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Quem (não) inventou o email

PEDRO DORIA

Ray Tomlinson, que morreu aos 74 anos, sábado, após um ataque cardíaco fulminante, não inventou o email. Mas foi assim que boa parte da imprensa o caracterizou aqui e lá fora. Dá um bom título, atrai leitura e, diga-se, Tomlinson gostava de ser lembrado assim. A história real da invenção do email mostra como a internet foi, e continua sendo, bem mais complicada de criar do que parece. Nunca há um único criador. E, no caso do email, tudo começa com o irmão de um cineasta que ganhou o Oscar.

Ele se chamava Noel Morris, irmão bem mais velho do documentarista Errol Morris. Noel era um tipo meio esquisito. Falava pouco, nada sociável. Era brilhante em matemática, assim reconhecido por boa parte de seus professores e colegas no MIT (Instituto de Tecnologia do Massachussetts). Apesar disso, não conseguia se formar. Abandonava cursos, não fazia provas. Vivia com a cara metida num computador, virava noites sem dormir no dia seguinte, escrevendo linhas de código. Tinha até uma máquina em casa. Coisa raríssima: primeira metade dos anos 1960.

Morris não inventou o email sozinho. Escreveu com um colega, Tom Van Vleck. A máquina em seu apartamento era um terminal, teclado e monitor ligados pelo telefone a um dos computadores da universidade. A ideia não era original. Havia consenso entre todos que um sistema para troca de mensagens se fazia necessário. É só que, com toda a computação por ser inventada, ninguém parecia ter tempo para a tarefa.

Morris e Van Vleck, portanto, inventaram um sistema que permitia aos usuários dos computadores do MIT que trocassem mensagens. Noel morreu em 1983, mas Van Vleck está vivo. Quando descobriu a história faz poucos anos, seu irmão Errol comentou com Van Vleck. “Caramba, se vocês tivessem patenteado isso.” Ouviu a resposta presa na garganta. “É, seríamos mais ricos do que o Bill.” Gates, claro.

Nenhum de nós reconheceria o sistema original de emails. Não à toa. O sistema de correio eletrônico nasceu para o uso em redes locais, cinco anos antes de a internet ser criada. É aí que entra Ray Tomlinson. Em 1971, foi ele quem tomou a iniciativa de dar à nova rede um sistema mais adequado de mensagens. É quando o email ganhou sua arroba, por exemplo. Tomlinson escolheu o caractere menos usado do teclado que, coincidentemente, em inglês se lia “at”. A preposição “em”. Numa rede local, o endereço de cada usuário é seu nome. Numa rede de muitas redes, é preciso indicar em que servidor o destinatário se encontra. O domínio. Aquele pedaço do endereço que vem após a arroba. A segunda versão escrita por Tomlinson, no ano seguinte, ganhou os campos De, Para e Assunto.

Trata-se, porém, de uma melhoria, com novas funções, daquele sistema inicial. E, ainda assim, não é exatamente aquilo que usamos. A estrutura básica da mensagem estava lá, mas o sistema não permitia responder ou encaminhar, muito menos anexar arquivos. Foi John Vittal quem resolveu isso. “Eu estava pensando”, contou ao repórter Lyon Matthew, “que se houvesse um comando para responder, eu não precisaria digitar novamente o endereço do remetente.” Hoje, depois que fizeram, parece óbvio. O ano, 1975.

Entre o primeiro sistema de troca de mensagens e o aparecimento do reply se passaram onze anos. E, ainda assim, a Apple não existia, nem a Microsoft, e a internet demoraria 20 anos para se popularizar.

A rede é uma construção coletiva. Não é intuitivo, mas o email existe porque os primeiros que puseram as mãos nele não pensaram em patente. Tampouco os criadores seguintes. Trabalhando nas horas livres, construíram a tecnologia mais valiosa jamais criada. Pertence à humanidade.

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