Sem lero-lero

Nossa gente é a da canção de Edu Lobo: "Sou brasileiro, de estatura mediana, (...) não tolero lero-lero (...), veja só que coisa estranha, saia dessa se puder." Pois para esse aí, ficou mesmo coisa estranha essa vertigem importada que se abateu sobre os mercados e, sobretudo, o lero-lero das autoridades do País. Ora, garantem elas, o Brasil esbanja saúde e não será atingido. Ora preferem afirmar que ninguém sabe quanto sobrará para nós. O presidente Lula, por exemplo, primeiro declarou que "isso é problema dos bancos americanos". Depois, pareceu preocupado: "Por enquanto, o Brasil está seguro", dando a entender que pode faltar segurança. E, se isso é lá com eles, por que então a nossa Bolsa pode derreter, o dólar voltar a empinar e o prêmio de risco, que define a qualidade da dívida brasileira, passar por tantos estertores? Parte da resposta a essas inquietações é a de que o barco brasileiro está de fato melhor equipado para enfrentar mau tempo, mas isso não significa que consiga evitar o vendaval. Se o resto do mundo está em crise, é inevitável que as águas globalizadas invadam também nossos porões. Nada menos que 51 das ações negociadas no Brasil também são negociadas em Nova York. Fundos de pensão, carteiras de títulos e administradoras de patrimônio detêm (ou detinham) essas ações. E chega a hora em que, desesperado por não conseguir fazer dinheiro com os títulos de segunda linha para os quais não encontra comprador, o gringo não vacila em alijar as ações brasileiras - na base do "to hell with those damn Vale and Petrobras". Preços lá guardam equivalência com os preços cá. Não fosse assim, os mais espertos se encarregariam do nivelamento, bastando para isso que comprassem ativos onde estivessem mais baratos para revendê-los no ato onde fossem mais caros. Assim, não dá para evitar os vagalhões, mesmo levando em conta que essa é uma encrenca original dos americanos, como disse o presidente. Outro impacto provável é o de que os estrangeiros adiem seus investimentos no Brasil. O brasileiro médio estranha, também, a sofreguidão do Fed, banco central americano em socorrer os bancos, os primeiros a despejar dinheiro barato em créditos duvidosos. Sobre isso, apenas uma observação. O Fed não está abrindo os cofres para os bancos. A linha de redesconto é normal, está à disposição a qualquer banco, a qualquer momento. Haja crise ou não haja, é só pedir. A única coisa que o Fed fez foi reduzir os juros desses empréstimos por trinta dias em meio ponto porcentual ao ano. Seu objetivo não é socorrer bancos imprudentes. É facilitar a retirada do prédio em chamas e evitar a disseminação do pânico. De lero em lero, fica no ar uma perguntinha inocente: que valor terá (quando vier) o tão esperado reconhecimento de grau de investimento para a dívida pública brasileira, se as agências de avaliação de risco, que se encarregam da classificação, estão com sua reputação ameaçada por terem passado ratings favoráveis a ativos que agora evaporaram? No mais, é ir levando "a vida a muque, do batente pro batuque" - como prossegue o brasileiro médio do Edu Lobo.

Celso Ming, O Estadao de S.Paulo

07 Agosto 2018 | 00h00

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