Ramiro Furquim/Estadão
Ramiro Furquim/Estadão

Santa Catarina se destacou na gestão da crise

Pacote de medidas equilibrou contas, mas insegurança jurídica trava investimentos

Anna Carolina Papp, enviada especial, O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2017 | 05h00

FLORIANÓPOLIS - Diante do deteriorado quadro fiscal dos Estados brasileiros, Santa Catarina aparece como um ponto fora da curva. Com um pacote de medidas anticrise, o Estado conseguiu, mesmo em meio à recessão, manter as contas em ordem e aumentar sua competitividade. No entanto, apesar de se destacar em áreas como gestão pública, segurança e inovação, o governo catarinense ainda enfrenta grandes desafios – como vencer a insegurança jurídica e fomentar mais os investimentos. Esses foram os temas discutidos no Fórum Regional Estadão Santa Catarina, promovido pelo Estado, em Florianópolis.

Entre as medidas adotadas durante as “vacas magras”, destaca-se a decisão de não aumentar impostos, apesar da queda significativa na arrecadação. “Não subimos o ICMS sobre energia elétrica, gasolina ou comunicação. Também adiamos a implementação de pedágios. Estendemos as oportunidades para que o setor produtivo reagisse”, afirmou no evento o governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo.

Outras estratégias utilizadas, explicou o secretário da Fazenda, Renato Lacerda, foram a renegociação da dívida do Estado e a reforma do sistema de previdência estadual – o calcanhar de aquiles das finanças públicas do País. “O déficit da Previdência nos Estados é um problema muito mais grave do que no governo federal”, observou Adriana Fernandes, repórter especial e colunista do Estadão/Broadcast.

O governo limitou pensões ao teto do INSS e aumentou a alíquota previdenciária dos servidores. Ela passou de 11% para 12% no ano passado, foi a 13% este ano e completa sua transição no ano que vem, em 14%. “Em nossa reforma, conseguimos incluir os militares e todos os Poderes, o que mostrou a maturidade dos órgãos do serviço público”, disse o governador.

Ainda no sentido de equilibrar as finanças públicas, relatou Colombo, foram fechadas, neste ano, cinco empresas públicas. “Fizemos um plano de demissão incentivada de mais de 800 servidores. Hoje, temos o menor número de cargos comissionados do País. Fomos, em etapas, diminuindo a estrutura do Estado.”

O economista, especialista em contas públicas, Raul Velloso, da ARD Consultores Associados, apresentou um estudo comparativo sobre as finanças públicas nos Estados de Santa Catarina, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Norte e Goiás. Ele pontuou que, embora Santa Catarina tenha a menor fatia do orçamento comprometida entre os cinco Estados, a margem para investimentos ainda é muito limitada. “Os outros Estados podem aprender muito com Santa Catarina, que não fez nada de excepcional – fez o feijão com arroz. O mais difícil é explicar por que os outros não fizeram.”

Competitividade. Ao longo dos últimos seis anos, Santa Catarina saltou seis posições no ranking de competitividade dos Estados, elaborado pelo Centro de Liderança Pública, em conjunto com a Tendências Consultoria Integrada e a Economist Intelligence Unit. Em uma escala que vai de 0 a 100, a nota do Estado aumentou de 74,3 para 77,2 em 2017, ultrapassando o Paraná e ficando atrás apenas dos 87,8 alcançados por São Paulo. A média nacional ficou em 47,9. Dos dez pilares levantados no ranking, Santa Catarina lidera em dois: segurança pública e sustentabilidade social – ambos com nota máxima. O Estado aumentou a pontuação em cinco quesitos (segurança pública, infraestrutura, capital humano, potencial de mercado e solidez fiscal), porém recuou em quatro: educação, sustentabilidade ambiental, inovação e eficiência da máquina pública. “As finanças públicas não estão entre as mais críticas, porém inspiram cuidados”, ressaltou Adriano Pitoli, sócio-diretor da Tendências Consultoria Integrada.

Na outra ponta, porém, o Estado foi destaque negativo no quesito eficiência do Judiciário, ficando apenas na 24.ª colocação. “Santa Catarina tem uma das maiores taxas de congestionamento do Judiciário do País. Isso causa insegurança e trava novos investimentos”, observa Pitoli. Outro desafio está em um ponto-chave na área de bem-estar social: o saneamento básico. Em 2015, o Estado tratava apenas um quarto do seu esgoto. “A solução é muito clara e está encaminhada: fazer a concessão de sua companhia de saneamento”, afirma Pitoli. “É mais uma decisão política do que uma questão técnica mais complexa.”

Ele observa que, para crescer, o Estado não poderá se apoiar em receitas antigas. “As forças que vão movimentar a economia são muito diferentes das que se destacaram nas últimas décadas”, afirma Pitoli. “O agronegócio e a indústria dificilmente darão a mesma contribuição para o Estado como no passado”, afirmou, destacando a importância do fomento a polos tecnológicos e do investimento em infraestrutura, com políticas sustentáveis. “As boas práticas pressupõem planejamento estratégico e orçamento”, afirmou Fábio Gallo, professor de finanças da FGV-SP. “Queremos um Estado que caiba no Estado, com controle de execução e menos burocratização.”

 

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Infraestrutura de Santa Catarina preocupa empresários

Documento divulgado nesta segunda-feira, dia 11, pela Fiesc apontou que apena sem rodovias é necessário investir R$ 2,85 bilhões

Sandra Regina Carvalho, enviada especial, O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2017 | 05h00

FLORIANÓPOLIS - A Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc) lançou ontem a Agenda Estratégica da Indústria para Infraestrutura de Transporte e a Logística Catarinense 2018. O documento, uma radiografia das necessidades do Estado, foi de encontro à preocupação manifestada por autoridades, especialistas e executivos no Fórum Regional Estadão Santa Catarina.

No evento, o presidente da Fiesc, Glauco Côrte, disse que a falta de investimentos em infraestrutura no Estado “talvez seja o principal gargalo” para que Santa Catarina possa aumentar sua produtividade e competitividade. “Nossa infraestrutura tem recebido baixíssimo investimento sobretudo do governo federal no setor de transporte. Aliás, o governo federal até hoje investiu zero em rodovias em Santa Catarina. O pouco que nós temos são investimentos privados.” O documento divulgado ontem pela federação apontou a necessidade de R$ 2,85 bilhões em investimentos apenas em rodovias.

Para Osmari de Castilho Ribas, diretor superintendente administrativo da Portonave, primeiro terminal privado do País, as condições de acesso rodoviário, as condições de aspectos aquaviários podem ser inibidores do processo de crescimento. “Teremos limitações e obviamente isso trará consequências para toda a cadeia e precisamos levar produtividade para sermos competitivos’, disse. “Os terminais e os portos não competem somente entre si, mas numa cadeia global e ao final e ao cabo o produto brasileiro carrega aí um custo que nós precisamos melhorar.”

Ribas destacou, porém, que a empresa viu potencial para investir em Santa Catarina pelas boas condições de instalação, apesar de algumas restrições operacionais.

O gerente-geral da unidade da ArcelorMittal Vega, em São Francisco do Sul, Sandro Sambaqui, também presente no evento, citou a questão da infraestrutura ao ser questionado como gostaria de encontrar o País ao acordar após as eleições de 2018. “Gostaria de acordar e ver que tudo que fosse feito em infraestrutura neste País seria um projeto do País e não de governantes. Que a cada quatro anos não sejam mudadas as prioridades nem a vontade de crescer .”

Com relação à escolha do Estado para a instalação de uma das unidades da siderúrgica, o executivo lembrou a força do norte catarinense na indústria, com potenciais fornecedores, eliminando a dependência com equipamentos importados ou prestadores de serviços de outros Estados.

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Exportação de carne se recupera, mas com restrições

Segundo produtores, vendas de frango e suínos têm aumentado, mas controle externo ficou mais rigoroso depois da Carne Fraca

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2017 | 05h00

Depois de um início de ano turbulento por causa da Operação Carne Fraca, deflagrada pela Polícia Federal, em março, os produtores de Santa Catarina devem terminar 2017 com recuperação das exportações de carne suína e de frango. Até outubro, a venda de carne de aves havia crescido 13,7% e a de carne suína, 21,5%. Santa Catarina é o maior produtor de carne suína do Brasil e o segundo maior de frango.

Com a operação da Polícia Federal, os produtores locais sofreram um revés, que foi se dissipando no decorrer dos meses. “No momento da divulgação, os mercados externos se retraíram e suspenderam as importações. Mas o Ministério (da Agricultura e Pecuária) agiu rapidamente para mostrar que não havia problema com a qualidade do produto nacional”, afirmou o diretor executivo do Sindicato das Indústrias de Carnes e Derivados de Santa Catarina (Sindicarne), Ricardo de Gouvêa.

Apesar de os volumes terem sido retomados, segundo os produtores, as exportações têm sofrido algumas restrições. “A relação de confiabilidade mudou”, disse o diretor do Sindicarne. Gouvêa explica que, antes da Operação Carne Fraca, os importadores faziam uma fiscalização por amostragem. Hoje, fazem de quase tudo que importam. “O tempo de desembaraço do produto lá fora aumentou consideravelmente. Eles continuam comprando, mas fazem uma série de exames na carne. O processo mudou.”

Mesmo assim, o presidente da Associação Catarinense de Criadores de Suínos, Wolmir de Souza, que representa 25 produtores, afirma que o assunto Carne Fraca está superado. “Atualmente, temos outras questões para nos preocupar, como as restrições impostas pela Rússia à carne bovina e suína do Brasil. A medida está valendo desde 1.º de dezembro e pode afetar a produção catarinense, se o embargo persistir.”

O serviço veterinário e fitossanitário da Rússia detectou na carne exportada substâncias e estimulantes para o crescimento da massa muscular dos animais. Por ora, afirma Souza, a medida não afeta a produção do Estado uma vez que o país europeu reduz – ou praticamente zera – as importações nessa época do ano por causa do inverno rigoroso. “Nessa época, o mar congela e os navios não conseguem atracar nos portos.”

De qualquer forma, a medida tem reflexo negativo, uma vez que traz incertezas para o setor. O resultado é que os produtores acabam vendendo o animal antes do planejado e inundam o mercado, provocando uma superoferta, explica Souza. Ou seja, os preços caem e a rentabilidade diminui.

Peso na economia. O setor de carnes tem grande relevância no Estado. Qualquer alteração afeta de forma significativa a economia local. Segundo o secretário de Agricultura de Santa Catarina, Airton Spies, o agronegócio representou 29% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado no ano passado, sendo que o setor de carnes responde por 60% do agronegócio. “A força da proteína animal é muito grande no Estado”, afirma o secretário, destacando que o setor ajudou Santa Catarina durante a crise do País. “Não tivemos nenhum ano com PIB negativo e hoje nossa taxa de desemprego é de apenas 6,3%.” Na avaliação dele, uma das explicações é o volume de exportação. O agronegócio, diz o secretário, representa 61% das exportações de Santa Catarina. “Somos uma economia globalizada.”

O diretor executivo do Sindicarnes lembra que na época da Carne Fraca, embora apenas uma unidade do Estado estivesse envolvida no escândalo, todo o setor teve a credibilidade arranhada. A questão afetou a reputação do processo de fiscalização e inspeção feito por órgãos do governo federal. “Hoje, em termos de mercado, apenas duas ou três nações não retomaram as importações do Brasil. Mas são países pequenos.”

Em compensação, diz Gouvêa, outros mercados foram abertos, compensando as perdas. No fim de novembro, o mercado catarinense comemorou a decisão das Filipinas de voltar a importar carnes do Brasil. O Estado é o maior fornecedor brasileiro de carne suína e de frango para o país asiático, que suspendeu as importações do Brasil por preocupações sanitárias. A medida foi tomada logo após os Estados Unidos proibirem a compra de carne bovina in natura do Brasil em junho, após vários carregamentos não passaram no controle de qualidade americano.

Gouvêa destaca ainda que o mercado japonês também tem sondado a carne catarinense. “Eles já vieram para cá, fizeram vários exames e atestaram a qualidade do produto do Estado.”

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Investimentos modernizam portos de Santa Catarina

Ao lado dos portos públicos tradicionais, a iniciativa privada levantou dois grandes terminais no Estado

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2017 | 05h00

Com mais de 500 quilômetros (km) de costa litorânea, Santa Catarina recebeu nos últimos anos investimentos bilionários do setor portuário. Ao lado dos tradicionais portos públicos de Itajaí e São Francisco do Sul, a iniciativa privada decidiu levantar dois grandes terminais especializados na movimentação de contêineres: Portonave e Itapoá, hoje na lista dos mais modernos e eficientes do País.

Os empreendimentos foram estruturados em meados dos anos 2000, no primeiro mandato do governo Lula. Na época, o setor enfrentava enormes gargalos nos portos administrados pelo poder público, o que incentivou uma onda de investimento em terminais privados. O primeiro a ser construído no Estado foi a Portonave, um empreendimento idealizado pelo empresário Agostinho Leão, em 1998, ao lado do Porto de Itajaí.

O projeto tornou-se viável apenas em 2005 com a formação do consórcio Portonave, formado por um conjunto de empresas, entre elas a Triunfo Participações e Investimentos, que vendeu recentemente sua participação para a suíça Terminal Investment Limited (TIL), por R$ 1,3 bilhão. Em 2016, o terminal teve um crescimento de 34% na movimentação de contêineres e, neste ano, o desempenho também tem sido bastante positivo.

“Completamos dez anos de operação e tivemos, até o momento, um resultado otimista. A Portonave é o segundo maior movimentador de contêineres do País, com 11,5% do total nacional”, afirma o diretor-superintendente administrativo, Osmari de Castilho Ribas. Mas o terminal tem concorrência de peso no Estado, com forte apetite para crescer e ampliar a participação no mercado.

Inaugurado em 2011 na Baía da Babitonga, em frente ao Porto de São Francisco do Sul, Itapoá já iniciou investimentos de R$ 1 bilhão na ampliação do terminal. A capacidade atual de 500 mil teus (medida padrão de um contêiner de 20 pés) deve chegar a 1,2 milhão de teus até 2018. “Iniciamos as obras em novembro do ano passado porque estávamos operando no limite”, afirma Cassio Schreiner, presidente do porto, que tem como sócio grupos como a multinacional Hamburg Süd e Log-Z Logística. Segundo ele, o terminal tem conseguido conquistar até carga do Rio de Janeiro por causa de tempo menor no embarque das mercadorias, além de cargas de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

A primeira fase das obras de ampliação do terminal foi concluída, com a finalização da obra de engenharia de uma área de 60 mil m², que será acrescida ao pátio de manobras. O projeto inclui ainda a expansão do pier de 630 metros para 800 metros.

O executivo afirma que a empresa tem um plano conservador de em três anos atingir a capacidade que será alcançada com a atual expansão. Isso significa que novos investimentos estão no radar da companhia, numa terceira fase de expansão. “Temos uma área de 450 metros quadrados (m²); operamos 150 mil m²; e agora estamos expandindo mais 100 mil m². Ou seja, ainda temos muito espaço para crescer.” Ele acrescenta ainda que as licenças obtidas para a ampliação do terminal foram conseguidas para toda a área do porto.

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Descentralizar polos de inovação está no radar

Setor, responsável por 5% do PIB do Estado, precisa ganhar escala, investimentos e sair do circuito Florianópolis, Blumenau e Joinville

Anna Carolina Papp, enviada especial, O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2017 | 05h00

FLORIANÓPOLIS - Na trincheira desde a década de 80, Santa Catarina vem se fortalecendo cada vez mais como um dos grandes polos de inovação e empreendedorismo do País. São quase 3 mil empresas de tecnologia, que já respondem por 5% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado – e que agora têm o desafio não só de ganhar escala, mas de tornar o ecossistema cada vez mais descentralizado.

Juntas, essas empresas faturam R$ 11,4 bilhões por ano, com cerca de 5,3 mil sócios empreendedores e mais de 47 mil funcionários, segundo dados da Associação Catarinense de Empresas de Tecnologia (Acate). “Muitos atores ajudaram a desenvolver esse ecossistema: universidades, incubadoras, aceleradoras e fundos de investimento”, diz Daniel Leipnitz, presidente da Acate. “Outro motor importante foi o programa Sinapse da Inovação, do governo do Estado, que oferece de R$ 60 mil a R$ 100 mil a até 100 empreendedores por ano para que possam desenvolver suas ideias.”

Esses incentivos transformaram Santa Catarina no Estado brasileiro com a maior densidade de startups, ou seja, o maior número de empresas em estágio inicial por habitante – uma a cada 40 mil –, segundo levantamento da Associação Brasileira de Startups (ABStartups) realizado este ano. Em termos absolutos, o Estado ocupa o segundo lugar: concentra 20% das startups brasileiras, atrás apenas de São Paulo, que tem 28,5%.

Outras duas iniciativas recentes que estimularam o segmento foram a criação do projeto Startup SC, do Sebrae Santa Catarina, e o Darwin Starter – aceleradora desenvolvida pelo fundo de investimento Cventures, em parceria com Sebrae/SC, Fiesc, Sapiens Parque, Celta e Fundação Certi.

“O perfil dessas startups é muito variado. Muitas são fortes na área de marketing e vendas, que já veio se consolidando no Estado nas últimas décadas. Mas este ano, foram destaque as fintechs e empresas da área médica”, afirma Alexandre Souza, analista do Sebrae em Santa Catarina.

Uma das principais ações de fomento da instituição é o programa de capacitação, que seleciona 20 startups. Durante cinco meses, os empreendedores participam de uma série de workshops, cursos, palestras e sessões de mentoria, ministrados por especialistas e consultores. “O objetivo final do programa é deixar a startup estruturada, pronta para crescer”, diz Souza. Durante os últimos cinco anos, 140 startups de 23 cidades do Estado participaram do programa.

Outra característica do DNA empreendedor catarinense é que algumas empresas de tecnologia já consolidadas desenvolvem programas para auxiliar e até incubar startups. É o caso da Softplan, uma das maiores empresas de software de Santa Catarina, criada há quase 30 anos.

Como estratégia para ampliar o portfólio de soluções inovadoras para gestão pública, a empresa anunciou no mês passado o investimento em duas startups de Florianópolis: 1Doc e WeGov. O modelo de investimento que a unidade segue é o de Corporate Venture, que mantém os empreendedores no negócio com o apoio da força de vendas, canais, marca e conhecimento de negócio. “Queremos ajudá-los a abrir mercado, dar sustentação nessa fase inicial e interferir o mínimo possível na gestão, para que continuem sendo os donos do negócio”, afirma Moacir Marafon, sócio-fundador e diretor da Unidade de Gestão Pública da Softplan. Ele afirma que a empresa vem estudando mais de 70 startups.

Descentralização. As maiores responsáveis pelo faturamento do setor tecnológico catarinense são as regiões da Grande Florianópolis, com 901 empresas que faturam R$ 4,3 bilhões, e do Vale do Itajaí, com R$ 2,9 bilhões provenientes de 804 empresas. Elas representam, respectivamente, 37% e 25% do faturamento total do Estado em tecnologia.

Ao considerar o faturamento médio, o polo de Florianópolis é o terceiro maior do Brasil, com R$ 4,7 milhões por empresa. A capital catarinense perde apenas para os polos tecnológicos de Campinas (SP) e Rio de Janeiro (RJ).

Alexandre Souza, do Sebrae, aponta que, além de ganhar escala, se projetar no cenário nacional e fomentar mais investimentos, o polo catarinense tem o desafio de se descentralizar – e sair do circuito Florianópolis, Blumenau e Joinville. “A cultura empreendedora tem aos poucos avançado para outras cidades, como Criciúma, Chapecó e Tubarão”, diz Souza.

Em Tubarão, com uma economia voltada especialmente para a fabricação de cerâmica, o setor de tecnologia vem desabrochando aos poucos. A partir da implementação do Comitê de Inovação pela prefeitura local em parceria com empresários da cidade, foi iniciado o fomento do ecossistema de inovação e tecnologia. Uma das empresas referência é a Oestec, que desenvolve soluções digitais para a segurança da informação. “Nunca recebemos nenhum tipo de investimento e hoje crescemos o dobro do mercado de segurança da informação”, diz o presidente da Ostec, Cassio Brodbeck. A empresa já tem presença em todo o território nacional e também no México, Argentina e Colômbia.

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'O ecossistema de Florianópolis é muito forte'

Marcela Graziano criou a Smarket em 2013, aplicativo que potencializa promoções de supermercados e agiliza divulgação

Anna Carolina Papp, enviada especial, O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2017 | 05h00

Logo após se formar, a administradora Marcela Graziano criou o próprio negócio – uma prestadora de serviços de marketing para empresas, entre elas uma rede de supermercado de Florianópolis. Ao ter contato com o processo de criação de promoções, porém, ela observou como essas decisões eram tomadas sem nenhuma estratégia – o que muitas vezes causava grandes prejuízos para os supermercados “Vi que ainda era uma decisão muito empírica e totalmente manual. Não se sabia quais produtos colocar em oferta e qual o melhor preço.”

Foi então que ela criou, em 2013, a Smarket, startup que se propõe a potencializar as promoções e a agilizar a produção de material de divulgação. “O nosso software, pioneiro no País, conecta dados de estoque, validade, preços do concorrente e estatísticas de venda, apontando quais os produtos mais estratégicos para entrar em promoção, em qual momento e por qual preço”, explica. “A pessoa pode escolher uma estratégia: se quer ganhar na margem ou desovar um produto em estoque. Seja qual for a necessidade, apontamos o melhor caminho e automatizamos a produção do material de divulgação.”

O software custa a partir de R$ 5 mil por mês. A empresa atende hoje a 14 redes de supermercado e drogarias espalhadas pelo País, que juntos faturam R$ 12 bilhões por ano. Segundo estudo da Kantar Wordpanel, o Brasil está entre os países que mais geraram valor em ofertas especiais (40,1%) no primeiro trimestre deste ano, superando Inglaterra (38%), Itália (34,5%) e Alemanha (17,4%).

No processo de aperfeiçoamento da solução, a Smarket contou com o apoio do programa de capacitação Startup SC. Hoje, Marcela participa das ações do programa incentivando e ajudando novos empreendedores catarinenses.

Neste mês, a startup recebeu seu primeiro aporte, de três investidores-anjo. Em fevereiro, Marcela vai participar da quinta missão do Startup SC ao Vale do Silício, nos EUA.

“O ecossistema de Florianópolis é muito fértil. Temos apoio da universidade e uma presença forte do Sebrae, que é muito atuante na questão de tecnologia”, diz. “Além disso, há um espírito de comunidade e muita troca entre as startups: quase todo dia tem algum evento de empreendedorismo.”

Outro nicho que tem se fortalecido é o de fintechs, empresas de tecnologia que prestam serviços financeiros. Baseada em Joinville, a Asaas ajuda autônomos, MEIs e micro e pequenas empresas a receber de seus devedores, por meio de um sistema de pagamento e cobrança via cartão de crédito e boletos. A empresa foi fundada pelos irmãos Diego e Piero Contezini – este, também mentor do programa Startup SC, do Sebrae.

“Quando o pequeno empresário tem mais de 20 contas a receber por mês, ele passa a gastar uma hora por dia apenas para lembrar seus clientes do pagamento”, explica Contezini, “Com a nossa plataforma, ele não gasta mais de cinco minutos, pois agenda a data de recebimento e envia, automaticamente ao cliente e-mail, SMS, carta impressa ou até notificação no celular, o que preferir.”

Em 2016, a startup aumentou o faturamento em 320%, e mais de R$ 103 milhões foram transacionados pela plataforma. A empresa já recebeu quatro rodadas de investimento, tendo captado pouco mais de R$ 7 milhões. 

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Santa Catarina quer levar o turismo para além das praias

Economia de Chapecó, Blumenau e Joinville, por exemplo, tem crescido graças ao turismo de negócio

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2017 | 05h00

Conhecida pelo belo litoral, Santa Catarina quer desenvolver o turismo para além das rotas praianas e ampliar ainda mais a participação do setor na economia local. Hoje, o setor representa 12,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado e emprega 210 mil pessoas. Mas o objetivo é melhorar ainda mais esses indicadores, incentivando áreas com grande potencial turístico.

A lista é grande e inclui roteiros diversificados que vão do turismo de negócios à rota dos vinhos na serra catarinense. “A maior preocupação hoje é descentralizar e dessazonalizar o turismo catarinense para não ficarmos dependentes apenas do verão”, afirma o presidente do sistema Fecomércio de Santa Catarina, Bruno Breithaupt. Ele conta que o setor de turismo uniu força nos últimos anos para traçar um planejamento estratégico para estimular o turismo ano todo, aproveitando as potencialidades inexploradas de cada região.

Tradicionalmente, Florianópolis é o principal destino dos turistas no Estado, mas já é possível verificar alguns avanços importantes. O turismo de negócio, por exemplo, tem movimentado a economia de Blumenau, Joinville e Chapecó. O presidente da Fecomércio destaca que atualmente há cerca de dez hotéis em construção na cidade de Chapecó, local que tem se transformado num ponto de encontro dos empresários do agronegócio. Um dos atrativos é o fato de a cidade ter um aeroporto, o que facilita a vida dos investidores.

Há ainda as festas de outubro em várias cidades. Além da Oktoberfest, bastante conhecida no País inteiro, o Estado tem a Festa Nacional do Marreco (Brusque), Exposição Agropecuária, Industrial e Comercial de Chapecó, Marejada (Itajaí) e Fenaostra (Florianópolis). Isso sem considerar o chamado turismo de experiência, que inclui o parque Beto Carrero, a Rota Cervejeira e visita às vinícolas da serra catarinense.

Infraestrutura local. Para estimular o avanço desses roteiros, a Fecomércio tem feito pesquisas e criado indicadores oficiais para medir o desenvolvimento do setor e tomar decisões mais assertivas. Breithaupt afirma que em algumas regiões o governo melhorou os acessos terrestres para atrair turistas, mas as cidades precisam estar preparadas para receber as pessoas com conforto. Ou seja, a iniciativa privada precisa investir na infraestrutura local, com hotéis, pousadas e restaurantes, para fazer o turismo crescer, diz o executivo.

Na avaliação dele, por exemplo, a concessão do aeroporto de Florianópolis vencida pela europeia Zurich Airport deve dar uma boa ajuda ao turismo local, já que o atual terminal estava saturado e sem conforto para os passageiros. Por via terrestre, as obras na BR-101 continuam, mas a concessionária responsável já perdeu os cronogramas algumas vezes.

“Pela quantidade de praias, beleza, condições de hospedagem e gastronomia, Florianópolis é quem recebe mais gente”, afirma Breithaupt. A cidade continuará a ser o centro turístico, mas a tendência é haver menos concentração.

Até setembro, no acumulado de 12 meses, a receita de turismo do Estado havia crescido 11,5% ante um avanço médio de 2,7% do País.

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