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Recuo do dólar deve ter fôlego curto

Possibilidade de saída da presidente Dilma fez moeda americana deixar patamar de R$ 4, mas, para especialistas, retração dos últimos dias será passageira

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Gustavo Porto,
O Estado de S.Paulo

05 Março 2016 | 17h03

A antecipação de uma eventual ruptura política capaz de derrubar o governo de Dilma Rousseff esteve por trás do movimento de queda do dólar observado na semana passada. Os especialistas avaliam que o recuo não tem fôlego para continuar no mesmo ritmo, mas também não esperam uma volta do dólar aos patamares mais altos. E começam a discutir os impactos de uma taxa de câmbio ligeiramente mais valorizada.

Uma das expectativas é de que o Banco Central atue para evitar perdas acentuadas da moeda norte-americana, o que seria possível com o desmonte do programa de swaps cambiais, por meio do qual tem se mantido a liquidez em moeda estrangeira no mercado. Isso preservaria o setor de comércio exterior, que tem mantido a melhor performance em meio à crise econômica. A cotação oficial da moeda norte-americana recuou 5,82% na última semana, passando de R$ 4 no dia 26 de fevereiro para R$ 3,77 na última sexta-feira.

“Como o BC pode deixar ocorrer essa volatilidade, quando taxa de juros em dólar é baixíssima, quase zero? Um exportador que não travou a taxa de câmbio nesses dois dias está frito”, afirmou o especialista em câmbio e sócio da Tendências Consultoria, Nathan Blanche.

Já o diretor de Pesquisa Econômica da GO Associados, Fábio Silveira, acredita que o dólar não vai voltar para R$ 3,50 e argumenta: “O Banco Central até deixa o câmbio flutuar, mas tem limite, pois o único setor que está minimamente bem é o externo”, disse. “O governo não vai comprar briga com o talvez último torcedor da arquibancada. Além disso, é só esperar a próxima reduzida de rating brasileiro para ver aonde o dólar vai parar”, completou.

O entrave para a atuação do Banco Central, no entanto, pode ser o alívio que a queda da moeda norte-americana pode trazer à inflação. O economista da Bozano Investimentos, Samuel Kinoshita, explica que, se mantida, a recente queda da moeda norte-americana em reação ao noticiário político reduz as expectativas inflacionárias e pode viabilizar um corte nos juros pelo Banco Central. Enquanto isso, os indicadores de confiança de empresas e famílias melhorariam e os investimentos poderiam voltar a crescer relativamente rápido.

Conjuntura. Para os especialistas, a questão conjuntural é a que mais pesa nas perdas recentes da moeda norte-americana. “A evolução recente do preço dos ativos embute o sinal da precificação de um novo cenário, com um governo capaz de encaminhar e aprovar medidas benéficas ao País, como aquelas que contribuem para a estabilização da trajetória da dívida e da modernização do setor público e da economia”, avaliou o economista e professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FEA-RP/USP) Alex Ferreira.

Ele concorda que o movimento recente do câmbio já precifica qualquer probabilidade de um novo governo tomar posse no Brasil e ainda acrescenta outra análise: “Qualquer fagulha de uma possível mudança no governo, com os índices baixos de aprovação da presidente Dilma, é refletida nos preços”, analisou o professor.

Na avaliação de um gerente de operações de um grande banco, “o mercado antecipa os fatos e, atualmente, a aposta é de que o governo se fragilizou muito com a delação de Delcídio (senador Delcídio Amaral) e a 24.ª fase da operação Lava Jato. A leitura é de que isso causa volatilidade, mas é positivo no médio prazo”.

Sinal. Ainda assim, Blanche, da Tendências, aponta que o movimento de desvalorização da moeda norte-americana é um “sinal emitido pelo mercado de que o câmbio estaria fora do lugar em caso de mudanças nas gestões econômica e política” do País.

Blanche atribui a desvalorização do dólar registrada nos últimos dias principalmente aos movimentos especulativos e ressalta que não há fôlego para recuos, na mesma magnitude, no curto prazo. “O dólar não vai cair mais. Esse movimento não é estrutural. São bancos e fundos cambiais fazendo posição de curto prazo”, afirmou Blanche. / COLABORARAM CRISTINA CANAS, MÁRIO BRAGA E ÁLVARO CAMPOS

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