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Sobre cartões

Por que os 'bons e velhos' cartões de visita continuam a prosperar mesmo em tempos comandados pelo digital

The Economist

18 Março 2015 | 02h05

Os detalhes podem variar. Os americanos jogam seus cartões de visita informalmente sobre a mesa; os japoneses trocam seus cartões de modo tão requintado quanto uma cerimônia do chá. Alguns cartões são discretos. Guangbiao Chen, magnata chinês, coloca nos seus frases como "herói no resgate em terremotos na China", ou "o filantropo mais notável da China", ou ainda "o primeiro especialista em demolição de preservação ambiental da China", e, no caso de você não ter entendido a mensagem, "a pessoa mais influente da China". Mas a troca de cartões de visitas é quase um ritual universal, como você pode descobrir no mundo corporativo.

Os cartões de visita existem há muito tempo de uma forma ou de outra. Os chineses inventaram os cartões de visita no século 15 e a finalidade era avisar uma pessoa a intenção de visitá-la. Os comerciantes europeus inventaram os cartões de visita no século 17 para usá-los como propaganda em miniatura.

Cartões podem provocar fortes emoções. Nada provocará mais discussão numa reunião de diretoria que o design dos cartões de visita da companhia, disse um diretor veterano. No romance American Psycho (Psicopata americano), de Bret Easton Ellis, o anti-herói assassino em série tenta impressionar alguns companheiros mestres do universo com seu novo cartão de visita. Ele fica cabisbaixo quando todos exibem seus cartões igualmente elegantes - e irritado quando alguém mostra o cartão de um colega ausente em papel mais grosso e com marca d'água.

Muitas companhias tentam transformar seus cartões em miniaturas que fazem referências a seus produtos. Os funcionários da Lego distribuem figuras de plástico em miniatura com os detalhes de contato inscritos nelas. Os cartões de visita do McDonald's têm o formato de uma porção de fritas.

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O mundo dos negócios tem odsessão pela inovação. Mas há muitas coisas que não precisam ser rompidas
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A Bon Vivant, loja brasileira especializada em queijos, usa a miniatura de um ralador de queijo como cartão. Um advogado canadense especialista em divórcio ofereceu uma vez cartões de visita que podiam ser divididos em dois - um para cada uma das partes em litígio.

Para os utópicos da tecnologia, esses artifícios servem para mostrar que o cartão de visita físico está nos seus últimos dias. Afinal, por que o incômodo de trocar pequenos pedaços de papel grosso quando você pode simplesmente trocar versões eletrônicas dele por smartphone?

Mas podemos oferecer argumentos contrários: os cartões de visita estão aí para ficar e, numa correria de reuniões e correspondências, é mais importante do que nunca que seu cartão se projete. As tentativas para reinventar os cartões de visita adaptando-os à era digital deram em nada. Mesmo nas reuniões de tecnologia mais modernas do Vale do Silício, as pessoas ainda se cumprimentam oferecendo os pequenos retângulos feitos de árvores abatidas em vez de digitarem seus telefones. O chefe do Facebook, Mark Zuckerberg, que por um curto período teve um cartão de visita impresso com "I'm CEO, bitch", agora distribui uma versão mais razoável, adulta.

O fato de os cartões de visita estarem prosperando numa era digital é um lembrete vigoroso de que há muita coisa no campo dos negócios que é atemporal. Por exemplo, a eterna e inescapável questão da confiança numa pessoa. O número de coisas que as máquinas podem realizar melhor do que os humanos cresce a cada dia. Mas elas não conseguem olhar as pessoas nos olhos e decidir que tipo de pessoas elas são. E não podem transformar conhecimentos em relacionamentos. Uma boa parte da vida comercial sempre terá a ver com a criação de vínculos sociais - jantar com as pessoas, praticar uma atividade esportiva em conjunto, até beber com elas - e quanto mais as máquinas assumem a parte quantitativa mais os seres humanos terão de se concentrar no lado humano, tátil.

O rápido avanço da globalização e da virtualização significa que o processo de gerar confiança vem se tornando cada vez mais difícil. Os empresários precisam se empenhar mais para conquistar a confiança de pessoas de culturas diferentes: diretores executivos de organizações globais rotineiramente gastam três a cada quatro semanas viajando. E também têm de utilizar de um modo melhor as reuniões pessoais para reforçar vínculos que antes eram criados pelo telefone ou pela internet.

Neste caso os cartões de visitas são duplamente úteis. Podem ser uma maneira rápida de estabelecer relações, particularmente na Ásia, onde eles são quase uma obsessão. Os chineses estão seguindo os japoneses, tratando os cartões como objetos quase sagrados. Alguns empresários distribuem cartões de ouro 24 quilates. As crianças nas creches às vezes portam cartões não só com detalhes de contato, mas com descrições do trabalho de seus pais e avós.

Os cartões também funcionam como um lembrete físico de que você realmente se reuniu com uma pessoa, e não apenas a conheceu pelo Google. Revolver pilhas de cartões diferentes ajuda a lembrar de reuniões de uma maneira que o exame de listas eletrônicas uniformes jamais permitiria. E podem até provocar um sorriso: David Cheesewright, diretor da divisão internacional da Walmart, distribui cartões em miniatura feitos de papel reciclado inscritos com o nome "Dave", presumivelmente tentando convencer as pessoas de que, pelo menos em espírito, o Walmart é a sua loja amiga da esquina.

Você sabe quem sou eu? Os cartões de visitas também são prova de um segundo princípio de atemporalidade: a hierarquia ainda é importante. Gurus da administração como Gary Hamel, da London Business School, proclama as virtudes das estruturas de administração menos inchadas. Empresas como a Zappos, loja de sapatos online, tenta se administrar como uma "holacracia" colegiada (sistema de governança organizacional em que a autoridade e a tomada de decisões não emanam do topo da hierarquia, mas são distribuídos por equipes auto-organizadas). Mas os cartões de visita contam uma história diferente: o cargo ocupado por alguém é parte essencial de sua identidade (os cartões engraçados de Cheesewright não deixam nenhuma dúvida quanto a sua importância). A troca de cartões de visitas não é apenas uma maneira de desencadear uma conversa. É também um meio de inserir as pessoas corretamente na hierarquia sem o embaraço de perguntar a elas qual o seu cargo oficial.

O mundo dos negócios tem obsessão pelo conceito de inovação disruptiva. Mas há muitas coisas que não necessitam ser rompidas ou inovadas. Seu colunista acha que os jornais em papel são menos complicados do que os eletrônicos. Jantar com uma pessoa é uma maneira melhor de conhecê-la do que conversar pelo Skype. E a troca de cartões de visitas ainda parece ser uma maneira excelente de iniciar uma relação duradoura. O ritual de troca dos retângulos de papel pode estar ultrapassado, mas vai continuar.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR TEREZINHA MARTINO, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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