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Rumo ao Oriente

As maiores operadoras de cruzeiros do mundo estão chegando em peso aos principais portos da China

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The Economist

16 Janeiro 2016 | 05h00

Passado o ano-novo, o segmento de cruzeiros se prepara para a “wave season” – uma espécie de alta temporada, compreendendo os três primeiros meses do ano, em que quase um terço de todos os pacotes marítimos são fechados. Vai ser difícil melhorar os resultados de 2015. Em 18 de dezembro, a Carnival, maior operadora de cruzeiros do mundo, com fatia superior a 40% de um mercado que movimenta, em termos globais, US$ 40 bilhões ao ano, anunciou ter obtido lucros recordes, em 12 meses, de US$ 2,1 bilhões. O número, que representa alta de 40% em relação ao resultado de 2014, foi viabilizado pela demanda aquecida e pela baixa dos preços dos combustíveis. A armadora integra, junto com a Royal Caribbean Cruises (RCL) e a Norwegian Cruise Line (NCL), o trio de gigantes que controla cerca de 80% do setor.

Agora, receando que em alguns países ricos a demanda por cruzeiros já não tenha muito espaço para crescer, as três operadoras apostam suas fichas no mercado de maior potencial do mundo: a China. Apesar de a Carnival ter um navio estacionado na China continental desde 2006 – o Costa Allegra –, foi só no ano passado que o trio começou a pensar seriamente em transferir para lá parte da frota usada para atender os Estados Unidos e a Europa.

Neste ano, a Carnival pretende aumentar de quatro para seis o número de navios fundeados em portos chineses. Em outubro de 2015, a armadora anunciou a formação de uma joint venture com um estaleiro chinês e o fundo soberano China Investment Corporation: será a primeira operadora de cruzeiros focada no mercado doméstico chinês. A RCL, que em 2014 mantinha três navios estacionados na China, agora tem quatro embarcações para atender os turistas do país e pretende acrescentar uma quinta nos próximos meses. O plano da NCL, que está atrasada em relação às concorrentes, é entrar no mercado chinês em 2017.

A Carnival e a RCL já não despacham para a China navios que envelheceram transportando turistas americanos e europeus. Atualmente, suas linhas chinesas são operadas com o que elas têm de melhor e mais avançado, como o Quantum of the Seas, da RCL, um meganavio, capaz de transportar 4.180 passageiros, que desde 2015 tem sua base em Xangai.

A Carnival deposita tantas esperanças na China que recentemente transferiu seu diretor de operações, Alan Buckelew, para Xangai, de onde ele vai supervisionar a expansão na companhia no país asiático. Segundo a consultoria Oxford Economics, nos últimos dez anos o número de famílias chinesas com renda anual superior a US$ 35 mil – nível a partir do qual, pelos cálculos dos analistas do segmento, o turismo internacional deslancha – passou de 6 milhões para mais de 27 milhões. O número de turistas chineses (excluindo os habitantes de Hong Kong) que embarcam em navios de cruzeiro – uma maneira relativamente descomplicada de viajar para o exterior pela primeira vez – vem aumentando cerca de 80% ao ano, e a expectativa é que, mesmo com a desaceleração do PIB do país, esse ritmo se mantenha. O último plano quinquenal do governo chinês inclui, como parte da estratégia destinada a reequilibrar a economia do país, direcionando-a mais para o consumo, o objetivo de estimular o segmento de cruzeiros, incentivando, simultaneamente, a construção local dos navios usados pelas armadoras.

O mercado chinês também é excepcionalmente lucrativo. Isso se deve, em parte, às diárias mais elevadas que podem ser cobradas nos minicruzeiros, com duração entre quatro e seis dias, que são os preferidos na China. Mas também é consequência do fato de que, uma vez a bordo, os chineses gastam mais prodigamente que os passageiros de outras nacionalidades. Não se empolgam tanto, como americanos e britânicos, com os bares e spas oferecidos a bordo. Seu barato são os cassinos. E torram rios de dinheiro nas lojas dos navios, adquirindo utilidades domésticas importadas, por exemplo. Uma mania recente nos navios chineses da Carnival foram as panelas japonesas de fazer arroz, diz Buckelew.

O número de famílias chinesas com renda anual superior a US$ 35 mil
Se a desaceleração econômica da China se intensificar, ou se o interesse dos consumidores chineses pelos cruzeiros não for mais que moda passageira, as operadoras arriscam-se a ficar com excesso de capacidade instalada e ver suas margens se estreitarem. Mesmo assim, apostar na expansão do turismo chinês parece mais promissor do que continuar concentrando a atenção nos principais mercados do Ocidente.

As reservas europeias foram prejudicadas pelos recentes atentados terroristas na França e no norte da África, informa Greg Badishkanian, analista do segmento de cruzeiros do Citigroup. E na Grã-Bretanha, o número de passageiros vem caindo desde 2013, já que, nos últimos anos, as pessoas que se aposentam, e que constituem o principal filão das operadoras de cruzeiros, têm uma fatia de renda disponível menor que os aposentados da geração anterior, os quais, por sua vez, já estão velhos demais para viajar. Os planos futuros das três grandes operadoras de cruzeiros indicam que elas chegaram à conclusão de que o mercado americano está saturado e não oferece boas perspectivas. Segundo Robin Farley, analista do banco UBS, o ano de 2017 pode registrar o primeiro recuo de que se tem notícia na capacidade de atendimento das linhas de cruzeiro nos Estados Unidos. Por ora, a decisão de apontar a proa para a China é uma escolha. Mas pode se tornar uma necessidade.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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