Snapchat amadurece

O verdadeiro concorrente do Snapchat é o Instagram. Ambos partem da mesma aposta

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

17 Fevereiro 2017 | 05h00

Segundo o ReCode, site de referência na cobertura de tecnologia, o Snapchat deve abrir capital na Bolsa de Nova York no dia 1.º de março. Caso tudo ocorra como previsto, os dois jovens fundadores, Evan Spiegel e Bobby Murphy, devem chegar ao dia 2 com uma fortuna pessoal na casa de US$ 4 bilhões cada. Eles têm, como é típico das histórias no Vale do Silício, 26 e 28 anos. (Steve Jobs tinha 25 anos quando a Apple fez seu IPO)

Mas essa, por outro lado, não é uma história típica do Vale. Porque o Snapchat não é um sistema trivial de explicar.

Quando os papéis do Facebook começaram a ser negociados na Nyse, em 2012, houve muita discussão a respeito de seu real valor. Houve intenso debate sobre as dificuldades de migrar o hábito de uso para o celular e, ainda, se seria possível fazer dinheiro no mobile. Discussões legítimas a respeito do valor de um negócio. O Twitter, quando estreou na bolsa em 2013, foi carregado pela forte impressão que deixara como plataforma de informação em plena Primavera Árabe.

Mas ninguém precisava explicar para os investidores como o Facebook funcionava ou o que era o Twitter.

Snapchat é a rede social para a turma de 20 e tantos ou menos. Esta é uma afirmação típica. É verdade, por um lado. É uma rede de perfil bastante jovem. Mas uma das pessoas que definiu a linguagem da rede, o DJ Khaled, é um americano obeso filho de palestinos que já passou dos 40.

Linguagem é importante, aqui. Aliás, fundamental, pois linguagem define o Snapchat.

Quando nasceu, partia de uma ideia singela: as pessoas gostariam de ter um aplicativo para envio de mensagens que pudessem expirar. Que não permitisse guardar cópias. Abertamente, ninguém falava, mas a ideia era clara: envio do que no vernáculo da internet até no Brasil se convencionou chamar nudes. Selfies sem roupa para paqueras eventuais com a garantia de que não seria possível distribuir depois.

E seria um app de nicho que, por conta da ideia chamativa, ganhou no lançamento enorme publicidade. Não houve site que não fizesse uma matéria engraçadinha sobre o Snapchat. Mas aí, em meados de 2014, a empresa lançou um novo recurso. Stories: não o envio de uma foto ou um vídeo, mas uma lista cronológica, uma sequência de fotos e vídeos nos quais o usuário pode interferir com desenhos e texto. Uma história que fica 24 horas no ar e, depois, expira. Vai embora.

O que Khaled e outros começaram a perceber cedo é que aquele encadeado de imagens e filmetes produzidos no celular construíam mais do que um resumo do dia. Havia ali uma estética do improviso e um espaço para um novo jeito de narrar, encadear ideias e sensações sobre o cotidiano. O Snapchat não é fácil de usar de primeira, é preciso aprender. Mas quem gosta, usa muito.

Não é um novo Facebook. A rede de Mark Zuckerberg tem 1,23 bilhão de usuários que a frequentam diariamente. No universo social, nada se aproxima do Facebook. Também não é um Twitter, concentrado em notícias e textos curtos, sempre ligado no ao vivo, no aqui e agora. O verdadeiro concorrente do Snapchat é o Instagram. Ambos partem da mesma aposta: a linguagem da internet no celular é formada por imagens. Se no Instagram há uma busca estética, da fotografia bonita, no Snapchat a coisa é mais crua.

No ano passado, o Instagram lançou suas Stories. É igualzinho ao Snapchat. E aí está a ameaça. A turma do Snapchat tem 158 milhões de usuários ativos todo dia. Mas o Instagram tem 300 milhões. E, destes, metade já usa as Stories. O recurso nasceu na concorrência, mas já foi assimilado.

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