Recuperação sustentável?

Recuperação sustentável?

Ministro da Fazenda garante restabelecimento da economia e acena com crescimento do PIB de 3,0% em 2018, mesmo com as turbulências políticas; dá para apostar no descolamento entre crise política e crise econômica?

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

13 Setembro 2017 | 21h00

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, passa ao largo ou finge que passa ao largo do impacto das novas denúncias que envolvem o presidente Temer, das novas prisões e de outros desdobramentos da Operação Lava Jato. Garante ele que a recuperação da economia é sustentável e acena com crescimento do PIB em 2018 para até agora inimagináveis 3,0%.

Dá para apostar nesse descolamento entre crise política e crise econômica? E até que ponto os indícios de que a recessão ficou para trás são confiáveis e devem ser levados a sério?

Ninguém ignora que a  instabilidade política e o enfraquecimento do governo são fatores que tiram eficácia da política econômica e criam insegurança. Portanto, montam esquema prejudicial para os negócios e para o investimento. No entanto, seja porque a recessão foi longa e profunda demais, seja porque o brasileiro se acostumou, digamos assim, com as lambanças políticas, o fato é que, desta vez, passou a ser preciso mais do que puramente crises seguidas no governo para tirar a economia da trajetória em que está.

Em parte, esse descolamento é favorecido pela economia global que opera com crescimento lento, mas firme, em ambiente de juros baixos e enorme abundância de recursos. Alguns dos fatores que beneficiam a economia das maiores potências (Estados Unidos, União Europeia, China e Japão) também estão presentes por aqui. A inflação baixa e os juros em queda estão entre eles. É também o que atiça o consumo, porque uma inflação abaixo dos 3% em 12 meses preserva a renda. Não é à toa que, hoje, a maior tração da economia está no consumo de produtos duráveis (veículos e aparelhos domésticos), sinal de volta da confiança e maior procura por crédito.

Não dá para tirar importância do excelente desempenho das contas externas. O déficit de transações correntes (entradas e saídas de moeda estrangeira com mercadorias, serviços e transferências, menos entrada de capitais) está se estreitando e vai sendo largamente coberto pelo Investimento Direto no País. O colchão de reservas é de US$ 370 bilhões (25 meses de importação) e não há corrida ao dólar, como nas crises do passado. Contas robustas passam segurança.

Esses são elementos que dão sustentação ao anúncio de Meirelles sobre a recuperação da economia. A esta altura, apostar em que 2018 apresente um avanço do PIB próximo dos 3,0% não é ousadia demais. O PIB já caiu tanto que é mais provável que se recupere do que continue afundando.

O lado vulnerável está concentrado no flanco fiscal. As contas públicas estão em estado lastimável. O que dá alguma esperança de reversão – não agora, mas dentro de certo tempo –  é a determinação do governo de arrancar do Congresso algum nível de reforma da Previdência Social, ainda neste ano. Mas esse aí é o âmbito da política propriamente dita. A dúvida é se o governo Temer, na fragilidade em que se encontra, terá capital político para impor o seu jogo.

Há ainda os desdobramentos da Lava Jato, as surpresas do Judiciário e os tais imponderáveis com que sempre contava nos anos 40 o senador Benedito Valadares. Mas vá saber em que pratos da balança podem ser colocados fatores assim, impossíveis de serem medidos.

CONFIRA

» Recuo nos serviços

O que acontece nos serviços é importante para avaliar o comportamento da economia porque o setor tem peso superior a 70% no PIB. Os números divulgados hoje são de julho e mostram queda de 0,8%, em volume, em relação ao mês anterior. Esse resultado mais fraco não chega a comprometer a recuperação. O setor de serviços responde mais devagar porque está fundado no aumento da renda e está pouco exposto ao crédito. É esperar mais alguns meses para conferir como reage o setor.

 

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