Rumo à meta de 4%?

Fragelli, da EPGE/FGV, prefere que meta seja mantida em 4,5% para 2019

Fernando Dantas*, O Estado de S.Paulo

21 Abril 2017 | 05h00

Em junho, o Conselho Monetário Nacional (CMN) decidirá qual será a meta de inflação de 2019. Desde 2005, a meta está fixada em 4,5%, mas agora há alguma expectativa de que possa ser baixada. Há uma corrente de economistas experientes em política monetária que considera que a meta deveria ser reduzida para 4%. Outra possibilidade seria um meio termo de 4,25%.

Os defensores da meta de 4% para 2019 têm como premissa básica que o custo de levar o IPCA, o índice oficial da meta, a esse nível já foi pago. Em outras palavras, a recessão gigantesca que atingiu o Brasil desde 2014 e causou profundos males teve, por outro lado, o efeito de “quebrar a espinha dorsal” das pressões inflacionárias, como costuma dizer o presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn.

Somada à recuperação da credibilidade do BC na gestão de Ilan, a recessão já colocou as expectativas de inflação rumando para os 4%. A mediana das projeções de inflação para 2018 e 2019 do mercado já aponta, respectivamente, 4,39% e 4,25% – abaixo, portanto, da meta de 4,5% que está fixada para 2017 e 2018. A aposta é que essas expectativas possam cair ainda mais até a decisão do CMN em junho.

Em suma, a ideia é que o BC provavelmente não precisará fazer nenhum esforço adicional em termos de apertar os juros, porque a inflação e as expectativas para 2019 devem comportadamente se dirigir para os 4%.

Para os defensores da redução da meta, mantê-la em 4,5% para 2019 vai fazer com que as expectativas aumentem muito rapidamente. Isto é, as projeções do IPCA para 2018 e 2019 subirão na direção de 4,5%.

Num plano mais geral, os defensores da redução da meta de 2019 consideram que o nível atual de 4,5% do sistema brasileiro (com margem de erro de 1,5 ponto porcentual para cima e para baixo) é muito elevado. Internacionalmente, países mais avançados tendem a ter metas de inflação em torno de 2%, e os emergentes em torno de 3%.

Uma inflação mais baixa, naturalmente, é associada pela maioria dos economistas a muitas vantagens, como um ambiente econômico mais estável e no qual a informação relevante contida nos preços, sobre as diferenças reais no valor dos produtos, é melhor transmitida. Assim, se o “custo” de levar a inflação para 4% já foi pago, e o objetivo (de longo prazo) é chegar a 3%, não faria sentido empurrá-la de volta para 4,5%.

Nem todo mundo concorda com essa visão, entretanto. Mesmo entre os economistas de inclinação mais ortodoxa, há aqueles que consideram que é melhor manter a meta de 4,5% para 2019.

Renato Fragelli, professor da Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas no Rio (EPGE/Rio), não tem a menor dúvida de que inflação mais alta não traz maior crescimento no longo prazo, e de que existem muitas vantagens em ter inflação mais baixa.

Ainda assim, ele prefere que a meta de inflação seja mantida em 4,5% em 2019. Para Fragelli, o Brasil está vivendo uma recessão de um nível de profundidade inédito, com efeitos dramáticos no emprego e na arrecadação tributária. Dessa forma, ele gostaria de ver as mãos do BC o mais desamarradas possível para a tarefa de estimular a economia por meio de cortes agressivos da Selic, a taxa de juros básica.

“A meta já foi alcançada, estamos abaixo dela para este ano e acho bom que neste momento o BC tenha muito pouca preocupação com estouros da meta – mais adiante, no futuro, podemos pensar em reduzi-la”, diz Fragelli. O economista lembra também que alguns fatores que contribuíram para derrubar fortemente a inflação este ano, como os alimentos e o câmbio, podem não estar presentes um pouco mais à frente.

O CMN em junho terá que tomar a sua decisão. Ao menos trata-se de uma boa discussão, tanto por ser motivada por um fato positivo, a queda da inflação, como por trazer argumentos razoáveis de ambos os lados.

*Colunista do Broadcast e consultor do IBRE/FGV

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