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Economia

Celso Ming

Reação das commodities

Por enquanto, a natureza dos motivos do novo salto de preços ainda não é clara; Se baseia tanto na perspectiva de mudanças na política econômica da China quanto na expressiva redução dos estoques

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Celso Ming

25 Março 2016 | 21h00

As cotações do minério de ferro, um dos principais produtos brasileiros de exportação, que haviam despencado até US$ 39 por tonelada, o nível registrado dia 11 de dezembro, o mais baixo em mais de dez anos, já saltaram de volta mais de 50% (veja o gráfico).

Se existir no fundo do poço do petróleo a tal mola de que falam com intimidade os analistas do setor, certamente não atua com a mesma força da que empurrou para cima os preços do minério de ferro. Mas também as cotações do petróleo recuperaram 38% depois de terem resvalado para abaixo dos US$ 30 por barril de 159 litros em janeiro deste ano.

Essa reação dos preços do minério de ferro serviu de senha para o mercado de outras commodities cujas cotações também avançaram, embora com menos intensidade, especialmente os metais. Ainda não se vê a mesma força nas commodities alimentares, como soja, trigo e milho, mas se os fundamentos estiverem corretos, efeito parecido ocorrerá também nesse segmento.

Por enquanto, a natureza dos motivos do novo salto de preços ainda não é clara. Ela se baseia tanto na perspectiva de mudanças importantes na política econômica da China quanto na expressiva redução dos estoques.

A novidade é a de que o governo da China passou sinais de que está agora mais interessado em garantir a retomada dos investimentos e de maior crescimento da economia do que em puxar pelo consumo interno. Essa mudança de tom pode ter acontecido porque as autoridades da China devem ter ficado preocupadas com a forte retirada de capitais de sua economia. Em apenas dois meses, as reservas da China recuaram quase US$ 130 bilhões, para US$ 3,2 trilhões.

A redução dos estoques, por sua vez, tem a ver com a redução da produção em todo o mundo, especialmente pelas unidades de maior custo de produção, como é o caso do óleo e do gás de xisto nos Estados Unidos.

A principal pergunta consiste em saber se essa recuperação de preços das commodities é firme ou se é apenas um soluço episódico que logo se esgotará e trará o mercado de volta à realidade.

O que se pode dizer é que essa nova virada da economia chinesa ainda parece mais uma intenção do governo da China do que um fato consumado. É preciso dar mais tempo para ver o que será e que força terá para reativar o consumo de matérias-primas. E tem o comportamento da economia no resto do mundo. Na Europa e no Japão, a principal preocupação é a relativa estagnação. Em 2016, não devem crescer mais do que 1,3% e 0,7%, respectivamente. Nos Estados Unidos, ainda que a atividade econômica também siga em marcha lenta, pelo menos há a perspectiva de que avance algo acima de 2%, o que não é pouco.

Em segundo lugar, o tombo dos preços das commodities e os estragos no setor foram tão grandes que, por toda parte, os agentes econômicos agirão com muito mais prudência na tarefa de recompor seus estoques e isso sugere que a demanda também crescerá mais devagar, se crescer.

Do ponto de vista do Brasil, esta reação das cotações internacionais das matérias-primas é evidentemente uma coisa boa, porque aumenta o mercado externo para os produtos básicos. Mas não deve servir para mascarar o fato de que o grande boom das commodities, que perdurou de 2004 a 2013, não voltará tão cedo ao que era. Daí porque não há outra saída senão ajustar a economia e a política econômica ao fato agora soberano de que o brasileiro não será tão afortunado e tão rico quanto julgara ser.

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