Alan Santos/PR
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Suspensão da Previdência por intervenção no Rio não afeta o mercado

Investidores já não contavam com a aprovação da mudança nas regras de aposentadorias, diante da dificuldade do governo de reunir os votos necessários para passar a proposta na Câmara

O Estado de S.Paulo

16 Fevereiro 2018 | 11h21

Uma melhora no mercado internacional favoreceu o desempenho positivo dos ativos brasileiros nos negócios da última hora. As bolsas de Nova York ampliaram os ganhos nos últimos minutos, com uma melhora do apetite por risco, neste que agora caminha para ser o sexto pregão consecutivo de alta em Wall Street. Os preços do petróleo também ampliaram o ritmo de valorização, o que favorece o fortalecimento das moedas de países exportadores da commodity.

Já a decisão do governo de fazer uma intervenção na segurança do Rio de Janeiro, o que na prática deve enterrar de vez a possibilidade de votação da reforma da Previdência, teve pouco impacto nos mercados financeiros agora pela manhã. A avaliação é que os investidores já não contavam mesmo com a aprovação da mudança nas regras de aposentadorias e pensões no País, diante da dificuldade do governo de reunir os 308 votos necessários para passar a proposta na Câmara dos Deputados. No jargão do mundo financeiro, esse cenário já estava "precificado" nas decisões de investimento. 

Às 14h32, o índice Dow Jones tinha alta de 0,46%, enquanto o S&P-500 e o Nasdaq avançavam 0,42% e 0,29%, respectivamente. Por aqui, o Índice Bovespa subia 0,10%, aos 84.377,27 pontos. O dólar à vista era negociado por R$ 3,2221, em baixa de 0,21%. No mercado futuro de juros, a taxa do DI para liquidação em janeiro de 2021 tinha taxa de 8,66%, ante 8,72% do ajuste de ontem.

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Na última hora, a B3 informou que os investidores estrangeiros retiraram R$ 692,041 milhões do mercado de ações no pregão da última quarta-feira (14). Foi o sétimo pregão consecutivo de retiradas. Com o resultado, em fevereiro o fluxo estrangeiro está negativo em R$ 5,016 bilhões. Em 2018, o saldo está positivo em R$ 4,533 bilhões.

Para a economista-chefe da Rosenberg Associados, Thaís Zara,  a  provável suspensão da reforma da Previdência o efeito limitado nos mercados é o esperado,  uma vez que a perspectiva já era de não aprovação da medida este ano. Enquanto a intervenção vigorar, não pode haver alteração na Constituição. Ou seja, nenhuma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) pode ser aprovada. É o caso da reforma da Previdência, que estava prevista para começar a ser discutida na segunda-feira pela Câmara.

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Mas, segundo Thaís, a intervenção poderia ter sido adiada por duas semanas, por exemplo, se o governo tivesse votos para aprovar as mudanças na aposentadoria. "Mas, como não tem votos, decidiu atacar outro problema", diz, indicando que o governo pode ter decidido sair pela tangente. "A reforma aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) fica para o próximo presidente."

Contudo, a economista não acredita que as pautas econômicas ficarão todas paradas. "O que exige mudanças na Constituição de fato não será possível fazer por conta da intervenção, mas projetos de lei e Medidas Provisórias (MP) devem continuar normalmente.

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Sobre o efeito da intervenção na economia, Thaís avalia que, se bem realizada, pode aumentar a sensação de segurança e ter efeito positivo na economia, mas diz que é um impacto difícil de mensurar e, a princípio, deve ser pequeno.

O economista-chefe da Western Asset, Adauto Lima, diz que a possibilidade de aprovação da reforma da Previdência ficou ainda mais minguada diante do novo quadro. "O ponto é que parece que a votação da reforma fica parada", diz.

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Em suas estimativas, a chance de aprovação da reforma já era baixa, de cerca de 10%. "Agora, ficou bem diminuta, assumindo a ideia de que isso (a intervenção) barre a PEC", afirma. Na opinião de Lima, ainda que a situação na segurança do Rio possa aumentar as incertezas, ainda é precoce afirmar que isso tenda a afetar a confiança em nível nacional e, consequentemente, a retomada econômica que está em curso. "O ponto é se o que está sendo feito será pontual, ou permanente", diz.

De acordo com o economista, a tomada de decisões de investimento leva tempo e, caso as empresas comecem a questionar o nível de segurança do País, aí, sim, poderia atingir a retomada econômica./Ana Luísa Westphalen, Thaís Barcellos, Maria Regina Silva e Paula Dias 

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