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Retrato do futuro

Perspectivas são de mais contração no PIB e alívio nos juros e na inflação

José Paulo Kupfer

Dois eventos importantes estão anotados na agenda desta primeira semana de março. Tanto a definição da nova taxa básica de juros, prevista para amanhã, quanto a divulgação da variação do PIB de 2015, no dia seguinte, são elementos interligados que ajudarão a compor um quadro mais nítido do que esperar da economia ao longo deste 2016 de alta tensão no ambiente político.

Já não há divergências em relação ao nível a que desceu a atividade econômica em 2015. A desaceleração foi muito forte, a mais acentuada em duas décadas e meia, configurando uma contração entre 3,5% e 4%. Salvou-se o lado externo, que produziu exportações líquidas positivas, não em função de um aumento nas vendas externas, mas em razão de um pesado recuo das importações. Não fosse por isso, a retração do PIB atingiria inéditos e espantosos 5% a 6%.

O que a revelação do desempenho medido da economia deve trazer de informação mais nova para a projeção do PIB de 2016 e outros indicadores é o ritmo em que a atividade andou para trás no último trimestre do ano passado. Boa parte do chamado “carregamento estatístico” que influenciará o resultado deste ano dependerá do tamanho do tombo registrado no período. Como a dinâmica econômica não obedece ao ano-calendário, há sempre um natural transbordamento da expansão ou da retração do nível de atividade dos últimos meses de um ano para os primeiros meses do seguinte, assim como ocorre entre trimestres dentro do mesmo ano.

Há indicações de que o desempenho da economia, no período outubro/dezembro, foi pelo menos tão ruim quanto o do trimestre anterior, quando a atividade recuou 4,3%, ante igual período de 2015. Uma contração desse porte faz pressupor que o impulso para baixo transferirá ao PIB de 2016 retração de pelo menos 2%. Significa que, mesmo na hipótese do estancamento da trajetória de queda no começo do ano, o resultado em fins de 2016 apontaria novo recuo da atividade. 

Como a perspectiva mais otimista só vislumbra o início de uma reversão positiva em meados do ano, projeções de nova queda do PIB perto de 4% foram ganhando força à medida que os indicadores de atividade do último trimestre de 2015 confirmavam que a descida da ladeira estava longe de perder fôlego. Explica-se assim por que a mediana das previsões do Boletim Focus, do fim de outubro do ano passado ao fim de fevereiro deste ano, tenha levado a variação do PIB em 2016 de um recuo de 1% para uma queda de 3,45%.

É nesse quadro deprimido, com a economia podendo acumular um encolhimento de 8% em apenas dois anos, que as chances da promoção de alguma alta da Selic saíram do radar. Ao mesmo tempo em que se consolidou o consenso de que a taxa ficará ainda por um bom tempo nos 14,25% ao mês em que se encontra desde fins de julho, as dissensões de deslocaram agora para o momento em que o Banco Central vai começar a reduzir os juros.

Há quem entenda que esse movimento poderá ter início já em meados do ano, enquanto para outros só começará a ocorrer em 2017. A valer o resultado mediano dos analistas consultados pelo Boletim Focus, esta última hipótese é a mais provável, mas analistas de peso, como os do departamento de pesquisas macroeconômicas do Itaú, imaginam inversão no ciclo dos juros básicos a partir de agosto, com três cortes de 0,5 ponto e fechamento do ano em 12,75%.

Tal expectativa está vinculada à ideia de que, com a possível dissipação dos aumentos nos preços dos alimentos e no item educação, típicos do começo do ano, em conjunto com a acomodação das tarifas de energia e do transporte publico, surgirá um espaço para aliviar os juros. Existem, porém, riscos para essa trajetória mais benigna, que derivam da rapidez com que se aprofunde a deterioração fiscal, atingindo o mercado cambial e pressionando as cotações do dólar.

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