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RICHARD JUILLIART|AFP

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Real fraco faz marcas de luxo segurarem preço

Presidente da Montblanc no Brasil diz que, mesmo incluindo impostos, produtos da marca no País são hoje mais baratos que nos EUA ou na Suíça

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Jamil Chade, CORRESPONDENTE,
O Estado de S.Paulo

19 Janeiro 2016 | 08h45

GENEBRA - No stand da Montblanc na principal feira de relógios de luxo do mundo, a apresentadora sequer muda o tom de voz ao anunciar o preço de R$ 1,7 milhão (395 mil euros) por um relógio, o Navigator. Mas, entre os administradores da marca, o freio no mercado dos países emergentes e a desvalorização do real estão exigindo uma adaptação às novas realidades do mercado.

Entre 2007 e 2012, o Brasil passou a ser um dos principais focos de atração do setor de luxo do mundo. Dezenas de empresas compraram espaços nos shoppings mais sofisticados do País, de olho num número cada vez maior de milionários e de uma classe média alta disposta a adquirir marcas globais.

Apesar da ofensiva, vender no Brasil era um desafio mesmo nos anos do boom. Com altas taxas de importação para bens de luxo, relógios terminavam com preços bem acima do que o comprador poderia encontrar na Europa ou nos EUA. Mas o entusiasmo era evidente entre as marcas.

Hoje, o cenário é bem diferente e basta uma visita ao Salão Internacional da Alta Relojoaria, que abriu suas portas ontem em Genebra, para entender que o Brasil não está mais na lista de prioridades.

Alain dos Santos, CEO da Montblanc no Brasil, não esconde: a queda na economia nacional está tendo um impacto direto no setor do luxo. Mas sua empresa decidiu que iria se adequar aos novos tempos e, hoje, vende seus relógios e canetas de luxo com preços mais baixos que Miami ou Genebra. “Temos de nos adaptar, fazer os planos de negócios sobre a realidade de hoje”, disse o executivo em entrevista ao Estado.

Segundo ele, já em 2013 a empresa sentiu os principais sinais “preocupantes” em relação ao Brasil. “Mas em 2015 ficou realmente difícil. A realidade é que o mercado foi abalado e o custo Brasil piorou”, disse.

Ele aposta que os símbolos e empresas mais tradicionais do luxo, e que já estavam presentes há anos no Brasil, vão resistir. “As empresas que chegaram por último serão as primeiras a sair. O mercado vai diminuir ainda mais. Mas vamos ganhar espaço de mercado”, aposta.

A sobrevivência foi adequar os preços, justamente para que a desvalorização do real não tornasse inviável a venda dos produtos. “Os brasileiros costumavam comprar fora os produtos. Em 2012, tentamos incentivar o consumo local, reduzindo os preços e sacrificando a margem de lucro”, explicou. Em 2015, a desvalorização acelerada da moeda brasileiro exigiu uma nova estratégia.

“Nosso preço em real deveria ser reajustado a cada mês. Mas não o fizemos. Foram apenas dois reajustes em 2015”, explicou. “Hoje, nosso produto no Brasil é mais barato que na Suíça ou Miami, isso já incluindo o imposto. Nesse aspecto, 2016 é uma oportunidade, porque as marcas mais consolidadas vão se fortalecer”, insistiu. Fundada em 1906, a Montblanc passou a produzir relógios apenas a partir de 1997.

China. O Brasil, porém, não é a única preocupação das marcas de luxo. Em 2015, pela primeira vez desde 2008 quando eclodiu a pior crise econômica desde 1929, o grupo Richemont registrou uma queda nas vendas dos meses de Natal.

Dono das marcas Cartier, IWC Schaffhausen e da própria Montblanc, o grupo sentiu o freio nas economias asiáticas, sobretudo na China. No terceiro trimestre de 2015 – período das vendas para o Natal – a renda do grupo caiu em 4%. Só para Hong Kong, porta de entrada para a China, a redução foi de 28%.

Para compensar, o grupo já estuda alternativas, como a ampliação de sua presença em Angola, Marrocos e no Irã, que viu o fim de sanções econômicas por parte dos europeus nos últimos dias.

O Burberry Group, que controla uma série de marcas de luxo, também apontou para a queda nos resultados na semana passada. Na França, a venda de produtos de luxo sofreu uma redução de 14% em 2015, com um total de US$ 20 bilhões. Os atentados terroristas afastaram centenas de clientes dos países emergentes das lojas de Paris.

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