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Setor cafeeiro já aponta graves danos para safra 2015 do Brasil

CAROLINE STAUFFER - REUTERS

19 Agosto 2014 | 16h 24

Produtores e pesquisadores estão detectando graves danos nos cafezais do Brasil depois da seca do começo deste ano e dizem que 2015 poderá registrar a menor safra de café arábica em uma década no maior exportador do mundo.

A pior sequência de calor e tempo seco já registrada na área produtora de café do Brasil reduziu a safra em 30 por cento na colheita praticamente concluída de 2014 em algumas regiões, e puxou uma alta de 55 por cento nos preços do café arábica <KCc1> em 12 meses, ao maior nível em dois anos.

No primeiro sinal concreto de uma safra menor em 2015, as flores apareceram um mês mais cedo que o normal em algumas áreas. Depois da seca, chuvas de até 50 milímetros em julho induziram a floradas isoladas em agosto, algo pouco usual em Minas Gerais até setembro e outubro. [nL2N0QO1C5]

"A próxima safra vai acabar muito seriamente comprometida", disse o professor José Donizete Alves, especialista em café da Universidade Federal de Lavras, em Minas Gerais, apontando para um ramo atrofiado e com um fungo atípico.

Ele estima que o Brasil produzirá entre 24 milhões e 27 milhões de sacas de café arábica em 2015 e que a florada possa ocorrer várias vezes nesta temporada, impedindo a realização da colheita de uma só vez no próximo ano.

A florada fragmentada e as previsões pessimistas poderiam reacender as preocupações que dois meses de calor extremo representaram para a produção de grãos arábica de alta qualidade no Brasil deste ano, potencialmente aumentando ainda mais os preços, prejudicando os lucros dos pequenos agricultores e forçando torrefadores a buscar novas fontes ou a contar com o café robusta, de menor qualidade.

ESTOQUES BAIXOS

A safra de café arábica no Brasil não cai abaixo de 24 milhões de sacas desde 2005. O governo previu uma safra de 32 milhões de sacas de arábica em 2014, em maio, ante 38 milhões de sacas em 2013.

Uma safra ruim em 2015 ocorreria em um momento de oferta baixa no maior produtor global. O Centro do Comércio do Café do Estado de Minas Gerais alertou na semana passada que os estoques de passagem do Brasil estão se esgotando. [nL2N0QK0RF]

Luiz Reis, agrônomo da empresa de assistência técnica do governo, a Emater, em Varginha, chamou a florada em agosto de "altamente prejudicial", devido à probabilidade de que as flores caiam em vez de produzir frutos. Qualquer grão de café que vingue provavelmente será desperdiçado diante da inviabilidade econômica de colher uma quantidade tão limitada de grãos fora da temporada.

"A florada está antecipada e esse café vai chegar muito cedo, café verde, café cereja e café seco", confirmou Carlos Paulino, presidente da maior cooperativa do Brasil, a Cooxupé.

Cooperativas e pesquisadores falaram de cafezais em plena floração em Boa Esperança e Campos Gerais, municípios do sul de Minas Gerais, região que produz um quarto de café do Brasil, bem como na região denominada Cerrado.

Para o agrônomo Antonio Wander, de um grupo local de pesquisadores, a florada precoce é apenas o começo dos problemas para a safra 2015 porque as plantas sofreram mudanças fisiológicas por causa da falta de água.

As árvores estão desenvolvendo apenas 8 a 10 internódios, que seguram as cerejas em seus galhos, disse ele, quando deveriam desenvolver cerca de 15 por ano.

Além disso, os produtores não aplicaram os fungicidas e fertilizantes mais cedo no ano, disse Reis, da Emater, porque eles estavam esperando as chuvas que nunca vieram para aplicar os tratamentos. Agora, as folhas estão manchadas com pontos escuros do fungo da ferrugem, o que normalmente é apenas uma preocupação em março.

Viajando entre centros produtores de Minas Gerais, desde Varginha a Três Pontas, entre 11 e 14 de agosto, a Reuters também viu campos cheio de árvores sem folhas, um sinal de que muitos produtores estão optando pela poda das plantas para economizar custos em vez de colher uma pequena safra em 2015.

O impacto da seca não foi uniforme no país ou mesmo em Minas Gerais. A estiagem poupou amplamente a safra de robusta, cultivada sobretudo no Espírito Santo.

Mas o Conselho Nacional de Café do Brasil já alertou que a safra total de 2015 pode vir abaixo de 40 milhões de sacas.

(Com reportagem adicional de Roberto Samora, em São Paulo)