior risco. Mas o cenário atual pode ajudar a mudar o comportamento no curto prazo, com uma migração para a renda fixa.

O advogado recém-formado de Teresina, Piauí, Thállis Melo, começou a investir em 2015, ainda com bancos. Conforme se interessou mais por investimentos, o jovem de 23 anos começou a estudar o tema e entrou em grupos de discussão no Facebook.

Neste ano, Melo decidiu tirar seus recursos de um banco de varejo e ingressou em uma corretora, em busca de taxas de administração menores. Na corretora, ele começou a investir em produtos de renda fixa, mas agora já tem 20% da carteira em renda variável, com fundos que mixam renda fixa e variável.  

++Selic em queda: como melhorar a rentabilidade da sua renda fixa

“Fui realocando meus investimentos para fundos (multimercado, ações e de inflação) até chegar a proporção 80/20. Mas já estou estudando a Bolsa de Valores e estou me sentindo confiante para, no fim do próximo ano, estar com até 60% dos investimentos na renda variável, já que ainda sou novo e posso arriscar mais. Claro que a baixa nos juros ajudou nessa migração, mas acho que seria algo natural também”, conta ele.

O movimento de migração também chegou aos fundos. O Adam Capital zerou a posição em renda fixa no início de outubro, migrando para ações e real.

“Se mais fundos podem zerar posição? Podem, porque a Bolsa está prometendo. No entanto, é mais provável termos um movimento de redução das posições, já que os fundos multimercado estão aproveitando o fluxo positivo da Bolsa”, cita a especialista em finanças e investimentos, Betty Grobman.

Ela destaca que a rentabilidade real da renda fixa, mesmo com os juros em queda, está melhor agora do que quando a Selic estava em 14%. “Porque a inflação também recuou nesse período”, diz.

Risco. Para quem está decidido a entrar na renda variável por meio de aportes em um fundo, o planejador financeiro da Planejar, Luiz Correia, recomenda uma avaliação do gestor do fundo, para entender o comportamento dele.

“Rendimento passado não é garantia de rendimento futuro, mas saber como o gestor do fundo lida com os momentos mais desafiadores é essencial”. Ele também ressalta que, no caso de um fundo multimercado ou um fundo de ações é muito importante que o investidor saiba a composição da carteira de investimentos.

Os bons ventos no mercado doméstico de renda variável, podem não ser suficientes para garantir bons ganhos. Isso porque, além do cenário interno, os interessados em investidor em ações precisam observam com atenção a movimentação no mercado internacional.

“O resultado do mercado se deve muito ao cenário internacional, que tem ajudado. Se isso se reverter, há impacto nos ganhos da Bolsa brasileira”, explica Crespo.

O economista e autor do livro Money Boss, Marcos Silvestre, não vê os recentes recordes da Bolsa com euforia, mas acredita que, se confirmadas as expectativas de crescimento na economia, há espaço para chegar aos 100 mil pontos em 2019. Só que mais uma vez requer um prazo maior do investidor. “Não invista se está esperando aumento expressivo em dois anos. Mas para daqui a cinco anos, sim”, diz.

Para quem quer usar essa estratégia nos investimentos, ele também aconselha a investir aos poucos, ação por ação, sem recorrer aos fundos devido a taxas administrativas e para conhecer como funciona a renda variável ou comprar o BOVA 11, fundo que tem como objetivo obter uma performance próxima ao próprio Índice Bovespa. “Aconselho separar de R$ 2 a 3 mil para começar e investir R$ 200 todo mês. Sempre pensando no longo prazo”, aconselha. //COLABOROU JÉSSICA ALVES E JÉSSICA KRUCKENFELLNER

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